Fabiola Gimenes/ Divulgação
Cosmo Donato, economista da LCA Consultores. Fabiola Gimenes/ Divulgação

'Informal até volta ao mercado de trabalho, mas de forma mais precária', diz economista

Para Cosmo Donato, da LCA, dados do IBGE apontam para recuperação em setores como comércio e serviços, mas atrasos na vacinação devem postergar retomada de segmentos que dependem de circulação

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 13h05

Para o economista Cosmo Donato, da LCA Consultores, o recorde na taxa de desemprego de 13,5% na média do ano passado, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, do IBGE, aponta para uma recuperação em setores como comércio e serviços este ano, mas os atrasos e confusões no programa de vacinação ainda devem postergar a retomada de segmentos que dependem de circulação, como o turismo e lazer. Ele também avalia que a situação dos informais deve ficar mais precária.

A seguir, trechos da entrevista. 

O recorde de desemprego em 2020 não é exatamente uma surpresa, mas o que mais os números mostram?

Não olhemos tanto para a taxa de desemprego da média do ano, pois não há como questionar o recorde de desemprego nesse cenário de pandemia. Houve uma redução da população ocupada no ano passado e a taxa foi menor do que seria, porque essa população caiu. Mas o mais importante é ver o que está acontecendo mês a mês. A situação do mercado de trabalho está razoavelmente melhorando, quando a gente olha para o todo, tem uma recuperação parcial da população ocupada e da renda das famílias, o que não quer dizer que já esteja tudo bem.

O fim do ano passado foi pior do que se imaginava? 

Dezembro é um mês tipicamente de queda do desemprego, pelos trabalhos temporários. A taxa cai normalmente no fim do ano, mas caiu menos em 2020, pela perspectiva de fim do auxílio emergencial. As pessoas voltaram a procurar emprego, para compensar a queda de renda que teriam. Foi um mês atípico de dezembro. Mas a população ocupada continua crescendo, estamos entrando em um mês em que novas medidas de restrição estão sendo tomadas, mas nada comparado ao que a gente teve no ano passado. 

O atraso na vacinação pode postergar a criação de novos postos de trabalho?

A gente observa que não necessariamente as empresas vão pisar no freio por causa da vacinação. Elas se adaptaram ao novo normal e não estamos voltando para os mesmos índices de isolamento de antes da vacinação. O crescimento da economia este ano deve compensar parte das perdas que tivemos em 2020, mas os riscos se devem por atrasos na volta das empresas para os escritórios. Vacinando os grupos de riscos, esse cenário pode melhorar.

O trabalho informal deve conduzir a recuperação do mercado de trabalho este ano? 

O trabalhador informal tem a característica de voltar ocupado com mais facilidade, já que a decisão de voltar ao mercado depende basicamente dele. Com as medidas mais frouxas de distanciamento, ele volta a trabalhar. Mas ainda tem menos pessoas circulando pelas ruas e a mudança de hábitos de consumo não deve se normalizar ainda em 2021. O informal até volta ao mercado de trabalho, mas entra de forma mais precária.

A volta do auxílio emergencial, que está sendo proposta, pode postergar a volta dos informais ao mercado de trabalho?

Não. O informal não consegue recuperar a mesma renda que tinha no ano passado e vai ficar mais desprotegido. Quando o novo auxílio vier, será de um valor bem menor que os R$ 600 concedidos antes. E muitas pessoas ficarão descobertas. O trabalhador está sendo mais afetado pela queda de renda neste começo de ano do que estava no ano passado e ele vai precisar complementar a renda do novo auxílio com o seu trabalho, de qualquer modo.

O desalento, quando as pessoas deixam de procurar trabalho por acharem que não irão encontrar, foi uma das marcas do mercado de trabalho no ano passado. Ele deve cair este ano?

O desalento subiu bastante, mas ele tem a característica de não ser relacionado tanto com a pandemia em si. Muitas pessoas desistiram de procurar emprego por uma questão conjuntural e vão voltar a procurar com o fim da pandemia. Mas parte do desalento pode se manter, por já ser um fenômeno que aumentou com a saída da crise de 2016, não há algo claro que obrigue a cair agora, em 2021. Ele pode até aumentar, porque o mercado vai estar mais precarizado e muitos trabalhadores vão ficar afastados.

Os atrasos no programa de vacinação, com imunizantes sendo entregues pelo governo de forma atabalhoada e demora na assinatura de novos contratos para a compra de vacina, deve adiar a recuperação do emprego em algum setor?

Sim. O setor de turismo é um bom exemplo de quem deve continuar pagando pelos erros no programa de vacinação. Atrasar a vacinação significa que mais gente vai adiar viagens. Esse setor de turismo ainda deve ter um 2021 muito difícil. O de bares e restaurantes pode até ensaiar uma recuperação ao longo do ano, pelo isolamento não ser mais tão intenso quanto já foi. Mas o de hotéis depende de turismo, de viagens corporativas, que estão travadas pela pandemia. Ainda deve demorar a se recuperar.

Por outro lado, quais setores devem se recuperar com mais força este ano?

