Inquietação na Grã-Bretanha

Os maus ventos que sopram sobre a Europa provocam incêndios num país, depois em outro. No geral, são os países mais ao sul - Grécia, Espanha e Portugal -, que sofrem. Assim, todos os outros membros da União Europeia se precipitaram, lançando alguns baldes de água no incêndio e têm conseguido apagar o fogo, mas por quanto tempo? É o que ocorre, novamente, com a Grécia.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2011 | 00h00

E os países do norte? Estão ao abrigo dessa doença que fragiliza o sul da Europa? Eles, estão menos ameaçados, com certeza, mas não fora de perigo. Por exemplo, enquanto o mundo inteiro teme que a Grécia possa explodir e destroçar o sonho europeu, percebemos que a Grã-Bretanha, a poderosa, exemplar Grã-Bretanha, entrou também numa zona de turbulência.

O sintoma? Como na Grécia ou em Portugal, trata-se do drástico programa de austeridade que o primeiro ministro David Cameron impôs aos seus cidadãos. Dois capítulos desse programa deixaram os ingleses irritados: o aumento da idade de aposentadoria, de 60 para 66 anos e, de outro lado, o projeto de aumentar a contribuição dos funcionários para seus sistemas de previdência.

Entre os funcionários públicos, indignação, ameaças. David Prentis, secretário-geral da Unison, o maior sindicato do funcionalismo, vociferou: "nós nos preparamos para o pior". E o pior é a greve geral, capaz de petrificar o país.

É muito raro a Grã-Bretanha recorrer a essa "arma de destruição em massa". Houve uma greve geral em 1926, dos mineiros. Mas o governo conservador não cedeu e a greve fracassou. Uma nova paralisação ocorreu em 1974, contra Margaret Thatcher. Mas Thatcher era uma "dama de ferro". Não se abalou. E novamente a greve foi vencida. Mas quando os ingleses em cólera são lembrados dos dois fiascos, eles não vacilam. "Nós derrotaremos o governo", afirmam tranquilamente.

Organizar uma greve geral é um trabalho longo pois, por lei, os sindicatos são obrigados a consultar todos os seus membros, o que leva várias semanas. Portanto, por exemplo, o sindicato dos funcionários públicos, com 1,2 milhão de membros, não estará em ordem antes de algumas semanas. Enquanto isso, vamos ter direito, como "aperitivo", a algumas manifestações a título de aviso ao governo. Assim, em 30 de junho, os professores devem fazer uma paralisação. E se isso não for suficiente para o governo voltar atrás, então, no outono o risco de uma greve geral será enorme.

No caso de um "braço de ferro", David Cameron conseguirá encarar o desafio? Seu poder é frágil. Ele fez uma aliança do seu Partido Conservador com os liberais democratas de Nick Clegg, mas é uma aliança de circunstância. Numa primeira grande tempestade, os liberais democratas podem deixar o governo.

Por isso Cameron prefere sempre a negociação à prova de força. Prefere recuar em vez de enfrentar o perigo. Recentemente, renunciou à parte mais controvertida da sua reforma da saúde pública. E também aceitou rever seu plano de reforma do judiciário britânico. Portanto, não é seguro que, se as ameaças de greve geral se concretizarem, ele manterá sua intransigência.

Com certeza o drama da Grã-Bretanha é bem menos trágico do que o da Grécia. Mas os ingredientes da crise grega e da crise inglesa são os mesmos: as contas catastróficas do país exigem uma austeridade quase insuportável. Mas a população já está cansada de ver sua renda e seu nível de vida desabarem./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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