Interesses ditam tom do discurso contra barreiras

Empresários defendem livre comércio, mas pedem proteção contra práticas que consideram desleais

David Friedlander e Paula Pacheco, O Estadao de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 00h00

Semanas atrás, numa sexta-feira cedo, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, deu uma esticada relâmpago a Buenos Aires. Foi e voltou no mesmo dia, com Fuad Mattar, dono da Paramount Têxteis. Maior exportadora de fios têxteis para a Argentina, a Paramount foi acusada de concorrência predatória e é investigada por suposta prática de dumping (leia ao lado). Fuad e Skaf acham que tudo não passa de uma ação protecionista disfarçada de processo antidumping e reclamaram às autoridades argentinas. Na volta ao País, porém, Skaf mostrou que aqui a conversa é outra, e voltou a sugerir que o Brasil adote medidas de proteção à indústria nacional.O episódio é simbólico do dilema dos empresários brasileiros diante da violenta retração do comércio global. Qualquer um deles gostaria de exportar ao mundo inteiro com alíquota zero, mas querem impor barreiras aos importados que concorrem com seus produtos aqui.Apesar da alta voltagem do discurso protecionista, parte do empresariado sabe que não pode dar as costas ao resto do mundo. Vários setores da indústria são contra barreiras às importações. Muitas empresas compram lá fora insumos, equipamentos e produtos prontos. Além disso, há o temor de retaliações de outros países, caso o Brasil levante barreiras contra a mercadoria importada."Num momento de crise como este, é grande a tentação de recorrer a medidas protecionistas. É preciso muito cuidado para não provocar reações que prejudiquem as exportações", diz Amâncio de Oliveira Junior, diretor do Centro de Estudos das Negociações Internacionais da USP. A indústria de aparelhos eletroeletrônicos foi uma das que mais reclamaram quando o governo tentou aumentar a burocracia para a entrada de produtos estrangeiros, duas semanas atrás, com uma licença para importações. A grita foi geral, mas repercutiu principalmente na Zona Franca de Manaus, que concentra um forte polo produtor de celulares e equipamentos de vídeo e áudio.A reação dos fabricantes tem a ver com o fato de o setor depender dos componentes comprados fora. Cerca de 70% das peças de celulares e computadores fabricados no Brasil são importadas. "Protecionismo é ruim. Pode até ser admissível num momento de crise como este, para preservar empregos, mas precisa ter prazo de validade", diz Humberto Barbato, presidente da Abinee, entidade que representa o setor.A falta de um discurso comum em relação ao protecionismo é visível entre os fabricantes de calçados. Em dezembro, a Abicalçados, representante do setor, procurou o governo com um pedido de investigação de dumping contra os calçados chineses. Segundo a entidade, a queda da demanda no mercado internacional transformou o Brasil em ponto de desova dos estoques chineses. "É uma deslealdade comercial", queixa-se Heitor Klein, diretor executivo da Abicalçados. Os fabricantes de calçados esportivos, como a Penalty ou a Alpargatas, no entanto, são contra as barreiras aos chineses.A Alpargatas fabrica as sandálias Havaianas, os tênis Topper, Rainha e Mizuno e os calçados e roupas da marca Timberland. A empresa importa solados de borracha, tênis de corrida mais sofisticados e algumas botas da Timberland - quase tudo da China. Cerca de 25% dos calçados vendidos pela empresa são produzidos por indústrias chinesas. "São produtos feitos com uma tecnologia muito específica, que exige um maquinário que não temos aqui. Se houver barreiras à importação da China, seremos prejudicados", afirma Fernando Beer, diretor da Alpargatas.A empresa também teme que as sandálias Havaianas, vendidas em mais de 80 países, percam mercado como resultado de retaliações contra medidas protecionistas eventualmente adotadas pelo governo brasileiro.Entre os setores que defendem ações protecionistas, a indústria têxtil e os fabricantes de aço são os mais enfáticos. Entendem que precisam de proteção contra práticas de comércio que consideram desleais e pediram providências ao governo. Na semana passada, representantes dos dois setores estiveram com os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Desenvolvimento, Miguel Jorge. Reclamaram principalmente de China, Índia, Turquia e Rússia. As siderúrgicas brasileiras se preocupam com o espaço que o aço chinês tem conquistado no mercado internacional. Acham que os chineses agora querem invadir o Brasil. Por esse raciocínio, a porta seria uma megalicitação da Transpetro, subsidiária de logística da Petrobrás (leia abaixo). A estatal diz que o aço chinês é mais barato e quer fabricar seus navios com ele. As siderúrgicas protestaram.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.