Inquérito da PF mostra como Schincariol burlava o Fisco

A Schincariol recebia, de quinze em quinze dias, cerca de R$ 500 mil de Otacílio de Araújo Costa, dono da distribuidora de bebidas Dismar, acusada de participar do esquema de sonegação de impostos identificado pela Operação Cevada, da Polícia Federal (PF). A informação consta no inquérito policial sobre o caso, que aponta uma "gigantesca organização criminosa" bem estruturada, onde as distribuidoras Dismar e Disbetil fazem o "trabalho sujo", deixando a Schincariol fora da mira da fiscalização. O inquérito, de 1,6 mil páginas, é fundamentado por escutas telefônicas, troca de mensagens por celular e e-mails e filmagens de instalações de placas frias em caminhões que prestavam serviço às empresas. A 1ª Turma Especializada do Tribunal de Justiça do Rio não apreciou ontem, como se esperava, pedidos de habeas-corpus para alguns dos 70 presos na operação. O pedido de prisão temporária foi feito pela Justiça para evitar que os envolvidos usem seu poder econômico para criar obstáculos à ação da polícia.Segundo as investigações, a Dismar controlava a distribuição de produtos da Schincariol nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A PF chegou a apreender com seu dono, Otacílio de Araújo Costa, um malote contendo R$ 500 mil que seria levado para a sede da cervejaria, em Itu (SP). Costa mora em Belo Horizonte e tem avião particular que era usado para fazer a entrega do dinheiro. Foi acompanhado de perto por agentes da PF durante dias.A distribuição nas regiões Norte e Nordeste era feita pela Disbetil, empresa de Marinaldo Rosendo de Albuquerque. Contra ela, há provas de suborno de uma auditora da Receita Federal. Segundo uma gravação telefônica, o diretor da empresa Sandro Luis Guedes combinava a entrega de propina à auditora Marta Gomes Benchimol, da Receita Estadual. De acordo com a polícia, a quantia entregue chegava a R$ 50 mil e outro tanto seria pago depois, como "complemento".Disbel e Disbetil blindavam a Schincariol, pedindo liminares na Justiça contra o recolhimento de impostos. Eram as duas empresas que repassavam produtos a preço menores, já que sem impostos, para outros distribuidores, e depois retornavam a diferença à cervejaria. "A Schincariol possui interesse que algumas distribuidoras consigam liminares de isenção de IPI/ICMS, uma vez que elas comprarão os produtos mais baratos e, conseqüentemente, comprarão mais", diz o texto do inquérito, completando que os parceiros da cervejaria, muitas vezes, criavam empresas fantasmas para obter as liminares. Num dos casos citados no inquérito, a sede de uma distribuidora de bebidas com grande movimento no Estado de Sergipe estava localizada em uma pequena casa, insuficiente para receber caminhões carregados de produtos. A interceptação de ligações telefônicas mostra um funcionário da Schincariol, no Rio, pedindo a compra de um novo imóvel, para não atrair suspeitas.A Operação Cevada - que recebeu primeiro o nome de Operação Nova, em alusão à campanha publicitária da Nova Schin - teve como base uma investigação da Receita Federal do início da década, chamada Pista Livre. A operação começou com a apreensão, em 2001, de dois caminhões da transportadora Big Stok, carregados de produtos da Schincariol, mas com notas fiscais irregulares. Nenhuma das notas tinha data de entrada e saída das fábricas da empresa, o que facilitava o uso do mesmo documento diversas vezes. Depois, a receita descobriu que o principal cliente da cervejaria em Tocantins, a Mas Import, só tinha um funcionário e não funcionava na prática. Em outubro de 2002, foram vendidas 6,4 milhões de latas de cerveja para a empresa, o equivalente a 145 latas para cada habitante adulto de Porto Nacional, onde a Mas Import supostamente atuaria.

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