A construção já teve um grande impulso em 2020, mas ainda depende das obras de infraestrutura e da questão fiscal do País para avançar com mais força. A economia deve crescer 3,2% este ano, vindo de uma queda de mais de 4%, no ano passado, mas os setores que mais perderam empregos em 2020 podem crescer este ano, como o comércio e os serviços.

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Brasil tem maior desemprego desde 2012, puxado por comércio e domésticos, aponta IBGE

Taxa caiu para 13,9% no quarto trimestre, depois de chegar a 14,6% no trimestre anterior, e, na média do ano, ficou em 13,5%, informou o IBGE

Daniela Amorim e Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 09h26
Atualizado 26 de fevereiro de 2021 | 14h26

RIO e SÃO PAULO - Apesar da geração de vagas característica do fim do ano, a taxa de desemprego no País ainda ficou em 13,9% no quarto trimestre de 2020, pior resultado para o período desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), apurada desde 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em relação ao ano anterior, foram perdidos 8,4 milhões de postos de trabalho. O País tem quase 14 milhões de desempregados. Se considerados todos os subutilizados, que inclui os desalentados e subempregados, está faltando trabalho para mais de 32 milhões de brasileiros.

O resultado da pesquisa, porém, trouxe uma melhora em relação à taxa de desemprego de 14,1% do trimestre encerrado em novembro.

"A taxa é para ser celebrada diante dos números anteriores, mas o cenário ainda é complicado. Aquele cenário mais positivo do fim do ano passado não está se sustentando e não há perspectiva de volta agressiva da economia. Devemos ter uma recuperação extremamente lenta no primeiro semestre deste ano e no segundo semestre ainda estaremos às voltas com o processo de vacinação e o presidente (Jair Bolsonaro) totalmente focado na eleição de 2022, o que significa chance nenhuma de reformas", projeta Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, que prevê um crescimento de apenas 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiros neste ano.

Na média do ano, a taxa de desemprego saltou de 11,9% em 2019 para um ápice de 13,5% em 2020. Sergio Vale acredita que a desocupação volte a acelerar nas próximas leituras, até a taxa alcançar 15,1% em maio, encerrando o último trimestre de 2021 em 14,1%, o que elevaria a média anual para 14,7%, um novo recorde.

A recuperação do mercado de trabalho demandará tempo e dependerá da evolução da pandemia de covid-19, defendeu Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

"Foram perdas muito profundas. Reverter esse quadro vai demandar tempo sim. Não apenas tempo só, mas é o que vai acontecer ao longo desse tempo: como a economia e as atividades econômicas vão operar e as questões do controle sanitário", explicou Beringuy. "A gente passa em 2019 de uma população ocupada recorde para, em 2020, a menor população ocupada da pesquisa. Isso tudo em apenas um ano", frisou.

Os trabalhadores mais afetados no ano de 2020 foram os do comércio (-1,702 milhão de vagas, em média), serviços domésticos (-1,198 milhão de trabalhadores) e alojamento e alimentação (-1,172 milhão). Todos os três setores bateram recordes de demissões. A indústria também demitiu em massa, alcançando quase um milhão de vagas extintas.

A crise afetou de forma muito mais excessiva o mercado de trabalho informal, justificou Cimar Azeredo, diretor adjunto de Pesquisas do IBGE. O pesquisador lembra que houve redução importante no total de vagas com carteira assinada no setor privado, mas os primeiros trabalhadores a ficarem sem ocupação foram os que atuavam na informalidade, prejudicados pela pandemia e pelas medidas necessárias para conter a disseminação da covid-19.

“Essa crise é uma tempestade, que acaba colocando para fora - ao contrário das outras crises - a informalidade. Agora estamos vendo o retorno da informalidade com reabertura de praia, das ruas”, disse Azeredo.

O diretor do IBGE lembra que, passado o pior momento da crise, a recomposição do emprego perdido costuma ocorrer primeiro através de postos informais, mas depois também há resgate do trabalho com carteira assinada.

Na passagem do terceiro para o quarto trimestre do ano de 2020, foram abertas 3,715 milhões de vagas, sendo 2,391 milhões delas informais. Dos 35% restantes, os novos trabalhadores formais, apenas 519 mil foram contratados com carteira assinada no setor privado.

Na comparação com o quarto trimestre de 2019, há 3,783 milhões de vagas com carteira assinada a menos no setor privado. A única categoria da ocupação com aumento no número de trabalhadores em um ano foi o setor público, com 521 mil ocupados a mais.

A expectativa é de novo crescimento no número de trabalhadores informais no Brasil adiante, o que deve desacelerar o aumento real dos salários pagos, segundo o economista Alberto Ramos, do banco Goldman Sachs.

"O crescimento real dos salários foi acelerado durante a pandemia, já que a maioria das perdas de empregos foi de trabalhadores com salários mais baixos do que a média e que integravam o setor informal da economia. O aumento do emprego na margem deve ser agora liderado pelos trabalhadores informais e de baixa renda, o que, associado à aceleração da inflação, exercerá pressão de baixa sobre o crescimento dos salários reais", previu Ramos, em relatório.

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