Robson Fernandes/Estadão
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Inflação se espalha no atacado industrial

Levantamento mostra que quase 80% dos preços das matérias-primas usadas pela indústria no País estavam em alta em outubro

Márcia De Chiara , O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

A inflação se espalha em ritmo acelerado no atacado entre os preços das matérias-primas e insumos usados pela indústria. O movimento ocorre no momento em que as fábricas estão em franca recuperação das perdas provocadas pela pandemia, correndo para atender à demanda reprimida e tendo de enfrentar a escassez de vários insumos. O risco, segundo analistas, é que essa disseminação dos aumentos no atacado resulte em novas altas de preços ao consumidor e em mais inflação nos próximos meses.

Em setembro, 81% dos preços dos produtos industriais no atacado estavam subindo. Em outubro, essa marca não foi muito diferente: 78% das cotações registravam alta. “Há sinais preocupantes na evolução dos preços no atacado industrial porque a proporção de itens em alta encostou na máxima histórica da série, iniciada 1996”, diz o economista da LCA Consultores Bruno Imaizumi. 

Com base numa cesta de 325 produtos, dos quais apenas 25 agropecuários, o economista realizou um levantamento para avaliar as pressões inflacionárias enfrentadas pela indústria. O cálculo da parcela dos preços em alta foi feito pelo Índice de Preços do Atacado Industrial que compõe o IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas.

Imaizumi constatou que, em setembro, a disseminação da alta de preços no atacado superou o recorde alcançado em novembro de 2002, quando 78% dos preços estavam subindo.

O economista aponta três motivos para a disseminação dos aumentos de preços das matérias-primas. O primeiro é a perda de valor do real em relação ao dólar. Desde janeiro, o câmbio se desvalorizou mais de 40%. Como boa parte dessas matérias-primas tem preços definidos no mercado externo e em dólar, isso deixou os produtos mais caros em reais.

Outro motivo foi a forte demanda externa por commodities registrada nos últimos meses, puxada pela China. Com o avanço das exportações para o país asiático, a oferta doméstica se reduziu e pressionou preços. Por fim, o auxílio emergencial turbinou a demanda doméstica, sobretudo por comida, e ajudou a disseminar a alta.

O levantamento mostra que, desde setembro de 2019, os aumentos de preços já se espalhavam entre as matérias-primas industriais. Mas essa tendência ficou mais intensa a partir de março, com a pandemia e a paralisação de atividades. 

A falta de matérias-primas é nítida na Sondagem da Indústria de Transformação da FGV. Em outubro, a fatia de indústrias que produzem bens intermediários – produtos usados na fabricação de outros produtos – e tinham estoques insuficientes foi a maior em 19 anos. Em setembro, 10,3% das empresas estavam nessa condição e, em outubro, essa parcela subiu para 12,4%. “Foram dois meses seguidos de alta histórica”, diz a economista Renata de Mello Franco, responsável pela sondagem, que ouviu 1.100 empresas.

Entre os bens intermediários, os destaques de segmentos com maior parcela de empresas com estoques insuficientes em outubro foram produtos plásticos (31,9%), produtos de metal (26,6%) e têxtil (25,4%).

“A crise provocada pela pandemia teve um efeito muito diferente na indústria comparada a outras crises”, observa Renata. Na crise atual, houve necessidade de interrupção na produção. Por isso, os estoques não aumentaram como em outras. Com a retomada da atividade num ritmo mais intenso do que se esperava, houve um descasamento entre a demanda e a oferta. O resultado foi escassez de insumos e pressão de preços.

O risco, diz Imaizumi, é se esses aumentos de preços das matérias-primas se tornarem crônicos. No curto prazo, a economia está em recuperação e há mais recursos – injetados por meio do auxílio emergencial – em circulação.

Novos aumentos

Emerson Destro, presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores, que reúne os atacadistas que atendem a pequenos varejos, conta que, por causa da escassez de matérias-primas, muitas indústrias estão sinalizando novos aumentos. Em julho e agosto, as companhias tinham reajustado preço.

Segundo ele, a Nestlé sinalizou reajuste 6% para dezembro e a Internacional Paper, de 7% para janeiro. A Mondelez indicou que vai aumentar preços em dezembro. Procurada, a Internacional Paper confirma o aumento. Por nota, a Nestlé esclarece que “6% está muito acima de qualquer incremento de preço que a empresa precisará aplicar”. A Mondelez diz que “não comenta estratégia de preços”.


 

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