Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Com inflação em queda, reajuste do salário mínimo ficará abaixo do previsto

Segundo economista, contudo, resultado traz alívio em termos das despesas dos Estados e dos municípios

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2017 | 15h18

O economista Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP), diz que o resultado do IPCA de agosto, de 0,19%, – bem abaixo da expectativa do último Boletim Focus, do Banco Central, de 0,39%–  surpreendeu. Mas ele destaca os resultados muito baixos atingidos pelo INPC, o índice que mede a inflação das famílias mais pobres, com renda entre um e cinco salários mínimos. O INPC teve deflação de 0,03% em agosto e, em 12 meses, acumulou alta de 1,27%, a menor marca da série desde 1994.

Como o INPC é o indicador que serve de referência para reajustar os salários, inclusive o mínimo, esse resultado indica que os reajustes salariais deverão ficar bem abaixo do previsto, observa o economista. “Isso dará um alívio até em termos das despesas dos Estados e dos municípios”, ressalta. Para este ano, Heron espera um IPCA  em torno de 2,5%, bem abaixo do piso da meta (3%). Isso  deve chancelar, na sua opinião, o corte de juros em um ponto porcentual hoje e também na  próxima reunião do BC. Com isso, a taxa básica de juros, a Selic, deve fechar o ano em 7,25%. A seguir os principais trechos da entrevista.

O resultado do IPCA surpreendeu?

Sim, se pegarmos as estimativas de inflação em 12 meses desde a década de 1940, 2,46% até agosto  é uma das menores taxas da inflação brasileira, exceto o período do final de 1998, quando tivermos taxas menores em 12 meses. Mas destaco o INPC, que mede a inflação para as famílias mais pobres. Em agosto o INPC teve deflação de 0,03%  e acumula alta de 1,73% em 12 meses. É o menor resultado da série em 12 meses desde 1994. Também deve ser o menor taxa de inflação em 12 meses medida pelo INPC desde o início dos anos 1940. Antes 1979, quando o INPC começou a ser apurado,  havia outros indicadores calculados pelo Ministério do Trabalho, Fipe, FGV.

Qual o impacto de um INPC muito baixo?

O INPC é o índice que serve para reajustar salários, inclusive o mínimo. Isso significa que os reajustes do salário mínimo vão ficar bem abaixo do previsto. É claro que pode haver uma recuperação do INPC mais para frente. Muito provavelmente, como o INPC serve de referência para salário, ele dará um alívio para as despesas dos Estados, dos municípios e  para o setor de serviços. O índice serve para ancorar a inflação porque os dissídios normalmente são baseados no INPC.

O que garantiu uma inflação tão baixa em agosto?

Tivemos o reajuste de combustível e o reajuste de energia elétrica e, mesmo assim, o índice foi baixo por causa da alimentação. A carne veio com queda contrariando a sazonalidade. Os alimentos ajudaram por causa do clima favorável e pelo fato de que nos anos anteriores ter havido aumentos significativos nos preços. Agora os alimentos estão devolvendo parte do ganho lá atrás.

A contribuição favorável da alimentação deve se manter nos próximos meses?

Depende. O mais provável é que a alimentação deixe de contribuir favoravelmente, principalmente no último trimestre. O IPCA deve ficar em torno de 2,5% no fechamento do ano.

Qual é a implicação de ter hoje uma inflação abaixo do piso da meta, que é de  3%?

Isso facilita a queda dos juros, que devem cair um um ponto porcentual hoje mais um ponto na próxima reunião do Copom.

+ 'Inflação baixa dá maior flexibilidade ao BC', diz Meirelles

Os juros devem fechar o ano em quanto?

Em 7,25%.

O sr. vê algum risco inflacionário?

Não, coisa mais séria não. Pode ocorrer algo pontual. Os alimentos sempre sobem e descem. O câmbio está controlado. Também os salários estão contidos por causa da recessão. E a taxa de juros em termos reais está muito alta ainda, apesar da queda da Selic.

Quanto desse resultado favorável da inflação é por conta da  recessão?

O que preocupava antes é que havia uma recessão tão forte com uma inflação muito alta. Hoje já temos o efeito da recessão desinflando a inflação e com liberdade de preços. Estamos com uma economia mais organizada do que nós tínhamos. A inflação tem tudo para continuar baixa, inferior a 4%.

Quanto o sr. espera de inflação para 2018?

O normal seria baixo de 4%.

Mesmo num ano eleitoral?

Esse governo não está pleiteando reeleição. Normalmente o efeito inflacionário ocorre em ano eleitoral quando o governo aumenta o gasto público para ajudar na eleição. Claro, risco político sempre tem. Mas o cenário mais provável é que a inflação suba no próximo ano relativamente a esse, mas  pouco  e por conta de não ter mais o benefício da queda de preço de alimento. Uma inflação de 4% é perfeitamente aceitável para o Brasil. Tudo indica que a atividade ganhará força. Isso melhora o emprego, que tem um impacto político, junto com a inflação. Com a atividade econômica ganhando força haverá reflexos importantes  sobre a situação fiscal. Estamos entrando num processo virtuoso: um resultado positivo aumenta a probabilidade de outro dado positivo em outra área. Mas mesmo que a economia cresça 0,5% este ano e 3% o ano que vem, provavelmente só compensaríamos uma pequena parte da recessão, porque a queda que houve no PIB nos  últimos anos foi muito forte.

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