Injeção de liquidez de ricos estimula inflação global

Ao usarem ferramentas para tentar neutralizar valorização das moedas, emergentes jogam mais lenha na fogueira inflacionária

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

Ao contrário de 2008, os países ricos enfrentam sérios problemas de baixo crescimento, desemprego e enormes déficits fiscais e dívidas públicas e privadas. A baixa velocidade dos ricos, no entanto, não se traduz totalmente em mais espaço para crescer sem inflação para os países emergentes por causa de um novo fator: a gigantesca liquidez no mercado global, provocada pela política econômica superexpansiva das nações desenvolvidas.

"A criação de liquidez excessiva é um dos fatores que estão puxando a inflação, embora não seja o único", observa Mohamed El-Erian, principal executivo do Pimco, o maior fundo de renda fixa do mundo, com ativos de US$ 1,2 trilhão. El-Erian, que respondeu por e-mail perguntas do Estado, nota que, dentre os ricos, o principal responsável por criar liquidez são os EUA, com seus programas de estímulo fiscal e de injeção monetária de US$ 600 bilhões.

Para Paulo Nogueira Batista Jr., diretor executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI), os sinais até agora de melhora na economia americana não demoverão o Fed (o banco central americano) de suas políticas expansionistas. Falando em nome pessoal, ele vê total falta de sincronia nas políticas econômicas dos principais países, que deve manter o forte fluxo de capitais dos ricos para os emergentes.

A sua visão coincide com a de El-Erian, para quem as economias emergentes estão numa situação difícil, lidando com a pressão inflacionária das commodities e a entrada de capitais que valoriza suas moedas. "Existe hoje uma clara falta de coordenação de políticas econômicas na economia global, e até uma falta de concordância nas análises da situação."

José Márcio Camargo, economista da gestora de recursos Opus e professor da PUC Rio, nota que os emergentes relutam em se antecipar às pressões inflacionárias com altas mais drásticas dos juros. Além disso, esses países tentam, por meio de maciça compra de dólares e de medidas restritivas à entrada de capitais, evitar a valorização mais forte das suas moedas, para não piorar suas balanças comerciais e combater a desindustrialização.

O problema, porém, é que a valorização do câmbio é um fator anti-inflacionário, porque barateia os importados. Ao tentar neutralizar a apreciação, os emergentes jogam ainda mais lenha na fogueira inflacionária.

Segundo cálculos do Santander, um aumento de 10% das commodities, medido pelo índice CRB, tende a provocar uma valorização de 6% do real ante o dólar. Assim, diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander, "se o Brasil tiver êxito em evitar a valorização do real, a gente perde esse amortecedor da pressão inflacionária".

Expansão americana. Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações e sócio-fundador da Quest Investimentos, se diz convencido de que a economia americana caminha para um novo período de crescimento, mesmo que em ritmo inferior ao de 2007. O problema, para ele, é que essa retomada se dará com um crescimento bem mais forte no mundo emergente, e mais voltado à demanda interna. "Parece que vamos entrar novamente numa fase de escassez de matérias-primas e de inflação de demanda."

Octavio de Barros, do Bradesco, faz um contraponto, mostrando que o mundo como um todo (e mesmo os emergentes sozinhos), ainda está, em diversas medidas, como desemprego, inflação e o chamado "hiato do produto" (a diferença entre a oferta e a demanda), em um ritmo muito distante do de 2008.

O crescimento de países pobres como China e Índia, porém, puxa muito mais o preço de commodities agrícolas, porque as pessoas se alimentam mais e há mais infraestrutura a se construir. Assim, projeções do Bradesco indicam que o preço médio de commodities como soja, milho, café, açúcar, algodão e cobre serão mais altos em 2011 do que em qualquer outro momento da década, incluindo o pico de muitas delas, em 2007 e 2008. Outro fator de alta, segundo Barros, são problemas de oferta, ligados a fenômenos climáticos.

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