Tom Nicholson/Reuters - 31/10/2021
Tom Nicholson/Reuters - 31/10/2021

Inglaterra é primeiro país rico a subir juro para conter inflação; entenda o impacto no Brasil

Banco da Inglaterra anunciou alta na taxa básica de 0,1% para 0,25%; na quarta-feira, o banco central americano já havia indicado alta dos juros em 2022

André Marinho e Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2021 | 10h38
Atualizado 17 de dezembro de 2021 | 07h43

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) deu nesta quinta-feira, 16, o pontapé inicial em um movimento que pode chegar a outros bancos centrais de países ricos e ter impacto direto nos emergentes, como o Brasil. Com a inflação em patamares muito elevados para os padrões locais, hoje na casa dos 5% ao ano, o BoE anunciou o aumento da sua taxa básica de juros de 0,10% para 0,25% ao ano.

Pode até não parecer muito, mas o sinal é inequívoco. A inflação preocupa e será necessário algum freio na atividade econômica para que volte à meta de 2%. Na quarta-feira, 15, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) já havia dado uma indicação nesse sentido, ao apontar para pelo menos três aumentos na sua taxa de juros em 2022.

Já o Banco Central Europeu (BCE) decidiu, nesta quinta-feira, manter inalterada a sua taxa, em -0,5%. Mas anunciou também o início da redução do ritmo de compra de ativos a partir do próximo trimestre, finalizando até março de 2022 o programa emergencial de estímulos à economia montado no ano passado para reduzir os efeitos da pandemia da covid-19.

Taxas de juros mais atrativas nos países desenvolvidos significam que os países emergentes terão mais dificuldade para atrair dinheiro de investidores, que sempre vão preferir a segurança maior proporcionada pelos países com economia mais estável. Com isso, os emergentes precisam subir ainda mais as suas taxas, para se tornarem mais competitivos. Mas taxas de juros mais altas comprometem o desempenho interno: investimentos ficam mais caros, dívida pública sobe, e a tendência da economia é recuar. 

Impactos no Brasil

Para Tiago Berriel, estrategista-chefe do BTG Pactual Asset Management e ex-diretor diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, o Brasil tem uma situação um pouco melhor do que outros emergentes porque tem feito um ajuste forte na taxa de juros nos últimos meses. Também conta a favor o fato de o Brasil depender menos do mercado internacional e dos investidores estrangeiros para financiar as contas do governo.

Entretanto, o país não ficaria imune à alta dos juros nos países avançados e de uma eventual saída de capitais generalizada. "Quando o mal estar aparece entre os emergentes, normalmente pega todo mundo, mesmo os mais protegidos. A gente viu isso, por exemplo, em 2018", afirma.

"Em 2018, o Fed começou a subir os juros. A gente viu volatilidade, movimento de depreciação cambial, necessidade de aumento de juros em vários países emergentes. A gente viu na Turquia, na África do Sul, no Brasil. Existe um padrão em que esses movimentos coincidem ou parecem causar uma volatilidade maior em países emergentes."

Bráulio Langer, analista de investimentos da corretora Toro, afirma que um cenário de juros mais altos nos países ricos teoricamente faz com que o Brasil fique menos atraente para investidores internacionais, o que faz o dólar subir e enfraquece a Bolsa. No entanto, ele lembra que as ações das empresas brasileiras tiveram um desempenho ruim nos últimos meses e que isso também pode atrair o capital estrangeiro.

"O que a gente tem de considerar é quais os fatores externos e internos vão pesar mais no investimento aqui no País. A gente já está vindo de várias semanas de queda. Por isso, a nossa Bolsa pode ter uma performance melhor, dependendo como for o cenário eleitoral. Existem outros fatores além dessa questão dos juros que podem impactar na Bolsa aqui. É difícil saber qual vai pesar mais", diz Langer.

Na visão de Bruno Hampshire, economista de internacional da gestora ACE, a economia brasileira poderia ser prejudicada se, eventualmente, o Fed subir os juros além do patamar esperado pelo mercado, de 1,5% ao ano. Nesse caso, pode haver uma desaceleração mais forte da atividade econômica nos EUA, o que acabaria prejudicando também indiretamente a economia brasileira. No entanto, esse não é o cenário mais provável. 

