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Inflação: um governo enredado em contradições

Quando o objetivo de controlar a inflação é colocado em um plano secundário, e a política monetária busca apenas a expansão da demanda agregada, a inflação pode tardar a aparecer, mas nunca falha. O governo vem tentando segurar a inflação reduzindo impostos e pedindo aos prefeitos a postergação do reajuste das passagens de ônibus, mas não consegue esconder que a inflação subjacente vem se acelerando.

Affonso Celso Pastore, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h08

Em janeiro, mais de 75% dos preços que compõem o IPCA se elevaram, e há mais de dois anos os preços dos serviços vêm crescendo a taxas superiores a 8% ao ano.

O forte crescimento do consumo, em grande parte gerado pelas taxas reais de juros baixas; pelo crescimento da massa real de salários e da população ocupada, vem provocando a elevação de todos os demais preços, que recentemente se aceleraram devido ao efeito defasado da depreciação cambial a partir de maio de 2012.

Isso levou a uma mudança no discurso do presidente do Banco Central, que afirmou que "há um desconforto com o crescimento da inflação". Nos últimos dias, o mercado financeiro deixou de levar a sério a indicação presente nos últimos comunicados do BC de que a taxa de juros deveria permanecer estável "por um extenso período", provocando inclinação da curva de juros, que é indicativa do aumento da probabilidade de que o Banco Central teria de iniciar uma elevação da taxa Selic em meados deste ano.

Mas será que isso irá ocorrer? Uma resposta positiva seria dada caso se considerasse a progressiva "desancoragem" da inflação. Há evidências empíricas claras de que a meta de inflação percebida pela sociedade atualmente situa-se em torno de 5,5%, e não de 4,5%, e se o Banco Central se limitar apenas a manifestações verbais, essa "desancoragem" deverá se acentuar. O problema se agravará se se configurar ainda mais claramente a existência de um bloqueio político ao uso da taxa de juros no combate à inflação.

Configura-se atualmente uma situação clara na qual a tendência subjacente da inflação é crescente. Em torno dessa tendência ocorrem ciclos alternados de baixa e de alta nas taxas mensais, com as baixas ocorrendo quando são introduzidas isenções de impostos, ou fatores sazonais positivos, e as elevações correndo quando há um ciclo de depreciação cambial ou de retorno à cobrança dos impostos, e fatores sazonais negativos.

Porém, não adianta apenas usar artifícios que gerem uma sucessão de ciclos favoráveis, como o que se iniciou em fevereiro, com a queda das tarifas de energia, porque a médio prazo a tendência subjacente será dominante, e a guerra será perdida. O natural em uma situação como essa seria elevar a taxa Selic, em magnitude que, devido à queda da taxa neutra de juros, seria bem menor do que no passado. Mas todas as indicações são de que a presidente Rousseff transformou a taxa de juros em um objetivo de política econômica, e a menos que liberte o Banco Central dos grilhões políticos aos quais está preso, o uso da taxa de juros deixa de ser um instrumento de controle da inflação.

Âncora política. Nessa mesma direção atua o objetivo de manter a taxa de desemprego em um nível muito baixo. O desemprego é uma âncora política - talvez a mais importante - da presidente Rousseff. Para derrubar a inflação, seria necessário elevar a taxa real de juros, o que poderia ter o efeito de elevar (ainda que ligeiramente) a taxa de desemprego. O risco dessa ação não parece ser tolerável em Brasília.

O bloqueio político ao uso da taxa de juros tem levado à alternativa de permitir o retorno à valorização cambial. Por algum tempo, a partir de maio de 2012, todas as indicações eram de que a taxa de R$ 2,00/US$ seria o piso de uma banda de flutuação, cujo teto seria inferior a R$ 2,10/US$, com o objetivo de elevar a competitividade da indústria.

Diante da demora na reação da indústria, o coro dos empresários e ministros simpatizantes passou a defender taxas de câmbio ainda mais depreciadas, atingindo R$ 2,40/US$, talvez. Em vários pronunciamentos, a presidente Rousseff condenou a apreciação cambial, que era atribuída às políticas monetárias expansionistas dos países industrializados, no que foi seguida pelos ministros Mantega e Pimentel.

O próprio Dr. Tombini chegou a afirmar que defenderia o piso de R$ 2,00/US$ para a taxa cambial, ou que "o Brasil não seria praça para a desvalorização do dólar".

Mas a depreciação ocorrida a partir de maio cobraria seu preço em termos de inflação. Se tomarmos uma estimativa conservadora do pass-through da depreciação para os preços aos consumidores, entre maio e dezembro de 2012, isso adicionou em torno de 0,6 ponto porcentual à inflação, e se o câmbio continuasse a se depreciar, a inflação se elevaria ainda mais.

A "desancoragem" da inflação contribuiu para convencer o Banco Central de que a depreciação progressiva tinha de ser truncada, levando-o a iniciar intervenções que, mais recentemente, trouxeram o real abaixo de R$ 2,00/US$.

O objetivo do governo com um real mais fraco era favorecer o crescimento da indústria, que vem sendo penalizado pelo forte crescimento do custo unitário do trabalho medido em reais. A forma correta de superar esse problema seria com reformas que levassem ao aumento da produtividade e à queda dos custos, mas um programa mais ambicioso de reformas não consta da agenda do governo. Apenas são contemplados alguns setores, desde que não se comprometa a arrecadação tributária.

Qual seria o custo maior para domar a inflação? Elevar a taxa de juros? Ou permitir a valorização do real? Diante do custo político de uma elevação do desemprego o aumento da taxa de juros é uma alternativa que, no mínimo, será postergada, recaindo a preferência sobre o câmbio. Mas quanto? Como tem sido a regra geral nos últimos tempos, a sinalização vinda do governo é extremamente confusa.

Antes do carnaval, o ministro Mantega chegou a sugerir que não permitiria que o real chegasse a R$ 1,85/US$, o que levou à suposição de que R$ 1,85 poderia ser o limite inferior da banda de flutuação, desencadeando uma forte valorização, que foi combatida pelo Banco Central com uma venda de swaps reversos.

Quanto o real poderá se valorizar? A temporada de apostas está aberta e temos de esperar um pouco mais para ter uma visão mais clara. Lembremos, contudo, que o governo quer promover o crescimento da produção industrial, e coloca nas virtudes do câmbio depreciado a sua confiança em levar àquele resultado.

O quadro de contradições não seria completo sem a introdução do objetivo de retomar o crescimento econômico. Provavelmente neste ponto o governo já se convenceu de que o crescimento potencial de 4% não está mais ao alcance e se conforme com taxas menores.

Ainda assim, continua acreditando que, ao estimular a demanda, conseguirá o milagre de um crescimento mais acelerado, e a sua confiança irrestrita no Estado o leva a cogitar de mais estímulos fiscais, que também são inflacionários.

O governo está se enredando em contradições que o levarão a uma inflação em contínuo crescimento. Essa tendência pode ser disfarçada por medidas ad hoc, representadas por isenções de impostos e/ou controles de preços, ou por momentos de sazonalidade favorável, que produzirão efeitos temporários sobre as taxas mensais de inflação, dando a ilusão de que a guerra foi vencida, como ocorreu no início de 2012, quando alguns chegaram a acreditar que o Banco Central tinha poderes acima do normal. Mas o resultado final é conhecido: a inflação gradualmente tende a crescer e, em prazo um pouco mais longo, a sair do controle.

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