Inglaterra, depois do 'não'

O primeiro ministro britânico David Cameron não tem nenhuma semelhança com Winston Churchill. Falta a truculência, a fisionomia jovial e colérica, a desenvoltura provocante de Churchill. Com uma aparência de jovem bem educado, bem nutrido, gentil e elegante, distinto, traços finos, ele não intimida os adversários como o grande Churchill, que era respeitado por personagens temíveis como Roosevelt, Stalin ou o general de Gaulle.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2011 | 03h07

David Cameron também não se parece com Margaret Thatcher, a ex-primeira ministra da guerra das Malvinas que, nas reuniões de cúpula europeia, batia na mesa com sua bolsa e gritava: "Meu dinheiro! meu dinheiro!", que, aliás, permitiu que ela conseguisse em 1984, da parte da Comunidade Europeia, o "famoso desconto britânico".

Cameron não grita. Tem a voz apagada da "nobreza" britânica. Quando o vemos, procuramos vagamente em volta um grande parque, um gramado e um equipamento de caça de raposas ou cervos saídos da Idade Média.

Mas é bom não confiar nas aparências: ao se colocar contra os 26 países da União Europeia, Cameron adotou a postura preferida pelos britânicos: solitário, teimoso, inflexível. "Somos uma nação insular, uma nação guerreira e estamos muito melhor sozinhos", exultou o Financial Times.

A população britânica aprova esse comportamento. Os ingleses não temem o "esplêndido isolamento". Estão tranquilos. Uma porcentagem de 62% dos britânicos aprovaram a decisão de Cameron de vetar o plano Merkel/Sarkozy, contra 19% apenas que acham que ele está errado. O problema é que, entre esses 19% estão os "liberais democratas", pró-europeus apaixonados e que pertencem à coalizão liderada pelo premiê.

O chefe dos "lib-dem", o vice-premier Nick Clegg, que inicialmente pareceu aceitar a posição de força do seu chefe David Cameron, voltou atrás depois de levar uma bronca dos seus amigos pró-europeus.

"Estamos isolados na Europa e diminuídos à vista de Washington", vociferou o influente Paddy Ashdown. E a liberal democrata Shirley Williams foi mais além: "Isso vai reduzir nossa influência em Washington, Pequim, Nova Délhi, e em todas as capitais que valorizam a influência que acreditam que temos em Bruxelas".

Os conservadores rejeitam a alto e bom som tais frivolidades.

Detestando a União Europeia desde a Guerra dos Cem Anos, olhando com desdém esse "conglomerado de hordas selvagens" que se agita entre o Vístula e a França, estão exultantes. Ao chegar a um jantar oferecido por seus amigos Tories, Cameron foi recebido com uma longa ovação, ritmada por 50 mãos batendo nas mesas.

Podemos assim imaginar que a coalizão no poder na Grã-Bretanha vai se transformar num campo de rudes batalhas. O ponto de vista das duas alas que formam a maioria de Cameron, longe de se aproximar se afasta a cada momento: os liberais democratas se dizem decididos a restabelecer os vínculos com os países da Europa e consolidar o lugar que Londres ainda conserva dentro da UE, apesar das tempestades do momento.

Os conservadores, pelo contrário, querem "atiçar o fogo". Desejam que o veto de sexta-feira seja apenas o primeiro passo, preparando uma saída de fato da Europa. A sua ideia é organizar um referendo sobre o assunto na Grã-Bretanha, com vistas a uma saída pura e simples da UE.

Podemos calcular os riscos que esses delírios representam para a unidade da coalizão atualmente no governo, que está se dilacerando por causa da Europa. As próximas eleições legislativas estão previstas para maio de 2015. Será muita pretensão acreditar que a atual equipe conseguirá se manter no poder até aquela data. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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