Instituições financeiras vão assumir perdas no acordo de ajuda à Grécia

Bancos, seguradoras e fundos de investimento vão bancar a redução de 37 bilhões na dívida; decisão foi uma derrota para o BCE

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2011 | 00h00

O grande quebra-cabeças da União Europeia e o pesadelo dos mercados financeiros foram, ao que parece, dirimidos. Por decisão "voluntária", bancos, seguradoras e fundos de investimentos atenderam ao chamado dos líderes políticos da zona do euro e vão aceitar perder dinheiro na reorganização das finanças da Grécia.

Segundo cálculos do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), os credores privados vão cortar ? 37 bilhões em dívidas e juros programados até 2014 e aceitar vender abaixo do valor até ? 12 bilhões em títulos soberanos sem seus poderes.

A equação, ainda de acordo com o IIF, pode elevar suas participações a ? 135 bilhões no horizonte de 2020. Ao todo, 30 instituições de todo o mundo, 23 da UE, três da Suíça, uma do Canadá, uma do Kuwait, uma da Coreia do Sul e uma do Peru - o Banco de Crédito do Peru -, participarão dos cortes da dívida.

Depois de intensas negociações sobre reestruturação, rolagem ou recompra dos títulos da dívida grega, a UE e as instituições financeiras acabaram fechando um acordo que inclui as três medidas. Cada investidor escolherá a que lhe parecer mais adequada. O plano tem tudo, menos a criação de um imposto sobre o sistema bancário, que chegou a ser cogitado, porém sempre em segundo plano.

O primeiro-ministro da Grécia, Georges Papandreou, mostrou-se satisfeito com as medidas. Na prática, a dívida grega - hoje de ? 350 bilhões - não apenas vai parar de aumentar, mas deve cair em ? 26 bilhões até 2014, o equivalente a 12% do PIB do país. "Isso permitirá à Grécia recuperar seu acesso aos mercados mais cedo que o previsto, tomando nós mesmos os empréstimos, o que hoje é impossível", disse Papandreou.

Derrota do BCE. O arsenal de medidas representa uma perda nas trincheiras do Banco Central Europeu (BCE), em especial de seu presidente, Jean-Claude Trichet, que será substituído em setembro pelo italiano Mario Draghi. Até ontem, o BCE insistia que a participação de investidores privados, combinada a um corte das dívidas, seria interpretada pelos mercados financeiros como um "evento de crédito", ou seja, um calote. Há três dias, Trichet chegou a afirmar: "Se um país cai em default, nós não poderemos mais aceitar seus bônus como garantias colaterais".

Ontem, após a cúpula, Trichet arrancou dos líderes políticas novas garantias, mudou de discurso e afirmou que o plano anunciado "provavelmente não conduzirá a um evento de crédito". Segundo Trichet, o default só ocorre quando os contratos de seguro contra o risco de falência - os Credit Default Swaps (CDS) - são acionados, o que, ele estima, não deve acontecer. "Caso necessário, teremos o compromisso dos chefes de Estado de recapitalizar os bancos gregos e teremos ? 35 bilhões para operações de refinanciamento", argumentou.

Resta agora aguardar a reação das agências de rating. Consultadas no fim da tarde de ontem pelo Estado, Standard & Poor"s, Moody"s e Fitch não aceitaram comentar as linhas gerais do acordo da UE, que, naquela altura, já eram conhecidas.

A Fitch, porém, foi mais transparente e afirmou que as hipóteses que seriam consideradas em um default seletivo já haviam sido indicadas. Todas as três agências informaram à reportagem que publicarão seus pareceres sobre o plano de socorro da Grécia anunciado pela UE "nos próximos dias". Até lá, permanecerá o suspense sobre se o pacote corresponde ou não a um default.

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