Inflação pode reduzir fôlego do PIB

Economistas começam a refazer contas para 2008, mas no 2.º trimestre deste ano o crescimento foi vigoroso

Márcia De Chiara, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

A disparada da inflação dos alimentos, que acumula 5% nos três últimos meses - cerca de cinco vezes a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no período -, deverá diminuir o poder de compra da população e o ritmo de crescimento da economia no ano que vem. Consultorias já começam a reduzir as projeções de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2008.Amanhã, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o PIB no segundo trimestre. A expectativa é de que o resultado seja vigoroso, com alta de 5% a 6,5% na comparação com igual período de 2006. Para o fechamento deste ano, a maioria das instituições financeiras ouvidas pelo Boletim Focus, do Banco Central (BC), apontam para um crescimento de 4,71%, um pouco menor que a taxa esperada pelo governo, de 5%.O ajuste da projeção para 2008 ainda é pequeno, mas aborta a possibilidade crescimento mais vigoroso do PIB. Se o otimismo inicial fosse mantido, o País poderia se aproximar da média de crescimento dos demais emergentes, na casa de 7% ao ano.O Departamento Econômico do Bradesco, por exemplo, diminuiu de 4,6% para 4,4% a estimativa do PIB para 2008 e ampliou de 4,1% para 4,3% a perspectiva de inflação medida pelo IPCA para o mesmo período. Segundo economistas do banco, antes da eclosão da crise financeira nos Estados Unidos, o cenário era mais otimista.Na semana passada, o próprio BC deu sinais de que o cenário é outro ao desacelerar o corte na taxa de juros básica, de 0,5 para 0,25 ponto porcentual.''''Estamos menos otimistas. Vamos reduzir o crescimento do PIB para 2008 esta semana, depois da divulgação do PIB do segundo trimestre'''', diz o economista da LCA Consultores, Braulio Borges. A consultoria projeta alta de 4,8% para 2008 e deve reduzi-la para algo em torno de 4,5%.Borges argumenta que a mudança ocorre não tanto por causa da desaceleração na queda dos juros básicos, mas pela alta dos preços dos alimentos. Ele explica que, a exemplo dos Estados Unidos, onde a gasolina tem peso importante no consumo das famílias e quando o preço sobe, a demanda cai, no Brasil os alimentos têm comportamento semelhante.Alimentos e bebidas respondem, no País, por 25% do consumo das famílias que, por sua vez, representam 60% do PIB. Como os alimentos têm peso elevado e o consumo não pode ser radicalmente cortado, quando os preços sobem, sobra menos dinheiro para outros itens.Os produtos mais afetados, nesse caso, serão os bens semiduráveis, que dependem menos do crédito. Para 2008, a consultoria ampliou de 3,7% para 3,9% a projeção do IPCA. Borges ressalta que a pressão dos alimentos deve continuar no primeiro semestre de 2008.''''Não revisamos a projeção do PIB para 2008 ainda'''', afirma o sócio da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros. Hoje o economista estima um crescimento de 4,8% para o ano que vem. Apesar de não ter alterado a projeção, por enquanto, ele diz que a aceleração do crescimento será menor em 2008, com uma taxa real de juros mais alta, que deve conter a expansão do crédito.''''Acredito que a inflação não mostrou toda a sua face'''', afirma Mendonça de Barros. Ele lembra que a demanda está se expandindo rapidamente e percebe que o número de itens que compõem o IPCA que apresentam elevação de preços é crescente. No indicador de agosto, cerca de 45% dos produtos tiveram aumentos de preços. Isso confirma a disseminação dos reajustes entre os setores.O economista acrescenta que volatilidade da taxa de câmbio também contribui para a remarcação dos preços. ''''Nenhum empresário trabalha mais com um cenário do câmbio em R$ 1,80.''''Além do câmbio e da inflação, Mendonça de Barros argumenta que as previsões para a taxa básica de juros mudaram. Antes da eclosão da crise financeira e da disparada dos alimentos, a expectativa era de que a Selic recuasse para 10% ao ano em dezembro de 2008, agora a projeção é 10,5%. Segundo a consultoria, a Selic, que foi reduzida para 11,25%, deve se manter nesse nível no primeiro trimestre de 2008.Para a RC Consultores, a perspectiva era de que a taxa básica recuasse para 8,5% e 9% ao ano em dezembro de 2008. Com a crise financeira e a subida da inflação, a consultoria acha que a Selic deve recuar para 10% no fim de 2008. ''''A crise financeira e o aumento da inflação abortaram um crescimento mais acelerado que a economia poderia ter em 2008'''', afirma o sócio da RC Consultores, Fábio Silveira.Segundo ele, as incertezas aumentaram para o ano que vem e a inflação mudou de patamar. A consultoria mantém a previsão de crescimento do PIB para 2008 em 4,7% porque já se trata de uma previsão conservadora.Para a economista chefe do ABN-Amro Brasil, Zeina Latif, o fato de a economia hoje já estar trabalhando acima do PIB potencial, que é de 4,5%, deve limitar o ritmo de crescimento em 2008.

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