Tiago Queiroz/Estadão
O preço mais visível para o brasileiro de maior renda aparece na bomba de gasolina, com o litro vendido por até R$7 Tiago Queiroz/Estadão

Inflação se espalha por mais produtos e já castiga famílias de todas as faixas de renda

Gasolina, energia, óleo de cozinha, botijão de gás e carne são alguns dos principais vilões do aumento de preços em 2021

Márcia De Chiara e Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 15h39
Atualizado 25 de agosto de 2021 | 20h44

Rico ou pobre, o brasileiro está hoje cercado de inflação por todos os lados. A alta de preços dos alimentos básicos, que vinha castigando as famílias de menor renda desde o ano passado, continua mostrando a sua cara ao longo de 2021. O preço da carne, por exemplo, passa de R$ 40 o quilo e subiu o equivalente a três vezes e meia à inflação geral, que acumula alta de 9,30% em 12 meses até agosto, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)-15). O óleo de soja, o principal vilão do custo de vida, já beira R$ 8 a garrafa, e aumentou mais de oito vezes a inflação geral do período.

A diferença da inflação deste ano é que ela recebeu um componente altamente explosivo que fez a alta de preços se alastrar por toda a economia. Produtos que são considerados preços de referência, isto é, entram na formação de outros preços, como diesel, energia elétrica, por exemplo, dispararam e contaminaram os demais.

Deste grupo, o preço mais visível para o brasileiro de maior renda aparece na bomba de gasolina, com o litro vendido por até R$7. Para os mais pobres, o preço de referência é o gás de cozinha, cujo valor do botijão beira hoje R$ 100 e acumula alta de mais de 30% em 12 meses.

“A inflação deste ano está mais ‘democrática’: atinge ricos e pobres”, resume o coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), André Braz. Ele explica que enquanto carestia batia só nos alimentos, os mais pobres eram os mais afetados, porque consomem mais esses itens. Enquanto isso, as famílias mais abastadas não tinham a percepção, na mesma intensidade, de que a inflação tinha disparado.

Impedido de gastar com serviços, de circular de carro e de viajar de avião por causa da pandemia, o estrato social de maior renda viu muitos preços de produtos e serviços que consumia estacionados ou até em queda no ano passado por causa do isolamento social. Com isso, os ricos conseguiram poupar.

Mas o que se vê neste ano é que a pressão de preços se espalhou. A desvalorização do câmbio, que turbinou as cotações em reais do petróleo e dos combustíveis, e a crise hídrica, que afetou a geração de energia e as tarifas e reduziu a produção agrícola, fizeram a inflação tomar outro rumo.


“Agora a inflação é percebida por todos”, diz Braz. A alta do preço do arroz, prato básico que pesa no bolso do brasileiro comum, foi 36,89% em 12 meses até agosto. Esse aumento praticamente se equipara ao avanço do preço da gasolina no mesmo período, de 39,52%, e é consumida pelos mais ricos.

Esse espalhamento aparece no porcentual de itens que estão subindo de preço no IPCA-15. Em agosto, essa fatia é de 73,30 % e só perde para janeiro de deste ano, que foi de 73,84%. “Um resultado acima de 60% já seria problemático”, frisa o economista da LCA Consultores, Fábio Romão. Um resultado  na faixa de 70% revela, na sua avaliação, que a inflação está pegando todas as classes sociais.

Segundo o economista, há uma gama mais complexa de pressões inflacionárias atuando e também que estão a caminho. Elas estão  nos  serviços e nos bens industriais. Ele lembra, por exemplo,  que, com a reabertura das atividades suspensas por conta do lockdown, há risco de a inflação de serviços disparar, já que  as famílias de maior renda terão predisposição para gastar a poupança acumulada no período de fechamento. Também os bens industriais, que tiveram as cadeias de produção desorganizadas, ainda não voltaram à normalidade. Isso significa falta de peça, por exemplo, no carro zero, e mais inflação para o consumidor.

Até produtos que foram considerados símbolos do Plano Real, responsável pela estabilização da economia brasileira a partir de julho de 1994, após um longo período de hiperinflação, entraram para a vala comum da alta de preços.

