Inflação resiste e desafia economia

Taxa de juros elevada e a maior recessão desde a década de 30 não foram suficientes para levar o índice para dentro da meta do BC

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2016 | 05h00

Nos últimos anos, a economia brasileira tem enfrentado um paradoxo e desafiado a macroeconomia. A pior recessão desde a década de 30 e a taxa básica de juros (Selic) num patamar elevado não têm sido suficientes para reduzir a inflação na velocidade esperada. Para boa parte dos países, um quadro como o do Brasil seria suficiente para derrubar os preços.

Por ora, o relatório Focus, boletim semanal do BC que colhe projeções de uma centena de analistas de mercado, aponta que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerre este ano em 7,31%, portanto novamente acima do teto da meta do governo, que é de 6,5% – no ano passado, a inflação foi de 10,67%. “Havia uma expectativa que, passado o período de reajuste de preços contratuais de início de ano, haveria uma queda mais rápida da inflação”, afirma Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada e ex-presidente do Banco Central.

Os economistas encontram razões estruturais e de curto prazo que dificultam a queda da inflação no Brasil. A mais antiga delas está relacionada com um comportamento inercial histórico da economia.

“Os fixadores de preço, sobretudo as firmas, guardaram provavelmente alguma memória do período pré-Plano Real, o que nos faz ter uma inércia muito grande”, afirma Márcio Garcia, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio. “Ainda é preciso entender porquê as firmas, numa situação em que não conseguem vender o produto, em vez delas abaixarem o preço, preferem manter ou até o mesmo aumentar o preço”, diz Garcia.

Num recorte mais recente, a alta inflação, de acordo com analistas, pode ser explicada pela política econômica adotada na gestão da presidente afastada Dilma Rousseff.

No ano passado, por exemplo, boa parte do aumento do IPCA, ocorreu como consequência da decisão da equipe econômica do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff de controlar o aumento de preços administrados, como o da energia elétrica e de combustível, ao mesmo tempo em que promoveu uma expansão fiscal.

“O ajuste dos preços administrados deve ter sido concluído, mas alguma coisa dele deve ter ficado na forma de repasse”, diz Salomão Quadros, superintendente adjunto de inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Para os economistas, a inflação também mostrou força por causa da política monetária adotada na gestão de Alexandre Tombini no BC. Entre outubro de 2013 e março de 2014, a Selic chegou a 7,25% ao ano – o menor patamar da história –, mesmo com a inflação distante do centro da meta (4,5%).

“A redução da taxa de juros permitiu que a inflação ganhasse nova força. A política monetária, boa parte do tempo, foi um pouco mais acomodatícia, sobretudo por causa daquela experiência de redução drástica da taxa de juros”, afirma Salomão Quadros, superintendente adjunto de inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). “Há uma histórico pró-inflação em várias fontes. Foi feito tudo para a inflação subir”, diz Quadros.

Neste ano, as expectativa tem sido frustradas por causa do comportamento do preços dos alimentos, reforçando o quadro complicado herdado dos últimos anos. “Cada mês aparece um vilão”, afirma Loyola. Em julho, por exemplo, o preço do feijão-preto subiu 41,59%, o carioca avançou 32,42%, e o mulatinho aumentou 18,89%.

Caminho de queda. Embora a inflação mostre uma força inesperada, os economistas acreditam que está sendo traçado um caminho de queda para a inflação. Em 2017, os analistas consultados pelo Focus projetam o IPCA em 5,14% – o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, já afirmou que espera trazer a inflação para a meta de 4,5% no ano que vem.

“Quando a gente olha para frente, eu acho que as perspectivas são otimistas. Primeiro, os aspectos sazonais tendem a desaparecer ao longo do tempo. Segundo, existe um trajetória de taxa de câmbio que deve ajudar a inflação a cair. E a política monetária se mantém bastante restritiva, embora a política fiscal continue expansionista”, afirma Loyola.

 

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'Acho que as perspectivas são otimistas'

Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central</p>

O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2016 | 05h00

“Existe uma questão estrutural já observada há algum tempo que está relacionada com o alto grau de inércia da inflação brasileira e com sua baixa resposta à queda da atividade econômica. O Banco Central veio aumentando os juros e neste ano esperávamos uma queda mais rápida, principalmente quando se monitorava os preços que são formados em mercados como o de serviços. A inflação de serviços demorou para cair, e o recuo vem se dando de maneira bastante atenuada. Agora, quando a gente olha para frente, eu acho que as perspectivas são otimistas. Primeiro, os aspectos sazonais tendem a desaparecer ao longo do tempo. Segundo, existe uma trajetória de taxa de câmbio que deve ajudar a inflação a cair. Além disso, a política monetária se mantém bastante restritiva, embora a política fiscal continue expansionista.”

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'Temos de frear uma energia inflacionária'

Salomão Quadros, economista do Ibre/FGV</p>

O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2016 | 05h00

‘Temos de frear uma situação que ganhou muita energia inflacionária em várias frentes. Não era uma inflação frágil e que momentaneamente subiu. Eu vejo isso, às vezes, olhando para outros países. Por exemplo, a inflação no Chile em determinados momentos dá uma subida. Na crise internacional de 2008, foi a quase 10%, mas um ano depois ela já estava negativa. Atualmente, há uma série de fatores que estão se tornando anti-inflacionários. A taxa de desemprego subiu de um ano para cá, os salários nominais estão aumentando menos do que a inflação passada. Se tem salário subindo um pouco mais devagar, significa que os preços que derivam daqueles salários também devem subir um pouco mais devagar. Para 2017, condições mais favoráveis para o controle da inflação estão se formando e o mercado está acreditando numa redução.”

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'BC só tem a alternativa de manter juro alto'

Márcio Garcia, professor da PUC/Rio</p>

O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2016 | 05h00

“O que é peculiar ao Brasil é a grande quantidade de inércia que a inflação tem. Ainda é preciso entender por que as firmas, numa situação em que não conseguem vender o produto, em vez de abaixarem o preço, preferem manter ou até mesmo aumentar o preço. O que falta na pesquisa econômica é mostrar qual o cálculo feito pelos formadores, o que faz com que, numa situação na qual em outros países haja baixa de preços, essa queda não ocorra aqui. Ainda não temos um explicação. No caso do Banco Central, qualquer que seja a explicação, ele só tem uma alternativa: manter os juros mais altos para evitar que a inflação se propague. O que as pessoas reclamam é que o Brasil está sempre com o juro mais alto. Mas veja o que aconteceu quando o Alexandre Tombini (ex-presidente do BC) resolveu copiar os outros países: a inflação foi lá para cima.”

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