Instabilidade global deve continuar de pé em 2012

Ameaças políticas e econômicas podem ser ainda mais intensas no próximo ano

PETER APPS , REUTERS / LONDRES , O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h08

Os antigos maias conferiram uma importância especial ao ano de 2012, que para eles seria o possível fim dos tempos. O que tem levado à uma busca desenfreada de literatura apocalíptica nesta temporada de festas de fim de ano.

Mas não é preciso achar que o mundo está chegando ao fim para entender que o próximo ano deve abranger talvez os maiores riscos políticos para a economia global nunca vistos na história recente.

Com eleições e mudanças de liderança nos países mais poderosos, a Europa em crise, a ebulição no Oriente Médio e as dificuldades econômicas se agravando, provocando distúrbios e descontentamento por todo o lado, 2012 poderá ser um ano tão volátil como 2011, talvez pior.

Mas este ano ainda pode trazer algumas más surpresas, uma vez que as preocupações com o euro e a inquietação sobre um possível ataque israelense contra o Irã devem, provavelmente, manter os mercados financeiros e as autoridades políticas em suspense até a chegada do próximo ano.

Mais de três anos depois de o colapso do Lehman Brothers levar à maior crise financeira desde a Grande Depressão, as incertezas econômicas estão provocando uma agitação política que pode se tornar um círculo vicioso particularmente negativo.

Os estresses econômicos - desde o aumento dos preços dos alimentos até as dificuldades econômicas se agravando no mundo desenvolvido - estão no centro de muitos dos fatos políticos de 2011. À medida que se intensificam, a volatilidade política, a paralisação da atividade, os confrontos e conflitos - domésticos ou internacionais - deverão piorar.

"Tudo vai piorar e não melhorar", disse Jonathan Wood, analista de assuntos globais na consultora Control Risks com sede em Londres. "Se examinar o que vem provocando os acontecimentos este ano, vai verificar que nenhum dos fatores deve desaparecer e muitas das causas propulsoras da crise ainda estão crescendo."

As eleições presidenciais nos Estados Unidos, França e Rússia e a transição de poder na cúpula do Partido Comunista chinês aumentam as incertezas. Será mais difícil para os líderes políticos conseguirem compromissos ou adotar medidas políticas mais difíceis.

Obstáculos cada vez maiores? Muitos analistas alertam que todos esses fatos aumentam o risco de uma paralisação política no momento em que o mundo mais necessita de lideranças. O fracasso da "supercomissão" do Congresso dos Estados Unidos em não chegar a um acordo quanto à redução do déficit de orçamento é um sinal do que pode ocorrer futuramente em outros países.

O presidente Barack Obama enfrentará uma disputa muito dura em busca da reeleição, seja qual for o candidato escolhido pelos republicanos, isso por causa da economia morosa, uma taxa de desemprego de 8,6% e os apertos que a classe média vem sofrendo com a queda dos preços dos imóveis e das ações.

Sem liderança. Um consenso global frágil forjado durante a cúpula do G-20 em 2009 pode desaparecer para sempre, substituído pelo que Iam Bremmer, presidente da consultora de riscos políticos Eurasia Group, chama de um mundo "G-0", sem liderança.

Para muitos analistas, no topo da lista dos riscos em 2012 está a não solucionada crise da dívida soberana na zona do euro.

Se o objetivo é que a moeda única adotada pelas 17 nações europeias sobreviva no seu formato atual, seus membros terão de fazer ajustes econômicos duros e uma reforma política colossal. A reunião de cúpula da semana passada em Bruxelas, a 16.ª desde o início da crise há dois anos, foi qualificada como a cúpula da última chance para salvar o euro.

Embora os líderes da zona do euro e alguns Estados não membros tenham concordado com uma união fiscal, com uma disciplina orçamentária mais rigorosa, o resultado não garante a sobrevivência do euro.

No pior dos casos, 2012 ainda poderá ser palco de um colapso desordenado que poderá levar a calotes, corridas a bancos e distúrbios sociais, sem falar num choque econômico global brutal pior do que em 2008.

