Inflação segue alta, mas comida perde força

Já há desaceleração nos preços pagos no campo; taxa cai de 1,59% para 0,36%

Márcia De Chiara, de O Estado de S.Paulo,

27 de abril de 2011 | 23h00

Os alimentos, considerados os vilões do custo de vida desde o fim do ano passado ao lado dos serviços, devem dar uma trégua à inflação nos próximos três meses.

O primeiro sinal de perda fôlego dos preços da comida apareceu nas cotações recebidas pelos produtores. O Índice Quadrissemanal de Preços Recebidos pela Agropecuária Paulista desacelerou na terceira quadrissemana deste mês para 0,36%, depois de ter atingido 1,59% na segunda quadrissemana de abril, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA).

"Foi a terceira desaceleração consecutiva e o menor nível do indicador alcançado desde novembro do ano passado", observa o pesquisador do IEA, José Sidnei Gonçalves. Se descontada a cana-de-açúcar, o indicador registrou deflação de 1,10% na terceira prévia deste mês.

De 18 preços ao produtor pesquisados, metade registrou deflação no período, com destaque para laranja (-19,2%), tomate (-17,6%), frango (-10,6%), arroz (-3,19%) e soja (-3,1%). Até o preço da carne bovina parou de subir e registrou estabilidade no período.

Para Gonçalves, o efeito da entrada da safra, com a maior oferta de produtos no mercado, foi magnificado pela valorização do real em relação ao dólar registrado nas últimas semanas. "Essa desaceleração dos preços ao produtor deve ter efeito na inflação ao consumidor em três semanas", prevê o pesquisador.

Para Antonio Comune, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, o impacto será sentido na inflação de maio. O resultado da terceira quadrissemana de abril divulgado ontem foi 0,65%, ligeiramente acima da quadrissemana anterior (0,61%). Gasolina e álcool combustível responderam por mais de um terço (36%) do IPC-Fipe da terceira quadrissemana de abril.

Comune calcula que a inflação deste mês fique em 0,65%, mas observa que o patamar médio mensal da inflação recue para 0,40% no período, se governo não reajustar a gasolina. Entre as hipóteses consideradas pelo economistas estão a maior oferta de produtos agropecuários e o fim do impacto dos aumentos da gasolina e do álcool combustível. "Os alimentos vão dar uma trégua à inflação entre maio e julho", prevê.

Sem conforto. Fabio Silveira, diretor da RC Consultores, também espera arrefecimento dos preços dos alimentos e da inflação no segundo trimestre, levando em conta que os efeitos altistas do álcool e da gasolina serão absorvidos integralmente e as cotações das commodities agrícolas e metálicas, exceto o petróleo, no mercado internacional, continuem recuando.

Além da entrada da safra de alimentos, do real valorizado em relação ao dólar e menor ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto Global, ele destaca que nos próximos meses o consumo doméstico deve dar sinais de enfraquecimento por causa das medidas macroprudenciais tomadas desde o fim do ano passado e da alta dos juros.

Nas contas de Silveira, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação, deve recuar de uma média mensal de 0,80% no primeiro trimestre para 0,60% no segundo trimestre do ano. "Apesar do recuo, esse nível de inflação não é nada confortável", alerta o economista. Se anualizada, uma inflação mensal de 0,60% sinaliza uma inflação anual na casa de quase 7%, acima do limite superior da meta (6,5%).

Comune concorda com Silveira e ressalta que apesar da "trégua" esperada para os próximos dois meses, o índice em 12 meses preocupa e são necessárias mais medidas monetárias, macroprudenciais e fiscais para segurar os preços. "Mais medidas devem vir por aí para esfriar a expansão do crédito e dos salários", afirma Silveira.

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