Mark McQueen/Goldman Sachs
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Inquietação com solvência fiscal no Brasil mina o crescimento, diz economista

Para Alberto Ramos, o governo Bolsonaro precisa fazer as reformas andarem, para ajudar a acalmar a inquietação do mercado sobre a dívida pública e o teto de gastos

Entrevista com

Alberto Ramos, economista-chefe do Goldman Sachs para América Latina

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 11h00

O governo Bolsonaro precisa começar a pagar as promessas de reformas que fez para resolver a inquietação em torno da solvência fiscal do Brasil, que mina as perspectivas de crescimento, na avaliação do economista-chefe do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos. Falta senso de urgência, segundo ele, nos três poderes, o que tem estressado os mercados num cenário em que o risco de um downgrade (queda) do rating (avaliação) do País aumentou.

"Os riscos estão maiores porque os rastros de endividamento público pioraram bastante e se as reformas não avançam, começam a aparecer dúvidas quanto à solvência fiscal de médio e longo prazo", diz o economista do Goldman, baseado em Nova York, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.

Ramos vê a retomada da economia brasileira em "V", mas alerta que não há um "festival de crescimento". O gasto fiscal feito em meio à covid-19 induziu alguma expansão, mas a recuperação, de acordo com ele, não deve se sustentar adiante sem essa muleta. Para o economista do Goldman, a atividade deve encolher entre 5,0% e 4,5% neste ano e retoma em 2021, mas ainda pode ficar no negativo no primeiro trimestre do próximo ano. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

A recuperação da economia brasileira tem sido sustentada por estímulos fiscais. Em seu cenário-base, como fica a economia daqui para frente?

Não há dúvida de que, na fase inicial, há uma recuperação em 'V' no Brasil. Isso reflete duas coisas, primeiro, a caída que precedeu essa retomada. Se você tiver uma bola na mão e deixá-la cair da altura da cintura, ela vai dar um repique pequeno, mas se for do 10º andar, acumula muita energia na descida e o repique é bem maior. Não significa que é um festival de crescimento. Outro fator é o gasto fiscal, de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), que comprou algum crescimento, o que levanta a questão se essa retomada se sustenta sem essa muleta.

Qual é a sua opinião?

Nesse ritmo, não, não se sustenta por várias razões. Primeiro, estamos falando de um repique inicial depois de bater no fundo. Por outro lado, tivemos um trampolim fiscal que elevou o repique. Chega um ponto que essa energia acaba e os números começam a ser mais moderados. O que a gente sabe sobre a trajetória da economia brasileira nos últimos anos é que é de baixo crescimento, baixo investimento e baixa produtividade. Essa realidade me parece que não mudou. Vai chegar um ponto em que vai convergir para a realidade de crescimento do País, que é relativamente baixo. Do ponto de vista fiscal, a gente não faz o que quer, mas o que pode.

O que o Brasil pode fazer do lado fiscal?

Do ponto de vista fiscal, infelizmente, a gente não pode muito porque já tínhamos uma situação bastante frágil. Com o esforço fiscal feito durante a pandemia, por razões óbvias, a situação ficou ainda mais frágil. É por isso que o mercado está estressado, tentando saber se o teto [de gastos] se sustenta ou não e como se financia o Renda Brasil.

A escalada de casos de covid-19 na Europa e nos Estados Unidos tem aumentado o temor de uma segunda recessão nessas economias. Qual pode ser o impacto no Brasil?

Claramente, o risco aumentou. Não sei se seria uma recessão ou uma moderação mais rápida da retomada. Essa é uma grande fonte de incerteza. Com os casos aumentando a nível global, as pessoas ficam mais defensivas. Alguns dados dos EUA já mostram que a recuperação perdeu algum fôlego à medida que aumentou o número de casos virais. É natural que isso aconteça. Se vai levar à uma recessão não é o nosso cenário-base, mas, claramente, é uma fonte de preocupação que leva à ruptura voluntária da mobilidade e que impacta a atividade.

