Alex Silva/Estadão
No ano, o arroz acumula alta de 40,69%. Alex Silva/Estadão

Puxada por alimentos e gasolina, inflação sobe 0,64% em setembro, maior alta para o mês desde 2003

Segundo o IBGE, em 12 meses, índice acumula aumento de 3,14% e, no ano, de 1,34%; grupo alimentação e bebidas teve a maior variação, com avanço de 2,28%

Daniela Amorim, Gregory Prudenciano e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2020 | 09h12
Atualizado 09 de outubro de 2020 | 21h21

RIO e SÃO PAULO - Sob pressão da disparada dos preços dos alimentos, a inflação oficial no País subiu 0,64% em setembro, maior resultado para o mês desde 2003, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta sexta-feira, 9, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Carnes, arroz e óleo de soja pesaram no bolso das famílias, assim como os combustíveis. Passagens aéreas e alguns itens ligados ao turismo também esboçam reação. O resultado veio acima do previsto até pelos economistas mais pessimistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimavam um IPCA mediano de 0,54%. A inflação acumulada em 12 meses alcançou 3,14%, ante uma meta de 4% perseguida pelo Banco Central.

"É uma inflação (de setembro) preocupante, mas não tem nenhum risco para este ano, quando é provável que o IPCA fique em 2,5%. A questão mesmo está em 2021, quando devemos ter câmbio pressionado, commodities pressionadas e a China com um crescimento forte", afirmou o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

O economista João Fernandes, da Quantitas, acredita que a inflação mais elevada de setembro não ameace a condução da política monetária. Ele argumenta que o IPCA foi impulsionado por fatores pontuais, enquanto que o risco para o quadro de juros baixos no País permanece sendo fiscal.

"Não tem comparação da importância desse IPCA com a incerteza fiscal de curto prazo. A inflação mais alta reduz a chance de um novo corte da Selic, mas é um efeito limitado. O que poderia suscitar uma alta de juros agora seria o governo romper o compromisso com o teto, não uma reação a essa inflação", opinou Fernandes.

Em setembro, as famílias gastaram 2,28% a mais com alimentação. O grupo alimentação e bebidas contribuiu com 0,46 ponto porcentual para a taxa do IPCA no mês, o equivalente a 72% da inflação.

Segundo Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE, houve uma disseminação maior de produtos alimentícios com aumentos de preços, o que levou a uma inflação de alimentos também mais elevada que o habitual para meses de setembro.

“Tem dois componentes influenciando preços. Tem a questão do auxílio emergencial, uma vez que os recursos são direcionados pelas famílias mais pobres para a compra de alimentos, e a do câmbio, que torna mais atraente a exportação e acaba restringindo a oferta desses produtos no mercado doméstico”, justificou  Kislanov.

Os alimentos para consumo no domicílio subiram 2,89%. O óleo de soja aumentou 27,54%, enquanto o arroz ficou 17,98% mais caro. No ano, o óleo de soja já acumula uma alta de 51,30%, e o arroz subiu 40,69%.

“De fato, houve alta na exportação de arroz e de soja, que pode ajudar nessa maior restrição (de oferta) no mercado doméstico”, apontou Kislanov.

As famílias também pagaram mais em setembro pelo tomate (11,72%), leite longa vida (6,01%) e carnes (4,53%).

“Entre os cinco maiores impactos no IPCA de setembro, quatro são alimentos. De fato, a gente teve alta significativa em alimentos bastante representativos na cesta de consumo das famílias”, afirmou o gerente da pesquisa.

As carnes foram o item de maior pressão no IPCA de setembro, uma contribuição de 0,12 ponto porcentual, seguidas pelo arroz (0,10 ponto porcentual), gasolina (0,09 ponto porcentual), óleo de soja (0,06 ponto porcentual) e leite longa vida (0,05 ponto porcentual).

“Teve alta também de produtos que são substitutos. As pessoas saem da carne e vão para o frango, que subiu 2,20%. Então acaba aumentando a demanda, o que pode pressionar o preço. Mas tem produtos alimentícios em queda de preços também”, completou Kislanov.

Ficaram mais baratos em setembro a cebola (-11,80%), batata-inglesa (-6,30%), alho (-4,54%) e frutas (-1,59%).

