Interdependência virou problema para os EUA

Como consequência do crescimento chinês, economias dos dois países estão intimamente conectadas e em permanente tensão

Denise Chrispim Marin CORRESPONDENTE WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

A China soube expandir sua produção e capacidade econômica de tal forma a tornar os Estados Unidos, ainda a maior potência mundial, dependentes das oscilações do mercado chinês e das decisões tomadas por Pequim. Hoje as economias de ambos os países estão intimamente conectadas e em permanente tensão.

"Os dois países sabem que um precisa do outro, como dois escorpiões dentro de uma garrafa", afirma David Lampton, decano da Universidade Johns Hopkins e ex-presidente da Comissão Nacional sobre EUA-China. "Essa interdependência tornou-se um obstáculo aos dois lados".

Em 2008, o comércio EUA-China alcançou US$ 407,5 bilhões - US$ 40 bilhões a mais que todo o comércio exterior brasileiro no período. Os EUA amargaram um saldo negativo recorde de US$ 268,0 bilhões. Suas exportações ao mercado chinês corresponderam a apenas um quinto de suas importações de bens daquele país. Em 2009, ano de retração da economia mundial, esse déficit não deixou de ser expressivo. Totalizou US$ 226,9 bilhões - 60,5% do saldo negativo global dos EUA.

Porém, enquanto as exportações americanas para o mundo todo despencaram 20% em 2009, em decorrência da crise econômica internacional, seus embarques para a China recuaram apenas 0,2%, graças à atividade chinesa menos afetada e em expansão. Isso significou, segundo Lampton, alívio para setores produtivos americanos.

Em relatório ao Congresso americano em 2009, a Comissão EUA-China de Exame da Economia e da Segurança assinalou sua preocupação com o tamanho do déficit comercial, sobretudo porque o governo valeu-se de medidas distorcivas, desrespeitou compromissos na área de propriedade intelectual e manteve o câmbio desvalorizado.

No começo da década, esse comércio bilateral atingiu setores americanos intensivos em mão de obra, que acabaram forçados a adotar medidas de aumento de competitividade para sobreviver. Gradualmente, a China ampliou sua presença no mercado de alta tecnologia dos EUA. Entre 2000 e 2008, as vendas de peças para computadores aumentaram 454% e as de equipamentos de comunicação, 800%.

Uma parte do comércio bilateral correspondeu a trocas entre companhias de capital americano, que investiram cerca de US$ 38 bilhões na produção chinesa entre 2000 e 2009. Os atrativos foram o custo baixo da mão de obra, os generosos subsídios e benefícios fiscais concedidos por Pequim e a taxa de câmbio desvalorizada da China. Tratou-se de um volume considerável, embora superado pelos aportes de capital de Hong Kong, de Taiwan e do Japão.

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