Inimigos do Mercosul não querem ver seu avanço, diz Lula

Presidente admite, porém, que se a integração do bloco não se aprofundou, 'a culpa é iminentemente nossa'

Denise Chrispim Marin, de O Estado de S. Paulo,

18 de dezembro de 2007 | 12h13

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta terça-feira, 18, em discurso na 34ª Reunião de Cúpula do Mercosul, que "inimigos internos e externos" do bloco não querem ver o seu avanço. Entre os inimigos internos, Lula mencionou claramente os corpos técnico e burocrático dos quatro países sócios do projeto. O presidente reconheceu, entretanto, que se a integração não se aprofundou como deveria nos últimos anos, "a culpa é iminentemente nossa". Para ele, nas questões de integração, a vontade política deve prevalecer sobre as decisões técnicas.   "O Mercosul é como um filho que colocamos no mundo e, às vezes, somos tão exigentes com ele que só vemos coisas feias nele. Dentro dos nossos governos, das nossas burocracias, há gente que não assimila o Mercosul", afirmou Lula, para acrescentar em seguida que muitos prefeririam que os membros do bloco firmassem acordos comerciais com os Estados Unidos e a União Européia. "É como dizer para nosso filho que ele é feio, tem nariz grande, orelhas grandes. Vamos colocar um pouco de beleza nesse filho. Esse filho pode produzir mais. Não usamos nem 40% do seu potencial."   Logo após lembrar que ainda lhe resta três anos de mandato, o presidente Lula defendeu que será possível avançar, nos próximos dois anos, o que "não avançamos em dez anos no Mercosul".   Dirigindo-se como "o decano do Mercosul" à presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que assume a partir desta terça a presidência temporária do bloco, Lula aconselhou a conclusão das medidas que eliminarão a dupla cobrança da Tarifa Externa Comum (TEC). "Se a gente ceder à burocracia interna e aos que sonham em vender tudo para os Estados Unidos e a União Européia, não daremos o salto de qualidade", afirmou.   Petrobras     Ao defender que a "vontade política" se sobreponha às decisões técnicas no processo interno do Mercosul, o presidente deixou claro que tal princípio prevaleceu nos dois acordos firmados nos últimos dias pela Petrobras com a Petróleos de Venezuela (PDVSA) e com a Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB). Em seu discurso, Lula citou os dois casos como exemplos da imposição da decisão política.   Conforme relatou, em setembro passado, durante seu encontro com o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, em Manaus, havia determinado a conclusão do processo de discussão sobre as duas empresas mistas a serem formadas entre a Petrobrás e a PDVSA, para que a criação de ambas fosse assinada no último dia 10. Os dois presidentes se encontraram, de fato, no último dia 13, em Caracas. Mas o trabalho não estava finalizado e acabou concluído pela metade.   "Quando chegamos lá, nem a PDVSA nem a Petrobras estavam de acordo. Precisamos chamar (os presidentes das duas empresas) e dizer que tinham um acordo a cumprir", afirmou, para em seguida lembrar que apenas foi concluída a criação de uma das empresas - a que vai construir e operar a refinaria Abreu de Lima, em Pernambuco. A segunda empresa - que deverá explorar e produzir petróleo nas jazidas de Carabobo1 - deverá ser criada somente na reunião bilateral de março de 2008, informou Lula.   No caso do acordo Brasil-Bolívia, firmado na última segunda-feira, o desentendimento técnico repetiu-se. "Como na Venezuela, eu e o Evo (Morales, presidente da Bolívia), chamamos as duas empresas e, em 10 minutos, elas fizeram o acordo", relatou o presidente Lula. "O tempo da política não é o tempo do técnico. Se passa a impressão que eles (os técnicos) defendem a empresa com mais amor que a gente (os presidentes) defende, como se nós tivéssemos mudado de empresa", reclamou.

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