Inflação: o legado de Dilma

Aparentemente, a presidente percebeu que há um processo inflacionário disseminado no Brasil. Ao liberar o BC a aumentar a Selic em 0,5 ponto porcentual, passou a impressão de que há uma preocupação verdadeira com a inflação. Mas, convenhamos, continua sendo apenas uma impressão. Afinal, o IPCA médio se mantém em 6% por ano desde 2008, com exceção do ano recessivo de 2009. De repente, Brasília ficou sensível.

ANÁLISE: Sergio Vale , ECONOMISTA-CHEFE DA MB ASSOCIADOS, ANÁLISE: Sergio Vale , ECONOMISTA-CHEFE DA MB ASSOCIADOS, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h05

Controlar a inflação hoje no Brasil vai além de permitir um aumento moderado de juros. Acreditar que a Selic possa ir a 9,5% ainda este ano como apostamos não trará a inflação de volta para a meta simplesmente porque o problema hoje não é apenas de ajuste de ciclo, mas de ajuste de credibilidade e, para isso, exigiria uma reação muito mais agressiva do BC para a sociedade acreditar que o governo está de fato trabalhando pelos 4,5%. Considerando que 2014 será um ano eleitoral, fica difícil acreditar que o BC terá muita liberdade de ação. Vai ter de aceitar uma inflação maior, conivente como tem sido já há algum tempo. A política monetária virou o que é a política fiscal, ninguém mais acredita que funciona. Por isso, mantemos firmemente 6% de IPCA este ano e 6,5% ano que vem.

Como resposta a essa economia com inflação persistentemente mais elevada há duas alternativas. Ou se faz um ajuste doloroso, ortodoxo, em 2015 ou se ajusta a meta de inflação para cima, justificando essa escolha pela mudança do cenário de política monetária nos EUA. Lá atrás o BC já usou crises cambiais para justificar aumentos temporários na meta. Naquele momento o BC tinha credibilidade. Desta vez, será um ajuste oportunista, como tem sido o plantel de política econômica até agora.

A aposta de quem acredita numa virada do governo é de que a situação vai se deteriorar tanto que não haverá escolha para Dilma. Não creio. Creio que, sim, vai piorar muito ainda. Mas acreditar que políticas realmente ortodoxas serão usadas depende de acreditar em mudança radical da equipe econômica e da própria Dilma, artífice de erros atrás de erros na política econômica e de um pensamento atolado em equívocos.

Por isso, caro leitor, contente-se em conviver com inflação alta e crescimento baixo. Não há muito mais que esse governo possa oferecer.

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