Angela Weiss/AFP - 13/7/2021
Angela Weiss/AFP - 13/7/2021

Inflação surpreende nos EUA e reforça a aposta em alta de juros

O índice de preços ao consumidor já acumula alta de 5,4% em 12 meses, maior nível desde 2008; carros usados, passagens aéreas e diárias de hotéis tiveram forte aumento em junho no país

Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 19h15

A previsão era de que a alta dos preços desse uma trégua nos Estados Unidos em junho. Em vez disso, a inflação continuou a surpreender e subiu a 5,4% em 12 meses, maior nível desde agosto de 2008. Analistas dizem que o Federal Reserve (Fed), o Banco Central americano, deve manter o discurso de que a pressão inflacionária é transitória, mas avaliam que ficou mais difícil para a autarquia sustentar esse argumento. No mercado, as apostas em elevação da taxa básica de juros no próximo ano já são majoritárias.

Os fatores que impulsionaram o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos EUA em junho foram os mesmos de abril e maio. As passagens aéreas e as diárias em hotéis, por exemplo, ficaram mais caras. O aumento da demanda por esses serviços está relacionado à reabertura da economia, que ganhou força com o avanço da campanha de vacinação contra a covid-19.

Mas o fator central do salto da inflação em junho foi uma alta mensal de 10,5% nos preços dos carros usados. A escassez de chips semicondutores utilizados pelas montadoras tem dificultado a fabricação de veículos novos, que ficaram mais caros. Com isso, aumentou a demanda pelos usados, que agora são um dos principais focos inflacionários.

Além desses gargalos nas cadeias globais de produção, que causam pressões de preço, há também o efeito de base comparativa, já que o CPI despencou em igual período de 2020 devido à quarentena imposta no país para conter a pandemia.

Esses fatores combinados levaram a uma alta mensal de 0,9% do índice em junho, puxada também pelos preços dos alimentos e da gasolina. A mediana das estimativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast indicava que a inflação iria desacelerar de 0,6% em maio para 0,5% no mês passado. Na comparação anual, a estimativa era de que o CPI se mantivesse em 5%. Em vez disso, acelerou a 5,4%.

Também com avanço além do esperado, o núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como energia e alimentos, subiu 0,9% em junho. Em 12 meses, o índice chegou a 4,5%, contra previsão de que acelerasse a 4,0%.

"Outra surpresa para cima na inflação sugere impactos mais generalizados dos problemas da cadeia de abastecimento e levanta mais questões sobre a rapidez com que esses fatores desaparecerão em meio à forte demanda", diz a economista Katherine Judge, do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC).

Para o economista sênior Andrew Hunter, da Capital Economics, o mais "preocupante" é que as pressões inflacionárias têm se espalhado para mais setores. Analistas chamam a atenção para o aumento nos preços dos aluguéis, que pode se tornar mais duradouro.

A consultoria britânica ressalta que os efeitos temporários, como os da reabertura econômica, vão desaparecer eventualmente, mas pondera que os aumentos de salário no país, que têm potencial para elevar o consumo, podem impedir uma queda maior do núcleo da inflação. Em discurso hoje, o presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin, reconheceu que a pressão salarial faz parte da equação da alta de preços.

"Embora compartilhemos da visão do Fed de que este não é o início de uma espiral inflacionária ascendente, esperamos que a inflação permaneça persistentemente acima de 2% até 2022", afirmam analistas da consultoria Oxford Economics.

Na visão do economista-chefe internacional do ING, James Knightley, dada a força do aumento de preços nos últimos três meses, ficou mais difícil para o banco central americano manter o discurso de inflação "meramente transitória".

"Nessas circunstâncias, a redução da compra de títulos pelo Fed está se aproximando", sugere o economista sênior Christoph Balz, do Commerzbank, em análise similar.

Nos contratos futuros dos Fed funds monitorados pelo CME Group, a aposta majoritária é de ao menos uma elevação da taxa básica de juros em 2022. Logo após a reunião de junho do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), o Broadcast já havia mostrado que boa parte dos analistas passou a prever início do ciclo de alta nos juros no final do próximo ano.

Economistas do Wells Fargo e do TD Securities ponderam que os dados ainda apoiam a visão do Fed de que o nível atual de inflação é transitório, mas dizem que o debate em torno do assunto deve continuar. Há divergências entre os próprios dirigentes, como mostrou o Broadcast no mês passado.

Hoje, em entrevista após a divulgação do CPI de junho, a presidente do Fed de São Francisco, Mary Daly, disse que o BC dos EUA estará em uma "boa posição" para realizar o "tapering", como é chamado o processo de redução gradual das compras de ativos, no final de 2021 ou no início de 2022. Ela, contudo, disse acreditar que a inflação é temporária e avaliou que não é o momento para se tratar de aumento de juros.

A visão de Daly sobre a retirada de estímulos via compra de ativos é apoiada por membros do Fed como Robert Kaplan (Dallas), James Bullard (St. Louis) e Raphael Bostic (Atlanta). Mas outros dirigentes, como John Williams (Nova York) e Neel Kashkari (Minneapolis), fazem coro com o presidente da instituição, Jerome Powell, ao se mostrarem menos favoráveis a iniciar o "tapering". A principal preocupação dessa ala mais dovish é impedir que uma mudança antecipada na política monetária coloque um freio na recuperação do mercado de trabalho.

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