O governo Bolsonaro prometeu várias reformas, mas ainda não entregou. Dá tempo de fazer algo ainda em 2020?

Tempo dá, só que o trabalho do Legislativo tem sido extremamente lento nos últimos anos. Se aprovou pouca coisa numa enormidade de tempo. Seria importante que a classe política, o Legislativo e o Executivo tivessem senso de urgência e acelerassem um pouco essas reformas. Está na hora de pagar a promessa [das reformas]. Isso seria importantíssimo para ajudar a economia.

Por quê?

Primeiro, porque a situação fiscal do Brasil era muito frágil antes da pandemia. Essa agenda de reformas precede a pandemia. Já se sabia que eram necessárias todas essas reformas para aprofundar o ajuste fiscal para que o Brasil começasse a ter superávits primários para que a dívida entrasse numa trajetória descendente. A pandemia forçou a validação de uma expansão significativa do gasto. Foi um choque. O Brasil fez uma expansão fiscal bem significativa para um país que não tinha espaço. É o mesmo que dizer que não tinha poupança e ainda gastou mais.

Qual a situação do Brasil frente aos países emergentes?

É uma realidade completamente diferente de outros países como Chile e Peru, que tinham uma situação mais saneada, com um colchão fiscal para expandir os gastos. O Brasil não tinha. Se era frágil antes, mais frágil ficou. Essa urgência de aprovar as reformas se tornou mais premente. É importante [o governo] dar um sinal ao mercado de que no curto prazo estão aprovando reformas que pagam algum dividendo fiscal a médio e longo prazo. O governo tem de entregar, tem de pagar a promessa. Se fizer as reformas agora, apesar do impacto no curto prazo ser baixo, ajuda entregando um sinal positivo ao mercado. Basicamente, torna as condições financeiras domésticas menos restritivas e vai alentar as decisões de consumo e investimento, o que dá um estímulo extra à retomada.

Nesse cenário, quais são as principais preocupações externas para o Brasil?

O Brasil não é uma ilha. Está integrado à economia global. As preocupações são o crescimento da economia mundial, se essa retomada vem e se consolida, porque aumenta a demanda por exportações do Brasil, que está hoje em uma situação bastante vantajosa com a recuperação rápida da China, um parceiro comercial importante. O risco é que esse impulso fique menos positivo e a própria dinâmica da covid-19 leve a uma desaceleração da economia global, o preço de commodities volte a cair e a China volte a desacelerar. Esse é um grande risco. O outro é um aumento da aversão ao risco se o investidor começa a ficar preocupado com mercados emergentes porque todos têm muita dívida e passa a tirar capital dessas regiões. No Brasil, como estruturalmente tem uma taxa de poupança doméstica muito baixa, essa saída de capital impacta o investimento e pode ser desestabilizadora do câmbio.

Como o senhor avalia a situação fiscal do Brasil frente aos emergentes?

O Brasil já tinha um problema sério. Crescia bem menos que os países emergentes em média e tinha uma situação fiscal bem mais frágil que a média. O Brasil já estava no topo das preocupações e continua aí. Agora, ficou com um nível de endividamento que ainda é bem maior do que qualquer outro país emergente. A economia teve uma retomada bastante forte no curto prazo, mas a questão, agora, é se isso se mantém, provavelmente não, e é natural que não se mantenha. O Brasil vai ter de, em algum momento, retirar esse estímulo fiscal porque o País tem de caminhar para a consolidação fiscal.

O senhor vê riscos maiores de downgrade para o rating do Brasil diante da inquietação com a solvência fiscal?

Sim. Os riscos de um downgrade do rating do Brasil estão maiores porque os rastros de endividamento público pioraram bastante e se as reformas não avançam, começam a aparecer dúvidas quanto à solvência fiscal de médio e longo prazo. Essa inquietação com a solvência fiscal mina o crescimento porque leva os juros de longo prazo a taxas mais altas e os indicadores de confiança se deterioram. Quanto você mais gasta, você acha que está estimulando a economia, mas o mercado fica mais nervoso porque você não vai conseguir pagar a conta. Basta ver o que aconteceu nos anos da ex-presidente Dilma Rousseff.