Vinte sete anos atrás, o quilo do frango inteiro custava R$ 1. Hoje sai por quase R$ 10 e já subiu 22,89% nos últimos 12 meses até meados de agosto. O iogurte, outro ícone, no passado, da estabilidade econômica e de alimento acessível aos mais pobres por conta da queda da inflação, hoje está no polo oposto. O preço do produto subiu 14,09% nos últimos 12 meses até este mês, bem acima da inflação geral no período.

Com orçamento apertado, famílias atrasam conta de luz e água

O aumento dos preços tem pressionado as contas das famílias e exigido esforços para evitar que as dívidas se acumulem. Um exemplo é o de Érika Lima, de 39 anos, moradora de Paranavaí, no Paraná, que trabalha com mídias sociais em uma agência de publicidade. 

Ela e o marido têm um pequeno serviço de comida japonesa por delivery, montado na própria cozinha de casa há 5 anos, o que ajuda a complementar o salário, pouco maior que o mínimo. Mas o aumento dos custos do dia a dia, especialmente alimentação, deixaram o orçamento apertado. 

Com isso, ela precisou atrasar o pagamento de contas de energia, água e internet para conseguir manter o pagamento do aluguel em dia, que tem juros mais altos, e também a faculdade online da filha mais velha, para não perder o desconto na mensalidade que a instituição oferece. 

“O dinheiro que ganho na agência, uso para pagar o aluguel. Já o dinheiro do delivery paga todas as outras contas", diz. "Pago água e luz só quando estão na iminência do corte, infelizmente. O cartão de crédito já virou bola de neve. Todo mês pago menos do que a fatura total.”

Com o orçamento apertado, ela também teve de interromper as sessões de terapia e as consultas com nutricionista, inciadas em dezembro, para tentar resolver o transtorno de ansiedade e quadro depressivo. “A terapia vinha me fazendo muito bem, mas a escalada do aumento dos gastos me obrigou a parar. As contas pararam de fechar de maio para cá e eu não tinha mais o que cortar”, afirma.

A renda familiar caiu porque, além de seu pagamento ter sido reduzido em R$ 300 por causa da perda de um cliente da agência, o valor médio dos pedidos no seu restaurante caiu, sem falar que os produtos ficaram mais caros. O salmão, por exemplo, saltou de R$30 para R$ 72 desde o começo do ano, segundo ela. “A única coisa que não subiu foi a taxa que a gente paga para o entregador, mas ele também é como nós, tem três empregos”, falou. Com a crise, ela também dispensou a auxiliar de cozinha, e a filha do meio passou a trabalhar com o casal.

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IPCA-15 já passa de dois dígitos em quatro capitais; Curitiba lidera, com alta de 11,43% em 12 meses

Na média nacional, o indicador, uma prévia da inflação oficial, ficou em 9,30% no acumulado dos 12 meses até agosto

Bruno Villas Bôas, Cícero Cotrim, Guilherme Bianchini e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 13h26

RIO e SÃO PAULO - Pressionada pelo aumento da conta de luz, a inflação acumulada em 12 meses chegou à marca de dois dígitos em quatro capitais do País na prévia de agosto: Porto Alegre (10,37%), Goiânia (10,67%), Fortaleza (11,37%) e Curitiba (11,43%). Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 25.

Líder nacional de inflação, a região metropolitana de Curitiba registrou aumento de 26,19% na conta de luz de julho do ano passado a agosto deste ano, de acordo com o IBGE. Além do aumento de 52% do valor adicional da bandeira tarifária vermelha patamar 2, o custo mais salgado refletiu o reajuste da energia pela concessionária local no fim de junho, após a autorização da Aneel.

Logo atrás de Curitiba, o custo de vida em Fortaleza tem sido mais pressionado, além da energia, pelos combustíveis. A gasolina comprada em um posto da capital cearense ficou, em média, 37,47% mais cara nos últimos 12 meses até agosto, segundo o IBGE. O óleo diesel ficou 31,89% mais caro. Já o gás veicular subiu menos, 18,55% acumulado de julho de 2020 a agosto deste ano.

