Instalação de aerogeradores traz renda extra

Desde que os parques eólicos começaram a ser erguidos na região de Caetité, Guanambi e Igaporã, no sudoeste da Bahia, Leôncio Borges Carvalho, de 58 anos, virou o "partidão" do bairro Santana. Dono de 466 hectares de terra, ele arrendou parte da propriedade para a instalação de 11 aerogeradores da Renova Energia. O contrato vai lhe render mensalmente R$ 4,6 mil durante os próximos 20 anos. Se tudo der certo, a renda será ampliada com a assinatura de um novo contrato para seis torres. "Sempre gostei do vento, que por essas bandas é forte. Agora gosto mais ainda."

O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h05

Como ele, outros 301 proprietários aumentaram a renda com o aluguel das terras para a construção dos parques eólicos da Renova Energia. Foram desembolsados até o momento R$ 3,54 milhões a título de arrendamento no complexo eólico Alto Sertão I. Outros 144 moradores já firmaram contrato com a empresa para a construção dos 15 novos parques. O dinheiro vai direto para as mãos dos sertanejos, que vivem momento de bonança, apesar da pior seca dos últimos 30 anos.

A renda tem destino variado. Leôncio usou o primeiro pagamento para quitar uma dívida bancária feita no passado para construir silos, caixa d'água e outras melhorias. Depois decidiu reformar a casa, erguida há mais 50 anos. Pintou as paredes e trocou o piso. Não tem geladeira nem televisão em casa. Depois de um dia pesado na roça, ele gosta mesmo é de ficar sentado na sala - que só tem uma mesa e algumas cadeiras - descansando. O próximo sonho de Leôncio é comprar um imóvel na cidade. "De preferência, em Guanambi, que é mais agitada", diz ele, que é solteiro e mora sozinho.

Deixar a vida dura da roça também faz parte dos planos de Osvaldino Fernandes de Souza, de 69 anos. "Nasci e cresci aqui. Mas, para as crianças, a cidade é melhor", diz ele, que vive no bairro Capão, ao lado da mulher Edilça da Silva Souza, de 34 anos, e três filhos. A família tem dois aerogeradores em suas terras. Cada um rende quase R$ 500. Parte do dinheiro vai para a poupança. O resto é usado para comprar alguns presentinhos para as crianças.

Como Leôncio, o sertanejo não tem o sonho de equipar a casa com modernidades da cidade. Na cozinha não há geladeira. Na sala, só algumas cadeiras e um monte de sacos com ração para o gado - a grande paixão de Souza. No quintal de terra batida, muitos porcos, galinhas e palma para alimentar o gado. "Televisão pra quê? Acho muito ruim quando vou na casa de alguém e fica todo mundo virado para a TV e não presta atenção na gente. O povo não conversa", reclama ele.

O baiano Manoel Cirico Cotrim, de 80 anos, joga no time de Souza. Ele tem televisão em casa, mas gosta mesmo é um bom bate-papo. Basta fazer qualquer pergunta sobre sua origem, para ele tirar inúmeras histórias do baú. Descendente de portugueses, ele ainda guarda as provas de sua passagem pelo Sudeste na juventude atrás de emprego. Uma caderneta de poupança da Caixa Econômica do Estado de São Paulo mostra o primeiro depósito, de agosto de 1954. Naquela época, lembra ele, o salário era pago diretamente nessa conta.

Casado há 50 anos com Elizia Andrade Cotrim, ele sempre morou em Morrinhos, distrito de Guanambi. No último ano, a paisagem de sua janela mudou radicalmente. Dali, ele avista os gigantes cataventos da Renova. Dois deles estão em sua terra. "Aqui em casa uma torre é minha e outra é dele", diz a esposa Elizia. "Se deixar, ele gasta tudo com ração pra gado."

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