Inflação precisa de uma força-tarefa do governo

A coisa não está boa, não, nem lá fora nem aqui. A inflação no Brasil e no mundo aumenta a cada dia, puxada pelos preços dos alimentos e dos combustíveis. O petróleo continua a caminho dos US$ 150, sem perspectiva de recuo. Aqui, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, admite que o teto da inflação, de 6,5%, pode ser superado. Realista, afirma que 73% dos índices que compõem o indicadores de preços estão subindo. Ou seja, a inflação veio para ficar, pelo menos neste ano.Alguns economistas acreditam que, num dado momento, o BC terá de jogar a toalha, pois a política de juros altos não será suficiente para desacelerar a demanda. Pode não ser bem assim. Isso foi possível no passado, embora ao preço de baixo crescimento.GOVERNOS ATENTOS, MAS...Os governos da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos estão atentos, mas hesitam. O Fed, banco central americano, reconhece o dilema entre inflação e crescimento. Não vai reduzir novamente a taxa de juros, deve mantê-la na próxima reunião, mas teme ter que elevá-la no último trimestre, se persistir a inflação. O Departamento do Comércio dos EUA informou que os preços pagos pelos produtores aumentaram 1,4%; logo estarão sendo repassados para o consumidor.Só para ver como a nossa inflação é alta, está próxima de 6%; na Eurozona, está em 3,7%; nos EUA, em 4,2%; e nos 30 países desenvolvidos da OCDE, em 3,4%, em média. Vai ficar assim? Tudo diz que sim. Continuam intactos os fatores de pressão sobre os preços. A demanda mundial por alimentos continua firme. Nada menos de 200 milhões de pessoas entram a cada ano no mercado de consumo, sem contar outras centenas de milhões que passaram a ganhar mais com a migração do campo para as cidades. Os chineses, por exemplo, "descobriram" a carne bovina. A isso soma-se o forte aumento dos preços dos insumos agrícolas, principalmente fertilizantes, e do transporte, decorrente do petróleo em US$ 130. FORÇA-TAREFA, PRESIDENTE!No Brasil, o governo anuncia uma batalha ainda não campal contra a inflação, mas os "soldados" estão mal dispostos no campo de batalha e faltam armas adequadas. Por enquanto, só existe a espada dos juros. Anuncia-se restrições ao credito fácil, mas nada de efetivo se fez nesse sentido. O que o presidente Lula precisa, isso sim, é arrumar uma "força-tarefa" contra a inflação, mobilizando todos os ministérios, oferecendo fortíssimos estímulos à agropecuária - não só à agricultura familiar; ela é importante, sim, mas não é tudo. Nessa força tarefa, deve-se chamar as classes produtoras, a industrial, a comercial, a agrícola, peça chave na transmissão dos preços inflacionados. Cuidado, presidente, nada de congelamento, tabelamento, fiscalização de preços. Não funcionam; ao contrário, levam à sonegação dos produtos e ao desestímulo à produção. Mas, acima de tudo, é preciso uma intensa e enorme campanha pública para esclarecer as pessoas, os consumidores, o povo sobre "o que é a inflação". Para eles, é apenas aumento do feijão com arroz, mas é preciso explicar mais, fazer o povo compreender as causas, os efeitos, mostrar o perigo de comprar acima do necessário, só para estocar e fugir do aumento.CONTARAM A ELAS?Conto um fato. Vejo no supermercado uma senhora comprando, avidamente, 10 quilos de arroz e 6 de feijão, que coloca no carrinho já quase lotado. Apresento-me, cumprimento-a, delicadamente; pergunto porque comprou tanto, ela responde que é para guardar porque os preços estão subindo muito. Esclareço que, se ela e todos continuarem a comprar tanto, vai faltar e aí, sim, é que os preços vão subir ainda mais. Não é assim?, pergunto. A senhora de classe média me olha, com ar de simpática reprovação, e me dá uma aula de economia que nem Keynes gostaria de perder:- Olha, senhor, se eu não comprar para guardar, mas as outras continuarem comprando, como estão fazendo, o senhor pode ver, os preços vão subir da mesma maneira, não vão? E, numa frase que me lembrou o nosso suave Garrincha:- O senhor já falou isso para elas?E a simpática senhora lá se foi, enchendo o carrinho em e ajudando a aumentar os preços. Estava consciente disso, mas sentia-se impotente, enquanto as outras senhoras também carregavam carrinhos lotados para a caixa onde, sabem, iriam pagar em três vezes sem juros... É... E eu fiquei lembrando a frase de Alan Greenspan, que, no fundo, há muito de psicologia na economia, na decisão do consumidor de comprar, gastar ou não. O nosso consumidor, antes comprava mais porque ganhava mais; agora, porque tem medo que o preço aumente. E logo, logo, podemos ver ressuscitadas aquelas maquininhas fatídicas de remarcar preços, às vezes na calada da noite dos pãos-de-açúcar da vida, nos quais sempre evito entrar.GABINETE DE GUERRA É isso o que o governo e o País precisa para evitar essa "doença desgraçada" (por que não maldita?) da inflação, que empobrece mais os mais pobres, os de menor renda, esses mesmos que, lembrou o senhor, na Bovespa-BMF, que estão sustentando a economia porque passaram a consumir mais.Presidente, nada de reuniões de gabinete com alguns ministros. Isso não funciona. É preciso criar um "gabinete de guerra", nomeando um comandante forte, com poder sobre os ministérios, para coordenar e executar imediatamente a operação. Como o Fernando Henrique fez no racionamento de energia. Mas, presidente, não espere tanto quanto ele. O senhor viu, ajudou a elegê-lo.Será tão urgente e necessário? Sim, presidente. A inflação chegou, já está subindo dia a dia, e as causas estão aí, intactas, fortalecidas cada vez mais. Ou o governo age com rigor agora, estimulando fortemente a produção, importando com o dólar baixo, convocando a sociedade, ou, acredite, presidente, vamos terminar um ano com uma inflação de 10%.Terrorismo? Que seja. Aceito o epÍteto de terrorista da inflação, desde que isso evite a contaminação de preços, depois o retorno anestesiante da indexaçÃo. Sabe, presidente, nós já tivemos inflação de mais de 2000% ao ano. O senhor se lembra? *E mail: at@attglobal.net

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