Joedson Alves/Estadão
Joedson Alves/Estadão

Inflação sobe com piora fiscal, diz Tombini

BC atribui ao desequilíbrio das contas públicas a dificuldade em baixar a inflação

Adriana Fernandes, Victor Martins e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2015 | 02h03

BRASÍLIA - O Banco Central informou ontem que o cenário nebuloso das contas públicas está prejudicando o esforço para levar a inflação ao centro da meta, de 4,5%, e os brasileiros vão sentir por um prazo mais longo os efeitos da alta de preços. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, os diretores do BC reconheceram que a política de juros para conter a inflação em 2015 não deu certo.

Numa espécie de mea culpa, o BC suprimiu da ata a avaliação anterior de que os avanços alcançados no combate à inflação ao longo do ano mostravam que a estratégia de política monetária estava na "direção correta".

Agora, o BC diz que o impacto na inflação do reajuste de preços administrados, como gasolina e energia, e da alta da dólar será mais "demorado e intenso", com efeitos também em 2016. Segundo o BC, as suas projeções para o IPCA no ano que vem continuam subindo.

Conversa gravada. O presidente do BC, Alexandre Tombini, fez ontem uma apresentação para um grupo de deputados e disse que a questão das contas públicas afeta o combate à inflação. "Quando as metas fiscais são reduzidas, as expectativas de inflação são revisadas para cima", disse. A fala do presidente foi gravada pelos parlamentares e o Estado teve acesso.

Segundo Tombini, com as incertezas fiscais, as expectativas começaram a subir sem qualquer movimento de política monetária (política de juros). O momento, disse Tombini, é de restabelecer a política fiscal.

"Temos hoje uma política monetária dura, há espaço no futuro para trabalhar, mas o fato é que a fiscal precisa ser restabelecida, tanto nos seus fluxos quanto ao colocar seus estoques em trajetória estável", afirmou.

Mudança de roteiro. No início do ano, o roteiro que o BC traçou para lidar com a política da nova equipe econômica, de corrigir os preços administrados pelo governo, era limitar os efeitos dos reajustes à inflação de 2015. Mas o realinhamento de preços será mais doloroso do que se esperava. Além disso, a alta do dólar provocada pelas incertezas políticas e econômicas atrapalhou o roteiro.

Apesar do descrédito do mercado financeiro, o BC insistia que seria possível levar a inflação para o centro da meta em 2016. O quadro mudou na semana passada quando o BC decidiu manter a taxa Selic em 14,25% e abandonar a sua estratégia. O prazo de convergência foi transferido para 2017.

Também foi retirada a avaliação de "sinais benignos" vindos das expectativas de médio e longo prazo, o que aponta para um retrocesso em relação à melhora alcançada até a agosto quando o governo enviou ao Congresso o Orçamento de 2016 com a previsão de déficit.

Seguro do BC. Além de colocar a culpa na política fiscal, o BC disse que ela traz uma percepção negativa sobre o ambiente econômico. E acrescentou: a política monetária deve se manter vigilante. Esse é o 'seguro' para poder atuar à vontade na próxima reunião do Copom. Ou seja, mesmo que o discurso seja o de que manterá a taxa estável por um período prolongado, o BC deixou espaço para voltar a elevar os juros.

O BC mostrou uma visão mais negativa sobre os preços administrados, principal vilão da inflação este ano. Até para justificar a mudança de orientação, a projeção do banco ficou maior até do que a do mercado financeiro. O BC prevê alta de 16,9% e os analistas de mercado projetam 16,1%, segundo o Relatório Focus.

No encontro com o deputados, Tombini mostrou preocupação com a evolução da dívida púbica. "É uma situação que tem que ser atacada neste e nos próximos anos para trazer de volta a trajetória desses estoques fiscais para um padrão de declínio, de redução ao longo do tempo. Isso não é importante só para o setor público, mas também para as empresas e para as famílias", disse. / Colaborou Bernando Caram

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