Dados IBGE mostram que, na média nacional, o IPCA-15 foi de 9,30% em 12 meses até agosto, maior taxa desde maio de 2016 (9,62%). A inflação segue distante, portanto, da meta de inflação perseguida pelo Banco Central (BC) neste ano, de 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixa. O limite superior da meta é de 5,25%.

A última vez que o índice chegou a marca de dois dígitos pela média nacional foi em fevereiro de 2016 (10,84%), com a alta dos preços dos alimentos in natura.

Outros locais pesquisados pelo IBGE também registraram inflação acima da média nacional dos últimos 12 meses, embora não tenham atingido a marca de dois dígitos: Recife (9,88%) e Belém (9,85%). Belo Horizonte teve taxa de 9,30%, a mesma da média nacional. Ficaram abaixo Rio de Janeiro (7,93%), Brasília (8,27%), Salvador (8,31%) e São Paulo (8,64%).

Índice mensal

Isoladamente no mês de agosto, o IPCA-15 foi de 0,89% em agosto, acelerando em relação ao mês anterior (0,72%). Foi a maior taxa para o mês de agosto desde 2002, quando avançou 1%. Foi também a segunda maior taxa para este ano, atrás apenas de março (0,93%). O resultado ficou acima da maioria das estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast era de 0,84% para agosto, com intervalo de 0,65% a 0,92%.

Para Daniel Lima, economista do banco ABC Brasil, a disseminação da inflação em agosto aumenta a chance de uma elevação maior do que a prevista da taxa básica de juros, a Selic, na reunião do Copom de setembro. Nos cálculos do banco, 73,17% dos preços pesquisados pelo IBGE tiveram alta em agosto. Em julho, o chamado índice de difusão era de 6,93%.

“As pressões correntes podem puxar as projeções para o IPCA de 2021 e consequentemente de 2022, via uma inércia maior, e a probabilidade do cenário alternativo acaba aumentando”, afirma o economista, que prevê alta de 1 ponto porcentual da Selic em setembro, para 6,25% ao ano. No cenário alternativo, a Selic seria elevada em 1,25 ponto porcentual.

Marcos Mollica, gestor do Opportunity Total, fundo da gestora Opportunity, afirma que a leitura do IPCA-15 de agosto não trouxe qualquer alívio para o cenário inflacionário. Para ele, porém, não existe descontrole inflacionário, mas um nível elevado de inflação que “requer reação da Selic e cautela do Banco Central”.

Mollica projeta alta de 7,8% do IPCA em 2021, mas alerta que o índice pode mesmo ultrapassar 8%, especialmente se a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decidir reajustar o valor adicional da bandeira vermelha 2 de energia elétrica Se houver aumento de R$ 15, diz o gestor, o impacto no IPCA já seria de cerca de 0,20 ponto porcentual.

Em agosto, a energia elétrica residencial ficou 5% mais cara, exercendo o maior impacto (0,23 ponto porcentual) no IPCA-15 entre os subitens acompanhados pelo IBGE. A alta recente da energia reflete o reajuste de 52% do valor adicional da bandeira tarifária vermelha patamar 2, válida a partir de 1º de julho.

O economista Leonardo França Costa, da ASA Investments, diz que a inflação medida pelo IPCA deve continuar pressionada no curto prazo. Para ele, os preços administrados pelo governo -- energia, combustíveis -- são os que mais preocupam. “Eu ainda espero uma melhora do IPCA no quarto trimestre, mas as surpresas de curto prazo me deixam menos confiante”, disse o economista.

A prévia da inflação de alimentação e bebidas também chamou atenção em agosto, ao acelerar para 1,02% em agosto, de 0,49% em julho. O encarecimento dos alimentos era esperado por analistas, após as baixas temperaturas, registradas em parte do País no fim de julho e início de agosto, terem atingido plantações. O cenário já era desafiador por causa do impacto da estiagem sobre a oferta de produtos in natura.

O economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, avalia que a prévia da inflação de agosto não seria tão ruim quanto a de outros momentos. “Os núcleos vieram relativamente bem comportados, com uma aceleração em linha com o esperado. Na transmissão do IPCA-15 para o IPCA fechado, naqueles itens que se equivalem, não tivemos grandes alterações, já que passagens aéreas e educação vieram em linha”, disse ele.