"O Fed deve começar a subir os juros em abril e maio, e se for feito algo gradual e organizado, vai demorar (para desacelerar a atividade nos EUA). A economia americana está hoje muito saudável. Estruturalmente ela tem potencial para crescer durante um bom tempo", afirma. "Para o Fed chegar e matar a recuperação da economia americana, seria uma história mais para 2023. Não acho que vai ser tão cedo quanto no próximo ano."

Impacto da ômicron na economia

No caso da Inglaterra, a decisão de elevar os juros leva em conta o avanço dos preços.  Os analistas do BoE projetam que a inflação ficará em cerca de 5% ao longo da maior parte do inverno britânico, atingindo pico de 6% em abril de 2022. O Banco prevê que as métricas inflacionárias continuarão subindo nos próximos meses, impulsionado sobretudo por energia, mas projeta desaceleração no segundo semestre do ano que vem.

Embora alguns analistas aventassem para a possibilidade de aumento de juros, o mercado como um todo esperava que a taxa básica de juros seria mantida em 0,1%, por conta do forte impacto da variante ômicron, do coronavírus, no Reino Unido. O país voltou a endurecer restrições à mobilidade e registrou recordes de casos.   

A equipe de especialistas da instituição cortou a previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) britânico de 1% a 0,5% no quarto trimestre ante o anterior, citando a emergência da variante ômicron do coronavírus. Na visão do BoE, a cepa deve pesar sobre a atividade no curto prazo, mas o impacto na inflação ainda é incerto. 

BCE acha improvável elevar juros em 2022 

O Banco Central Europeu optou por um caminho mais cauteloso. A presidente do Banco, Christine Lagarde, disse nesta quinta-feira ser improvável que o BC aumente juros em 2022, e que nem tudo que acontecerá no Fed será replicado pelo BCE. Segundo ela, a manutenção das taxas é essencial para garantir a estabilização da inflação. Lagarde destacou que o BCE espera que a inflação atinja a meta no médio prazo, e que vão se esforçar para que isso aconteça.

"A acomodação monetária ainda é necessária para que a inflação se estabilize em nossa meta de inflação de 2% no médio prazo. Dadas as atuais incertezas, precisamos manter a flexibilidade e a opcionalidade na condução da política monetária", afirmou durante discurso após decisão de política monetária do BCE.

Sobre o cenário atual, a presidente destacou que há incertezas sobre a ômicron e a quinta onda de casos de covid-19 na Europa. "Alguns países da zona do euro reintroduziram medidas de contenção mais rígidas. Isso pode atrasar a recuperação, especialmente em viagens, turismo, hospitalidade e entretenimento", afirmou.

BC turco reduz taxa básica, apesar da inflação

Na contramão das preocupações globais, o Banco Central da Turquia anunciou, nesta quinta-feira, corte da taxa básica de juros em um ponto porcentual, de 15% para 14%, apesar da persistente escalada inflacionária no país. A decisão reforça a desconfiança nos mercados financeiros de pressão política do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sobre o BC local. Nas últimas semanas, ele tem reiterado sua oposição ao aperto da política de juros, com defesa de políticas pouco ortodoxas para conter a inflação.

Em comunicado, o BC turco explicou que o corte de juros reflete o caráter transitório da aceleração dos preços, que seriam impulsionados por fatores "além do controle" monetário. A instituição acrescentou que o impacto acumulado das decisões recentes será monitorado ao longo do primeiro trimestre de 2022, quando pretende avaliar "todos os aspectos do quadro da política a fim de criar uma base para uma estabilidade de preços sustentável".

O banco  assegurou ainda que usará "de forma resoluta" todos os instrumentos ao seu dispor para que a inflação retorne à meta de médio prazo de 5%. A decisão desta quitna-feira  dá prosseguimento ao ciclo de redução de juros iniciado em novembro, quando a taxa básica foi reduzida de 18% para 15%. Para garantir a ingerência sobre o BC, o presidente Erdogan trocou o comando da autoridade monetária e removeu membros do comitê.

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