No final, contudo, muitos acreditam que o euro sobreviverá - embora não sem tensões colossais, à medida que se procura conciliar economias muito distintas, como Alemanha e Grécia.

"O maior risco é obviamente a zona do euro, mas também poderá ser o risco mais rápido a ser eliminado", diz Alastair Newton, antigo membro do governo britânico que chefia o departamento de análises políticas no banco japonês Nomura.

"Mas, mesmo que isso ocorra, vamos observar um crescimento lento e o aumento dos distúrbios sociais nos países ao sul da zona do euro e por toda a Europa no geral. Mesmo no melhor dos casos, 2012 parece que será um ano bastante tempestuoso."

Para outros, o Oriente Médio continua a mais importante região a ser observada em termos de transtornos potenciais para a economia global.

Quase um anos após o início da Primavera Árabe, a região continua mergulhada na incerteza política, com partidos islâmicos chegando em todo o norte da África e as revoltas na Síria caminhando para uma guerra civil declarada.

Conflitos e agitação. Depois da queda de alguns governantes árabes há muito tempo no poder graças ao respaldo do Ocidente, a retirada das forças americanas do Iraque é considerada o mais recente sinal da redução da influência das potências ocidentais em uma região por elas dominada durante cerca de 200 anos.

No vácuo resultante, potências regionais, como a Turquia, a Arábia Saudita e o Irã, isolado e talvez mais imprevisível, aparentemente se encontram num confronto cada vez mais aberto.

As estimativas dos serviços secretos ocidentais de que o Irã estaria mais perto da construção de uma bomba nuclear viável preveem um prazo mais curto, e alguns analistas afirmam que 2012 poderá ser o ano em que os inimigos de Teerã decidirão ir além da sabotagem, lançando um ataque militar que poderá desencadear retaliações contra o fornecimento de petróleo no Golfo.

"A maior incógnita na região é um ataque israelense às instalações nucleares do Irã e a elementos que controlam o regime", afirma Thomas Barnett, principal estrategista da empresa de consultoria de risco político Wikistrat, acrescentando que nem a liderança israelense nem a iraniana parecem dispostas a ceder. "O clima aqui é terrível... alguma coisa terá de mudar nesta equação estratégica."

Mesmo que o mundo evite um choque devastador como uma guerra no Oriente Médio ou um colapso europeu, muitos analistas temem que o exercício da política e a adoção de medidas na área política se tornem cada vez mais difíceis no mundo todo.

Com a redução do ritmo da expansão econômica e o aumento do desemprego, a maioria dos analistas acredita que os riscos de agitação social continuarão crescendo em grande parte do mundo desenvolvido e em desenvolvimento.

"Temos aí todos os problemas previsíveis num ambiente de dificuldades econômicas. Em algum momento, teremos de elevar os preços dos alimentos, o que é sempre uma medida desestabilizadora. E temos uma outra questão: um possível superaquecimento da China", diz Elizabeth Stephens, diretora de risco político e de crédito da corretora de seguro de Londres, Jardine Lloyd Thompson.

"Até mesmo uma queda de 1 ou 2 pontos porcentuais do Produto Interno Bruto (PIB) na China poderia ser suficiente para realmente questionar a estabilidade social se não conseguir continuar criando empregos... Nós (também) temos agitação na Europa, e a atual transição no Oriente Médio e na África do Norte poderá se revelar bastante instável."

Nos últimos dias deste ano, outros pressupostos em matéria de estabilidade considerados irrefutáveis até o momento estão sendo contestados - principalmente com a crescente onda de protestos contra Vladimir Putin, da Rússia. Muitos acreditam que a única certeza para 2012 é novamente o inesperado.

"2011 foi um ano de pesadelo para os responsáveis pelas decisões mais importantes ou para os gerentes de carteiras de investimentos, mas foi um ano fantástico para os analistas políticos", diz Newton. "Prevejo o mesmo para o próximo ano." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO E ANNA CAPOVILLA

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