A Ativa prevê arrefecimento de 0,96% em julho para 0,62% em agosto no IPCA fechado, a ser divulgado no início de setembro pelo IBGE. A projeção para a inflação oficial de 2021 foi mantida em 7%, mas pode subir para até 7,6% caso haja novo reajuste da Aneel na bandeira tarifária neste ano. Para 2022, a expectativa é de alta de 3,5%.

IPCA-15 acumulado em 12 meses nas capitais (agosto de 2021)

  • Curitiba - 11,43%
  • Fortaleza - 11,37%
  • Goiânia - 10,67%
  • Porto Alegre - 10,37%
  • Recife - 9,88%
  • Belém - 9,85%
  • Belo Horizonte - 9,30%
  • Média nacional - 9,30%
  • São Paulo - 8,64%
  • Salvador - 8,31%
  • Brasília - 8,27%
  • Rio de Janeiro - 7,93%

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Puxada pela energia, prévia da inflação fica em 0,89% em agosto, a maior para o mês desde 2002

IPCA-15 acumula alta de 9,30% no período de 12 meses, segundo o IBGE; aumento no gás de botijão também pesou no indicador

Bruno Villas Bôas, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 09h15
Atualizado 25 de agosto de 2021 | 11h02

RIO - Puxado pelo aumento da energia elétrica, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15),  uma prévia da inflação oficial do País, subiu 0,89% em agosto, após ter avançado 0,72% em julho, informou nesta quarta-feira, 25, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a maior alta para o mês de agosto desde 2002, quando o índice avançou 1,00%.

O resultado superou a maioria as estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast, de 0,84% para agosto, mas ficou dentro do intervalo das projeções, de 0,65% a 0,92%.

Com a leitura de agosto, o IPCA-15 acumulou alta de 5,81% no ano e de 9,30% em 12 meses. Neste caso, as projeções iam de 9,04% a 9,33%, com mediana de 9,25%. A última vez que a inflação média do País em 12 meses ultrapassou a barreira de 9% foi em maio de 2016 (9,62%). Mas em quatro logais pesquisados o índice chegou à marca de dois dígitos:  Porto Alegre (10,37%), Goiânia (10,67%), Fortaleza (11,37%) e Curitiba (11,43%).

Uma das principais responsáveis pela alta da inflação neste ano, a energia elétrica residencial ficou 5% mais cara em agosto, segundo o IPCA-15, exercendo o maior impacto (0,23 ponto porcentual) entre os subitens pesquisados. A alta dos preços da energia foi, inclusive, mais intensa do que a verificada em julho, quando havia ficado 4,79% mais cara.

A bandeira tarifária vermelha patamar 2 vigorou nos meses de julho e agosto, mas, a partir de 1º de julho, houve reajuste de 52% no valor da taxa extra, que passou a cobrar R$ 9,492 a cada 100 kWh, antes, o acréscimo era de R$ 6,243. Além disso, o resultado foi consequência dos reajustes tarifários nas contas de luz em Belém, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Com a leitura do mês, o grupo de habitação - que inclui a energia elétrica - apresentou alta de 1,97% em agosto, após avanço de 2,14% em julho. Tabmém contribuíram para o resultado o aumento do gás de botijão (3,79%) e do gás encanado (0,73%). No lado das quedas, ficou mais barata a taxa de água e esgoto (-0,49%), por conta da mudança na metodologia de cobrança das tarifas em Belo Horizonte (-6,40%).

A segunda maior contribuição para o IPCA-15 deste mês veio dos transportes, com aumento de 1,11%, seguida por alimentação e bebidas (1,02%). A única queda foi em saúde e cuidados pessoais (-0,29%).

No grupo dos transportes, os preços dos combustíveis (2,02%) aceleraram em relação a julho (0,38%). A principal contribuição veio da gasolina, que subiu 2,05% no mês e 39,52% em 12 meses. Também tiveram alta os preços do etanol (2,19%) e do óleo diesel (1,37%), enquanto o gás veicular registrou queda de 0,51%.

A deflação no grupo saúde e cuidados pessoais se deve principalmente à queda nos preços dos itens de higiene pessoal (-0,67%), produtos farmacêuticos (-0,48%) e plano de saúde (-0,11%).

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