Interesses criam reação exacerbada à produção de etanol

Para professor da Unicamp, Brasil não deve dar pretexto para ataques, como no caso da carne

Cláudia Ribeiro, do estadao.com.br,

18 de abril de 2008 | 17h31

A polêmica sobre o impacto da produção de etanol sobre o preço dos alimentos é exacerbada por um conjunto de interesses internacionais e domésticos. Esta é a opinião do professor Antonio Márcio Buainain, do Núcleo de Economia Agrícola da Unicamp. Ele enumera estes interesses e afirma que o "Brasil, infelizmente, vai pagar parte da conta desta guerra de interesses".   Veja também: Ouça o áudio da entrevista  Os biocombustíveis podem afetar a produção mundial de alimentos?  Especial sobre a crise de alimentos     Do lado externo, Buainain diz que os países desenvolvidos nunca mostraram interesse pelo desenvolvimento dos biocombustíveis, mas, com o crescimento econômico mundial e a alta do preço do petróleo, isso mudou. "Os Estados Unidos, por exemplo, investiram pesado no programa de biocombustíveis em 2007. Isso foi um dos principais motivos para a forte alta dos alimentos, já que naquele país, a produção de cana e milho para alimentação deu lugar à produção para o etanol".   Segundo o professor da Unicamp, isso não acontece no Brasil, pois o País tem condições agrícolas para manter a produção de grãos nas duas frentes. "Portanto, dizer que o Brasil contribuiu para a alta dos alimentos, por causa do etanol, é errado. Aqui, diferentemente dos Estados Unidos, isso não é problema", avalia.   Buainain cita ainda o protecionismo aos agricultores na Europa, o que acaba pressionando para cima o preço dos alimentos. Isso porque países que poderiam produzir mais para exportação e, com isso, aliviar a alta da inflação, não vão adiante, porque não conseguem competir com o preço dos produtos de países que concedem subsídios a seus agricultores.   Em relação ao cenário interno, o professor da Unicamp aponta os ambientalistas e algumas organizações como responsáveis pela "reação sem medida". Ele afirma que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é "contra o agronegócio por princípio". "Não há fundamento. A produção de alimentos no Brasil está crescendo", destaca.   Saídas possíveis   O professor da Unicamp afirma que o Brasil vai ter que enfrentar a polêmica de duas maneiras. Segundo ele, o governo vai ter que mostrar que não reduz a produção de alimentos por conta dos biocombustíveis. E, além disso, não poderá dar motivos para ataques à agricultura brasileira.   "O caso da carne brasileira é um exemplo disso. Não podemos dar margem a este tipo de problema", afirma. O professor se refere ao embargo dos europeus à carne produzida no Brasil. O comércio já foi reativado, mas o desgaste para a imagem da pecuária brasileira trouxe conseqüências para o agronegócio.   Críticas   Buainain criticou ainda os programas de ajuda alimentar, que impedem o desenvolvimento da agricultura nos países mais pobres. "Isso acalenta a dependência destas nações em relação aos países mais desenvolvidos e não contribui em nada para reduzir a pressão de alta sobre os alimentos", afirma.

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