A alimentação fora do domicílio passou de uma queda de 0,11% em agosto para uma alta de 0,82% em setembro, puxada pelos aumentos nos preços do lanche (1,12%) e da refeição (0,66%).

“Na parte da alimentação fora, pode ser tanto efeito de inflação de custos, porque os alimentos estão mais caros, e também pode ser questão de demanda, desse processo de flexibilização, de reabertura de alguns locais. Com as pessoas saindo mais, a gente pode ter efeito da demanda”, contou Kislanov.

Novos hábitos de consumo

A pandemia mudou os objetos de desejo das famílias brasileiras durante o isolamento: em vez de roupas novas, tijolos. A mudança brusca no perfil de consumo se reflete sobre os preços. Só em setembro, o tijolo subiu 4,67%. Ao mesmo tempo, as roupas femininas ficaram 5,37% mais baratas.

“A classe média juntou um dinheirinho na crise. A comida ficou mais cara, mas economizaram com outras coisas. Deixaram de gastar com combustível, cinema, hotel, passagem aérea. Daí gastaram com artigos para a residência”, lembrou André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Os novos hábitos de consumo fizeram o volume vendido pelo comércio varejista brasileiro alcançar patamar recorde em agosto nos segmentos de material de construção, móveis e eletrodomésticos e outros artigos de uso pessoal e doméstico, mostrou a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE.

“Como o dia a dia das pessoas foi transformado, com menos deslocamentos, mais tempo em casa, tudo o que está associado ao consumo domiciliar tende a ser mais vendido. Como essa mudança de consumo foi muito abrupta, isso acaba transbordando para um efeito sobre os preços”, explicou o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Os tijolos já ficaram 22,32% mais caros nos primeiros nove meses do ano. O cimento aumentou 13,19%. Roupas de cama, mesa e banho subiram 5,11% de janeiro a setembro. Computadores estão 20,58% mais caros, videogames aumentaram 13,69%, e os aparelhos de TV, 12,90%.

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Análise: Inflação pode ser vítima da desconfiança com o governo

IPCA teve em setembro a maior alta para o mês desde 2003, o que ainda não indica descontrole, mas acende um sinal de aleta

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2020 | 10h10

Ainda está longe de se configurar um sinal de descontrole, mas a alta da inflação acende mais um sinal de alerta para o governo. O IPCA de setembro ficou em 0,64%, a maior alta para o mês desde 2003. O aumento foi puxado pelos alimentos e combustíveis, produtos que têm um componente forte do câmbio na sua formação de preços - ou são importados, ou são cotados internacionalmente. E, nesses casos, não custa lembrar que o real foi a moeda que mais perdeu valor perante o dólar neste ano. 

No ano, o IPCA acumulado é de 1,34%. Em 12 meses, de 3,14%. Levando-se em conta a meta de inflação para o ano, de 4% (com tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo), ainda está em um patamar confortável. É possível que dê uma acelerada, porque os índices de preços no atacado estão muito altos e devem ser, em parte, repassados para o varejo. Mas ninguém ainda acredita em um descontrole imediato. O problema é o futuro.

Nesta semana, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, chamou a atenção para isso. "Não tem como ter juro baixo e inflação baixa com o fiscal desorganizado", afirmou, em uma entrevista à rádio Jovem Pan. Ele já havia salientado que as tentativas de romper a regra do teto de gastos - que impede os gastos públicos de crescerem acima da inflação - seriam prejudiciais para a política econômica.

O nome do jogo é confiança. Para se manter um cenário como o que temos hoje no País, com os juros em um patamar historicamente baixo de 2% ao ano e inflação ainda bem comportada, os agentes econômicos precisam confiar que as regras serão cumpridas. 

Quando as discussões no governo envolvem tentativas de burlar uma regra como a do teto - como foi feito na busca de fontes de financiamento para o novo programa de renda básica do governo -, essa confiança começa a se esvair. As dificuldades de se avançar com reformas como a administrativa e a tributária também não ajudam em nada. A inflação controlada, os juros baixos e o câmbio podem ser as vítimas desse jogo. 

* Editor de Economia 

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