Rodrigo Abd/AP
Rodrigo Abd/AP

Instituições admitem que falharam em lidar com globalização

FMI, OMC e economistas como Krugman reconhecem que não deram atenção devida aos perdedores do comércio internacional

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2017 | 15h35

GENEBRA – Diante da expansão de partidos populistas, de políticos contrários ao comércio e de um número cada vez maior de insatisfeitos com os destinos de suas vidas, instituições internacionais e economistas de referência admitem: falharam em lidar com as consequências da globalização, mesmo diante dos benefícios que ela gerou. 

Num debate inédito na Organização Mundial do Comércio (OMC), alguns dos principais líderes internacionais reconheceram que subestimaram o impacto que a abertura dos mercados teria, principalmente para aqueles que não teriam a capacidade de competir. Agora, para 2018, o G-20 vai colocar a questão do emprego e da educação como pontos centrais de sua agenda, justamente para tentar encontrar formulas para dar uma resposta a uma população impactada pelas aberturas comerciais dos últimos 20 anos. 

Nos últimos meses, foram eleitores de regiões e setores afetados pelo comércio internacional que garantiram a vitória de Donald Trump, do Brexit e do avanço da extrema-direita na França e Alemanha. Para as instituições, o que esses populistas oferecem são soluções equivocadas. Mas, ainda assim, admitem que aqueles excluídos do processo de globalização não foram devidamente ouvidos. E hoje protestam nas urnas. 

“Precisamos incluir os excluídos, melhorar os ajustes”, disse Christine Lagarde, diretora-geral do FMI. Para ela, o comércio é uma força para garantir o crescimento de economias. “Mas não podemos fazer isso cegamente”, afirmou. 

++ Mudança e desenvolvimento

Para ela, o comércio ajudou a tirar milhões da pobreza. Mas passou a ser visto como parte dos problemas para outros. “São aqueles que se sentem excluídos”, disse. “Houve um aumento da desigualdade dentro de alguns países”, admitiu. “Talvez tenhamos falhado em lidar com o que amplamente é chamado de globalização”, constatou.

Sua receita para lidar com esse desafio a partir de agora é investir em educação, além de políticas sociais para acomodar perdas de trabalhadores afetados. “Essas medidas teriam de ter sido tomadas domesticamente. Mas não foram”, lamentou. “Precisamos preparar as populações para a velocidade das transformações. Caso contrário, teremos trabalhadores que não conseguirão se ajustar às novas realidades”, disse. 

Os dados de uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center confirma a decepção com o comércio. “75% dos franceses nos dizem que estão perdendo seu estilo tradicional de vida, 74% na Alemanha e 73% nos EUA”, disse Bruce Strokes. “São pessoas que estão desconfortáveis com mudanças”, afirmou. Segundo ele, os dados das pesquisas revelam como, nos EUA, são os homens mais velhos e brancos o que mais resistem ao comércio. “Foram eles que mais perderam”, disse. 

Mas em países como Holanda ou Dinamarca, com amplo apoio social, o apoio ao comércio continua forte. 

Roberto Azevedo, diretor-geral da OMC, admite que “claramente temos problemas”. “Nem todos estamos prontos”, disse, numa referência ao fato de que as mudanças nas tecnologias forçam economias a preparar uma mão-de-obra capacitada. Em sua avaliação, a solução precisa ser doméstica. Mas ele acredita que não haverá uma força nesta direção enquanto as entidades internacionais não reagirem.  

“Não será fácil arrumar”, insistiu. “Teremos arranhões e temos de cuidar isso. Mas não podemos jogar o bebê com a água do banho pelo ralo”, disse, defendendo a necessidade de resguardar o sistema comercial. “O comércio é uma força para o desenvolvimento. Mas a questão é que você precisa estar pronto para essa mudança”, explicou. “O comércio pode ter um impacto ruim e por isso é que a educação é chave”, insistiu. “Quem perdeu o emprego não é o mesmo de quem vai ganhar com o comércio”, disse.

Para o brasileiro, “muitos se sentem desconectados dos benefícios do comércio internacional” e toda uma população teria sido subestimada.  

++ Desenvolvimento econômico

Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, também admite a falha e defende medidas sociais e de educação. “Não cuidamos de nossos cidadãos suficientemente. Fizemos o erro, as elites, de apenas falar das grandes coisas do comércio. Não é totalmente errado. Mas não foi incentivado a inclusão. Em principio, o comércio pode gerar benefícios. Mas com politicas e elas nunca foram implementadas”, alertou. 

Segundo ele, o consenso há 20 anos era de que os problemas de ajuste com a abertura comercial seriam “modestos”. “Não atualizamos nossa visão e hoje esse custo é significante”, disse. “Houve muito custo de transição com danos severos e isso perdemos”, admitiu, lembrando que havia um “otimismo exagerado” nos anos 90 com o impacto da abertura comercial.

Na sua avaliação, a comunidade internacional se focou no PIB, e pouco no que ocorre com as famílias. 

Tanto ele como Lagarde e Azevedo, porém, insistem que a solução não é a de “virar as costas para o comércio. “Voltar ao protecionismo seria gerar uma segunda onda de choques. Fizemos erros. Mas não devemos reverter o comércio”, completou. 

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