FGV/ Divulgação
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Inflação se espalhou, mas ainda não há descontrole de preços, diz economista da FGV

Para André Braz, IPCA pode fechar o ano acima de 6% e desaceleração só virá com a valorização do real; índice ficou em 0,83% em maio

Entrevista com

André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 15h03

O salto de meio ponto porcentual na inflação de abril para maio, passando de 0,31% para 0,83%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), não surpreendeu o economista André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), mas trouxe uma informação importante. Ao contrário do ano passado, quando a alta de preços estava concentrada em alimentos, neste ano, ela avança e se espalha também para outros grupos: os preços administrados e os bens duráveis.

Apesar da disseminação da inflação, o economista não vê uma situação de descontrole, porque, neste momento, a pressão é resultado de alta de custos. O desafio, diz Braz, está posto para os próximos meses. Com o reaquecimento da economia, que já apareceu no desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, pode haver um aumento do consumo. 

“Esse aquecimento da economia, se, por um lado, contribui para redução da taxa de desemprego, por outro, pode sustentar uma demanda maior que, mesmo num contexto de aumento menor dos preços das commodities, pode promover alguma inflação de demanda”, diz.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. vê o resultado do IPCA de maio?

A gente já previa uma participação maior de preços administrados na inflação de 2021 e isso vem se concretizando. O mundo está aquecendo e esse aquecimento puxa o consumo de petróleo e derivados, por exemplo. Na esteira tem essa crise hídrica, com reflexo direto na geração de energia. Há também aumentos de preços administrados na linha de medicamentos, que alcançaram aumentos mais fortes este ano por força da desvalorização cambial, que afeta os custos de produção.

Está havendo um espalhamento maior da inflação neste ano?

Tem havido uma difusão maior da inflação. Ela continua presente entre os alimentos, sobretudo as carnes, e se espalha para bens duráveis. Percebemos encarecimento de automóveis, eletrodomésticos da linha branca, geladeiras, fogão, eletroeletrônicos, computadores, e se espalha também nos preços administrados. Então, alimentos, bens duráveis e preços administrados estão subindo mais do que no ano passado. Estão ajudando a difundir essa inflação. O único setor que não foi afetado foi o de serviços, porque segue em funcionamento parcial por causa da pandemia e a renda das famílias foi muito afetada pelo desemprego. Serviços livres estão caminhando mais lentamente, estão com uma inflação pouco acima de 2%. Em termos reais é um setor que nem inflação tem.

O fato de a inflação estar mais espalhada este ano em relação ao ano passado evidencia um descontrole?

Não seria bem um descontrole porque não é através da demanda que essa inflação vem se espalhando. É através do custo. Minério de ferro, cobre, alumínio, milho, soja, por exemplo, que são matérias primas para a produção de alimentos e de bens duráveis não param de subir, seguindo na esteira do aquecimento da economia mundial, puxado pelos Estados Unidos e China, principalmente. Como as cadeias produtivas demoram para se mobilizar, isso acaba criando um gargalo que ajuda no aumento de preços. Para ser considerada descontrolada precisaria de um combustível mais forte que viria da demanda.

Qual a tendência da inflação para os próximos meses?

No segundo semestre, devemos passar para um cenário um pouco melhor, porque esses aumentos recentes na taxa de juros já promoveram alguma valorização do real. E existe uma possibilidade de o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) fazer mais movimentos de alta da Selic (taxa básica de juros) até o final do ano. Isso vai contribuir para novas valorizações da moeda, que podem ajudar a enfrentar esse aumento de preços. Se por um lado os preços sobem, por outro a nossa moeda ganha valor e isso ajuda a mitigar o impacto do aquecimento global sobre a nossa inflação. A nossa exposição a uma inflação forte, como ainda estamos expostos, tende a diminuir até o final do ano. Isso não significa que vamos ter  inflação baixa. Na nossa conta, vamos ter uma inflação muito acima da meta. Podemos ter um IPCA acima de 6%, algo como 6,3% no fim do ano. Mas a desaceleração virá com a valorização da nossa moeda.

Qual é o desafio para os próximos meses?

O nosso maior desafio é que a economia já começou a aquecer e o resultado do PIB do primeiro trimestre mostra isso. Esse aquecimento, se por um lado, contribui para redução da taxa de desemprego, por outro, pode sustentar uma demanda que, mesmo num contexto de aumento menor das commodities, pode promover alguma inflação de demanda. Isso porque os custos foram inflados, as matérias primas subiram mais de 70%, e as margens estão apertadas. Num contexto de demanda mais forte, a indústria pode repassar custos para recuperar margem, o que pode contribuir para a aceleração da inflação.

Qual o remédio para conter esse movimento?

Daí a importância da política monetária. Temos de começar aumentar os juros agora, não pensando em 2021, mas 2022, criando um desestímulo ao consumo que pode afetar os preços e acelerar a inflação. Desta forma, vamos construir um cenário mais favorável para, quem sabe, em 2022, cumprir a meta.

Qual é a eficácia da alta de juros para conter a inflação hoje, que pega alimentos, administrados e bens duráveis?

É muito pequena, porque boa parte dessa inflação não vem da demanda, mas de pressões de custos. Existe uma parte da inflação que pode ser temporária, que é a energia. Movimentos da bandeira tarifária vão depender do volume de chuvas nos meses à frente. Os outros efeitos estão ligados ao aquecimento da economia mundial. Isso deve sustentar preços em alta por algum tempo. Mesmo que a demanda não esteja aquecida, essa tendência deve se materializar em taxas acima do normal no nosso País. Se aumentarmos juros agora, não é para conter o ajuste dos preços em 2021, até porque a política monetária faz efeito entre seis e nove meses à frente.

Qual é o impacto de a inflação ter se espalhado para além dos alimentos, isto é, pegando os preços administrados e bens industriais?

A inflação neste ano desafia mais as famílias humildes. Todos os preços que estão subindo castigam os que foram mais afetados pela pandemia e os que ficaram mais expostos ao desemprego. Mesmo que a inflação em 12 meses desacelere no segundo semestre, vamos ver essas famílias passando muito aperto, porque o desemprego não vai diminuir da noite para o dia, ainda mais com aumentos de juros. Não vamos ver  uma desaceleração rápida nos preços de alimentos e de administrados. Quem é pobre vai continuar sofrendo tanto pela falta de emprego como pelo aumento da inflação. E a falta de emprego amplia a percepção de que a inflação está maior, porque o indivíduo não tem renda. Os mais ricos vão se defender de uma forma melhor.

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