Mandel Ngan/AFP
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Inflação 'sem amarras' nos países ricos dificulta controle de preços no Brasil

Tolerância dos bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa ao aumento acelerado dos preços deixa Brasil e países emergentes vulneráveis

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 15h00

A decisão de bancos centrais de economias desenvolvidas, sobretudo o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e o Banco Central Europeu (BCE), de aceitar inflação maior por algum período está afetando os preços de países em desenvolvimento e exportadores de commodities como o Brasil, o que gera políticas monetárias mais restritivas do que poderia ser o necessário nessas regiões.

 Na prática, em um mundo globalizado, se as nações desenvolvidas toleram uma inflação mais alta, isso significa que o nível elevado de preços se espalha para outros países que não têm a mesma capacidade de lidar com esse quadro, como é o caso do Brasil.

O economista da Tendências Consultoria Integrada, Fábio Klein, lembra que inflação mais alta nos países desenvolvidos é transmitida para os emergentes, em particular ao Brasil, pelo canal das commodities agrícolas e petróleo. "Se essa estratégia ajuda, de um lado, os exportadores, por outro lado ela encarece para os importadores e provoca aumento de preços internamente. É por isso que a Petrobras pratica a política de paridade", diz Klein.

Em última instância, isso significa que o Banco Central brasileiro, além de observar os efeitos do choque de oferta que afetou as cadeias globais e aumentou os preços, precisa trabalhar para minimizar os impactos da tolerância dos BCs desenvolvidos com a inflação em suas áreas, além dos problemas locais, como a crise hídrica.

No Brasil, um dos maiores exportadores de commodities do planeta, o BC reduziu sua taxa de juros a 2%, seu menor nível histórico, mas já vem subindo a Selic desde março deste ano. Promoveu três altas seguidas de 0,75 ponto porcentual a partir de então e na última quarta-feira, 4, promoveu uma puxada de 1 ponto porcentual, para 5,25% ao ano.

Como se não bastasse, o BC já deixou sinalizado que deve repetir a dose na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e indicou que poderá buscar uma taxa de juro acima do neutro, que segundo cálculos do mercado seria de 6,50% ao ano. Na mesma toada, outros bancos centrais como os da Turquia, Ucrânia, Rússia, México, Chile e outros vêm promovendo apertos nas suas políticas monetárias para tentar evitar o repasse da inflação das economias centrais para seus preços.

Mudanças nos banco centrais

A meta de inflação dos grandes bancos centrais, e aí entra também o Banco do Japão (BoJ), é de 2%, em média. Mas no decorrer do tempo, muito em razão do longo período de juros e crescimento econômico muito baixos nas economias desenvolvidas, somadas a mudanças de ordem econômico-estruturais, estas mesmas autoridades monetárias, entendendo que o atual nível de inflação seria transitório, mudaram de estratégia e passaram a aceitar uma taxa superior à meta durante algum período.

No começo de julho, a presidente do BCE, Christine Lagarde, se juntou ao Fed e ao BoJ e reforçou oficialmente, numa coletiva de imprensa, sua inclinação em aceitar uma inflação superior à meta de 2%.

"Nosso compromisso é com a meta de 2%. Pode haver desvios temporários da meta e está tudo bem. O que estamos preocupados é com quaisquer desvios de metas duráveis e sustentáveis, e isso vai exigir reação forte em ambas as direções", disse Lagarde ao detalhar no mês passado a conclusão da revisão estratégica iniciada em janeiro de 2020.

A economista-chefe da Panamby Capital, Tatiana Pinheiro, calcula que, considerando a meta de 2% do Fed desde janeiro de 2008, os preços estão 4 pontos porcentuais abaixo do que deveriam estar. "Ou seja, neste intervalo de 13 anos a inflação dos EUA estaria abaixo da meta", reforça. Quando o mesmo cálculo de Tatiana é replicado para a inflação do BCE, ela diz chegar a uma diferença para abaixo da meta acumulada da ordem de 10 pontos porcentuais no período. Então, diz a economista, essa inflação de curto prazo mais alta nos EUA está em linha com a estratégia do Fed de zerar este "gap" de 4 pontos porcentuais. Essa diferença seria zerada se o Federal Reserve conseguisse uma inflação de 4% este ano e mais 4% em 2022.

O economista do Banco ABC Brasil, Daniel Francisco Xavier, diz que os bancos centrais desenvolvidos desejam elevar o patamar de inflação há décadas. E a prova disso é a manutenção das taxas de juros em níveis baixíssimos por muito tempo. "Não é de agora que os principais bancos centrais vêm reformulando suas políticas monetárias. Isso já vem ocorrendo nos últimos anos".

O pano de fundo dessas mudanças é o ambiente global de inflação estruturalmente mais baixa por mais de uma década, reflexo do crescimento econômico mais lento, baixa produtividade e envelhecimento populacional. "Isso a despeito da imensa injeção de liquidez nas maiores economias do mundo, desde 2008, através de programas de flexibilização quantitativa [Quantitative Easing ou QE], além das taxas básicas de juros, mantidas na mínima histórica", defende Xavier.

Ainda segundo ele, a inflação nos países emergentes, que conta "um empurrãozinho" dos recentes choques de oferta na retomada após a estagnação provocada pela pandemia de covid-19, "tem também muito da materialização do esforço dos bancos centrais das economias desenvolvidas nas últimas décadas para a aceleração dos preços".

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