A situação fiscal e os graves problemas ambientais têm manchado a visão de estrangeiros perante o Brasil - o que se reverbera na atração de investimentos para o País. Quais os riscos e como mudar esse quadro?

Que dá para mudar dá. Não é uma situação irreversível. É um assunto que ganhou relevância na agenda internacional. O Brasil tem sido bastante pressionado por investidores e governos estrangeiros em adotar uma política ambiental mais alinhada com os incentivos globais. Isso pode estar afetando algumas decisões de investimento. É um crescente foco para o investidor internacional e nas decisões diplomáticas do Brasil com o resto do mundo.

O investidor externo está mais cético com o Brasil do que em crises passadas?

Do ponto de vista ambiental, sim. Nos últimos dez anos, a pressão sobre o Brasil talvez seja maior. A maneira como o investidor olha a economia não. Ele se preocupou mais com todo o desarranjo econômico no finalzinho do primeiro mandato da presidente Dilma até o impeachment. O investidor estrangeiro vê hoje a direção da política macroeconômica com melhor olhos, mas com certo desencanto porque, claramente, o governo tem uma agenda bem reformista, de reduzir o peso do Estado na economia, só que tem entregado pouco. Não é uma crítica direta ao governo, é uma responsabilidade compartilhada entre o Legislativo e o Executivo. O final é que o bolo não sai do forno, as reformas estão acontecendo meio devagar e o mercado está ficando impaciente.

Como o resultado das eleições nos EUA pode atingir o País?

Se Joe Biden ganhar a eleição e o partido democrata controlar também o Senado, o que esperamos é um forte estímulo fiscal no curto prazo. Isso vai beneficiar mais países como México e da América Central do que o Brasil porque os laços comerciais são bem mais fortes. Eu diria que em uma administração de Joe Biden talvez haja uma pressão maior dos EUA em relação ao Brasil sobre temas ambientais. Talvez os EUA voltem ao Acordo de Paris e se juntem a outros países da comunidade internacional e coloquem pressão no Brasil para mostrar mais resultados do ponto de vista ambiental. Outra coisa é que alguma afinidade ideológica e política que existe entre o governo Bolsonaro e Trump vai desaparecer. Não necessariamente por causa disso os EUA vão adotar uma postura antagônica em relação ao Brasil. Um acordo de livre comércio entre os dois países, com uma administração democrata, é pouco provável que aconteça pelo menos no curto prazo.

Como o acordo fechado entre Brasil e os EUA pode beneficiar o País?

Eu sou pessoalmente convicto de que comércio livre é uma máquina de crescimento. Quanto mais o Brasil se integrar na economia global, seja com os EUA ou com o resto do mundo, quanto mais intensificar esses canais de comércio, traz mais crescimento, oportunidades, emprego, renda, tecnologia e investimento. Qualquer iniciativa no sentido de liberalizar o comércio e se integrar mais ao mundo é positiva. Vejo com bons olhos e ainda que não seja um acordo de livre comércio, mas de facilitação, que é um pouco mais limitado. Qualquer passo nessa direção, por menor que seja, é muito bem-vindo.

Reino Unido e União Europeia não chegaram em um acordo em torno do Brexit. Como isso afeta o Brasil? Pode reverberar no acordo Mercosul-UE?

Pois é, pode. Brigar nunca é bom. Mas, dado os problemas que o Brasil enfrenta, acho que isso não está no 'top five'. É importante que haja um acordo, que proteja um pouco o crescimento dentro da União Europeia com o Reino Unido, mas é uma coisa secundária a não ser que seja uma briga que derrube o crescimento na Europa, que não é o que se espera. O acordo entre a comunidade europeia e o Mercosul está patinando. A própria Argentina está tirando o corpo fora. Há vários elementos que não militam no sentido de que esse acordo se materialize no curto prazo.

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