ALY SONG/REUTERS
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Infraestrutura dita ritmo do crescimento chinês

Máquina das obras foi acionada novamente pelas preocupações com a economia do país

The Economist, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 05h00

Há pouco mais de 25 anos Xangai inaugurou seu metrô com uma única linha. Desde então foram acrescentadas mais 15, com cerca de 700 quilômetros (km) de trilhos, o que o torna o maior do mundo. Mas não parou aí. A cidade recentemente anunciou planos para estender em mais 300 km, incluindo trens trafegando na superfície, dentro de cinco anos. Grande parte da obra já está em andamento, mas não é vista, com as máquinas abrindo túneis no subterrâneo. Mas os buracos das escavações na cidade oferecem vestígios da atividade.

Tudo isto faz parte de um ímpeto nacional. O governo chinês, segundo a mídia estatal, apertou o botão avançar nos gastos com infraestrutura, uma maneira testada e comprovada de fomentar a economia. No primeiro trimestre, o PIB (produto interno bruto) da China cresceu 6,4% em relação ano anterior, o mesmo nível do quarto trimestre de 2018. É o resultado mais baixo em uma década, mas um avanço invejado por muitos países. Entretanto, as autoridades chinesas estão inquietas com a possibilidade de o resultado ser o prenúncio do início de uma queda mais acentuada.

No ano passado, esses temores estavam bem à vista. A guerra comercial com os Estados Unidos parecia destinada a piorar. O mercado de capitais da China registrava quedas. Os empresários se queixavam de serem preteridos em detrimento das já poderosas empresas estatais. Uma campanha regulatória para controle dos níveis de dívida balançou o sistema financeiro e os bancos ficaram muito receosos de abrir seu caixa para empréstimos.

Assim, em meados de 2018 o governo mudou sua trajetória. Reduziu os juros sobre renda das pessoas físicas e sobre lucros corporativos. As autoridades recomendaram aos bancos emprestarem mais para pequenas empresas. E a máquina da infraestrutura foi acionada novamente. Durante meses eles hesitaram em aprovar projetos para metrôs, com foco na sua campanha para controlar a dívida. Mas em julho as coisas começaram a se movimentar de novo com meia dezena de cidades, incluindo Xangai, entre as beneficiárias. As vendas de escavadoras atingiram uma alta trimestral de oito anos nos primeiros três meses de 2019.

Mas ainda há dúvidas sobre até onde vai esse fomento da economia. O primeiro ministro Li Keqiang tem repetidamente descartado qualquer estímulo importante, temendo a anulação do progresso feito com a desaceleração do crescimento da dívida. Os benefícios advindos dos cortes de impostos foram mitigados pelos esforços para elevar a arrecadação.

Por outro lado, o avanço dos projetos de infraestrutura mostra como a China chegou a um tamanho em que seu crescimento se defronta com limites claros. O objetivo é construir 3,2 mil km de linhas para trens de alta velocidade este ano. É quase o tamanho da rede de trens de alta velocidade da Espanha, a segunda maior no mundo. Para a China, porém, está abaixo da média de 3,6 mil km anuais nos últimos cinco anos. E o governo não precisa se preocupar com a possibilidade de a economia ligeiramente mais frágil causar desemprego. Com a mão de obra encolhendo à medida que a população envelhece, anúncios de oferta de emprego são vistos em lojas por todo o país.

Muitos observadores foram surpreendidos pela força do crescimento do crédito este ano. O financiamento social total, medida que consiste principalmente nos empréstimos bancários e emissão de títulos, chegou a US$ 1,2 trilhão no primeiro trimestre, uma alta de 40% em relação ao mesmo período do ano passado, bem acima de muitos prognósticos. Um quarto do financiamento foi de empréstimos corporativos de curto prazo. Na China, isso normalmente é sinal de que os bancos estatais acataram o pedido do governo para abrirem as linhas de crédito, antes da demanda dos tomadores.

O crescimento pode se recuperar em meados do ano, diz Larry Hu, da Macquarie Securities. Assim, há possibilidade de um estímulo apenas limitado não ser adequado? Mais provável é que a mudança seja mais de tempo do que de magnitude. O governo vem concentrando esforços para impulsionar o crescimento.

Duas avaliações de caráter político ajudam a explicar a situação. O primeiro é a guerra comercial com os Estados Unidos. A China ficou na defensiva no ano passado à medida que seu mercado acionário despencava. Uma recuperação da bolsa este ano, alimentada pela nova política em favor do crescimento, aumentou a confiança da China quando as negociações entram na reta final. A segunda tem a ver com o aniversário de 70 anos de governo do Partido Comunista, este ano, que será marcado por inúmeras festividades. Ninguém deseja que a festa seja arruinada por lamúrias sobre a economia. As máquinas escavadoras do metrô terão um verão muito atarefado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  

 

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