Interesse nacional

A Embraer terá seu alcance de mercado ampliado enormemente pela união com a Boeing

Josef Barat, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2018 | 04h00

No Brasil, sempre que se avança rumo ao contemporâneo, é recorrente o chavão do “interesse nacional” para criar dificuldades. Claro que o termo é apropriado quando se trata de objetivos voltados para elevar os padrões de vida e os níveis educacionais, melhorar a distribuição da renda, aumentar a produtividade do trabalho e tornar a produção do País mais competitiva. Mas invocá-lo para defender privilégios de grupos – empresários, trabalhadores ou políticos – é escarnecer dos verdadeiros interesses da Nação. Parcerias, privatizações e associações com empresas estrangeiras em si não são prejudiciais aos objetivos de desenvolvimento. Muito mais comprometedores são a pobreza crônica, analfabetismo funcional, falta de qualificação e precariedade das infraestruturas em geral.

Embora ainda ecoe o chavão, o recente caso da união estratégica da Embraer com a Boeing pode ser visto como um caso de sucesso, em termos da maior inserção do Brasil no mercado global. Uma complementaridade perfeita entre duas empresas líderes em seus respectivos mercados, que temendo a forte competição da associação entre Airbus e Bombardier resolveram unir esforços. No mercado de transporte aéreo, os serviços de longo curso, domésticos de cabotagem e de coleta e distribuição se integram em uma cadeia de transporte de pessoas e mercadorias. As várias escalas da demanda exigem maior diversidade de oferta. Em virtude disso, a Embraer desenvolveu seu conhecimento, pesquisas, inovações e configurações de aeronaves com o objetivo de se inserir mundialmente – com elevada competência – em segmentos altamente promissores da aviação executiva, regional e doméstica. O verdadeiro interesse nacional é o de ter uma empresa nacional de excelência com presença expressiva no mercado mundial, resguardando, claro, sua produção ligada à defesa nacional. E isso, ao que tudo indica, foi garantido pelo acordo entre as duas empresas.

É bom lembrar que, a partir dos anos 1980, a acelerada evolução tecnológica e a globalização promoveram a gradual integração horizontal das cadeias produtivas, com terceirização de serviços e da produção de partes e componentes em diferentes regiões e países. As novas logísticas de abastecimento e escoamento (contêineres e transporte multimodal) reduziram as necessidades de estoques, inclusive gerando sistemas de estocagem just in time. As grandes aglomerações industriais deixaram de ser relevantes para os processos produtivos. Um fator importante passou a ser a importância do “prestígio das marcas” – independentemente do local da produção –, como fator de capitalização das empresas e fator de competitividade no mercado.

Mas foram as jointventures e as alianças estratégicas que promoveram mudanças cruciais na indústria. A competição mundial induziu a associação entre empresas que juntam recursos, competência e meios para desenvolver uma atividade específica ou criar sinergias de grupo. Para conquistar um novo mercado (geográfico ou setorial), adquirir novas competências ou ganhar dimensão crítica, as empresas passaram a ter, via de regra, as opções de fusão ou a aquisição; internacionalização; e celebração de alianças ou uniões estratégicas com parceiros.

No início do século 20, o economista Joseph Schumpeter previa que o desenvolvimento capitalista teria a tendência de concentração econômica e apropriação da inovação por grandes empresas. Em momentos de crise (micro ou macroeconômicas) sairiam fortalecidas as empresas capazes de ampliar suas escalas e reduzir custos sem sacrificar sua capacidade de lançar produtos e tecnologias inovadoras. A Embraer deve ser motivo de orgulho para os brasileiros, pois é uma grande empresa capaz de gerar inovação e que terá seu alcance de mercado ampliado enormemente pela união com a Boeing.

ECONOMISTA, CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS E COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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