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Integrantes do Banco Mundial dizem estar 'chocados' com nomeação de Weintraub

Ex-ministro da Educação se demitiu nesta quinta do cargo e agora é cotado para ocupar cargo de diretor-executivo da instituição, onde pode receber até quatro vezes mais

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 20h22

BRASÍLIA – Integrantes e ex-integrantes do Banco Mundial ouvidos em caráter reservado pelo Estadão disseram estar “chocados” com a indicação do ministro demissionário da Educação, Abraham Weintraub, para diretor-executivo da instituição. Na avaliação de fontes ouvidas pela reportagem, ao colocar no cargo uma pessoa que já deu declarações contrárias ao multilateralismo, o Brasil pode virar “piada internacional”.

Ao menos em termos financeiros, a troca de cargo significa um salto para o ex-ministro. De acordo com documento do Banco Mundial, a remuneração dos diretores-executivos do órgão foi de US$ 21.547 mensais, o que equivale a cerca de R$ 115, 9 mil por mês. Como ministro, seu salário era de R$ 31 mil mensais, ou seja, Weintraub vai ganhar quase quatro vezes mais.

Nesta tarde, ao anunciar sua saída do MEC, Weintraub revelou que assumirá o cargo. O governo brasileiro também oficializou a indicação, informou o Ministério da Economia. Em nota, a pasta comunicou que Weintraub foi indicado à cadeira na diretoria liderada pelo Brasil, a qual representa Colômbia, Equador, Trinidad e Tobago, Filipinas, Suriname, Haiti, República Dominicana e Panamá.

Com a escolha de seu nome sob questionamentos, a nota da Economia tenta destacar a experiência profissional de Weintraub. “Com mais de 20 anos de atuação como executivo no mercado financeiro, Weintraub foi economista-chefe e diretor do Banco Votorantim, além de CEO da Votorantim Corretora no Brasil e da Votorantim Securities no Estados Unidos e na Inglaterra”, afirma o texto.

Mais cedo, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ironizou a indicação. “Não sabem que ele (Weintraub) trabalhou no Banco Votorantim, que quebrou em 2009. Ele era um dos economistas do banco”, disse Maia.  

Polêmica

Um ex-integrante do alto escalão do Banco Mundial, que pediu para não ser identificado, ressaltou que, na diretoria, Weintraub terá que se adaptar ao código de ética do organismo, que proíbe declarações sobre a política dos países membros. Não seriam permitidas, por exemplos, publicações polêmicas em redes sociais, como a que Weintraub fez, ao ironizar os chineses e a pandemia do coronavírus.

Apesar de a indicação ainda ter que ser aprovada por outros países, a avaliação é que se trata de um procedimento pro-forma e que não haveria chances de a indicação ser rejeitada, já que o Brasil tem mais de 50% de poder de voto.

O Banco Mundial é uma instituição internacional que financia projetos em países em desenvolvimento. O órgão tem 186 países membros. Na prática, a escolha não pode trazer sanções para o Brasil, mas tem potencial de prejudicar a agenda brasileira no banco. Se bater de frente com a diretoria, Weintraub pode ser isolado e não conseguir levar para frente projetos de interesse do governo.

O que é o Banco Mundial

O Banco Mundial é uma agência independente do Sistema das Nações Unidas responsável por promover o desenvolvimento sustentável de países e a erradicação da pobreza. Anualmente, o Banco proporciona cerca de U$ 60 bilhões em empréstimos e doações para os 189 países membros.

O Banco Mundial funciona como uma cooperativa formada pelos países-membros. Todos eles participam da chamada Assembleia dos Governadores, na qual o poder de voto é distribuído de acordo com a participação de cada país e um conselho de 25 diretores executivos, eleito a cada dois anos pelos 189 diretores. Cada um representa diferentes países.

Esses governadores geralmente são os ministros das Finanças ou Desenvolvimento dos países-membros. Como eles só se reúnem uma vez por ano, os outros 25 diretores executivos recebem atribuições permanentes e geralmente se reúnem pelo menos duas vezes por semana para revisar as atividades da instituição, como aprovação de empréstimos e garantias, novas políticas, orçamento e estratégias de assistência a países. 

Cada um dos cinco principais acionistas do Banco Mundial (França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos) escolhem um diretor executivo e os outros países-membros são representados pelos outros 20 diretores executivos eleitos. É uma dessas cadeiras que será ocupada por Weintraub.

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