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Interior paulista cresce e enriquece com o agronegócio

No meio de uma lavoura de algodão, operando uma colhedora, ou a 3 mil pés de altura, pilotando um monomotor Corisco. Num desses lugares pode ser encontrado o agricultor Bernardo Scholten, produtor associado da Cooperativa Holambra II, em Paranapanema, 250 quilômetros a sudoeste da capital paulista. Num domingo, a melhor aposta é o avião, misto de trabalho e diversão de Sholten, que obteve há pouco o brevê de piloto. Bernardo e os irmãos Hanz e Rudy cultivam 4,1 mil hectares de soja, feijão, algodão, milho e trigo na região de Paranapanema e no município goiano de Rio Verde. Usam tecnologias como plantio direto, irrigação e monitoramento de máquinas por satélite e obtêm índices de produtividade muito acima da média nacional. O padrão de vida da família equivale ao de altos executivos ou sólidos empresários. O avião foi presente do pai, o também agricultor Iohannes, para que o filho pudesse viajar sempre para Goiás. As terras cultivadas pelos Scholten contribuíram para elevar em 1,85% o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro em 2001, em comparação com o ano anterior. O porcentual pode parecer pequeno, mas corresponde a R$ 6,3 bilhões a mais de receita, segundo dados da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP). O bom desempenho no campo ajudou o Brasil a manter equilibrada a balança comercial. No Estado de São Paulo, o valor da produção agropecuária em 2001 foi de R$ 17,5 bilhões, com aumento real (descontada a inflação) de 10,78%. Se considerada toda a cadeia produtiva do agronegócio, o valor sobe para R$ 156,4 bilhões, ou 39,85% do PIB do Estado, segundo o pesquisador Nelson Martins, diretor do Instituto de Economia Agrícola (IEA) da Secretaria da Agricultura e Abastecimento. "A produção agropecuária tem um forte efeito multiplicador na geração de negócios", avalia. Com pouco mais de 15 mil habitantes, Paranapanema não tem agências de automóveis importados. Os que circulam circulam pelas ruas asfaltadas e ajardinadas do distrito de Holambra foram comprados em Avaré, Itapeva, Sorocaba e São Paulo, praças que absorvem também boa parte da produção dos 98 associados da cooperativa. Juntos, eles produzem por ano 86 mil toneladas de grãos, 16 mil toneladas de frutas e 2 milhões de vasos de flores, com receita bruta de R$ 62 milhões. Estão colhendo agora 4.500 hectares de algodão, com produção estimada em 1,2 milhão de arrobas e receita de, aproximadamente, outros R$ 40 milhões. "Vivemos uma situação de pleno emprego, por isso não há problemas fundiários aqui", afirma o presidente do Sindicato Rural, João Carlos Menck. Os produtores não integrados à Holambra também incorporam tecnologia e administram fazendas como empresas, segundo ele. "Grande parte da atividade agrícola está nas mãos de jovens, com formação universitária e de forte ligação com a terra." EngenheirosMenck garante que Holambra tem a maior concentração de engenheiros agrônomos do Estado, a maioria jovens. Os irmãos Leme - Renato, Cássia e Fernando - são formados em agronomia. Outro irmão, Sérgio, é engenheiro mecânico. Juntos, administram a Fazenda Capuava, modelo em fruticultura e grãos. O presidente da cooperativa, Simon Johannes Maria Veldt, também agrônomo, é recordista em produtividade de algodão. A cooperativa acaba de investir R$ 2,5 milhões na reforma e ampliação de uma usina de beneficiamento das fibras. Com isso, os associados vendem os fardos já classificados. O agrônomo Vandir Daniel da Silva, diretor-regional da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), órgão da Secretaria, em Itapeva, afirma que o campo vive uma revolução. "Tantos as fazendas, como as pequenas e médias propriedades rurais, estão se tornando empresas, criando renda e empregos." A mecanização, conta, tornou-se instrumentto de melhores condições sociais. A média de salário de um tratorista ou operador de máquinas, segundo ele, gira em torno de R$ 500,00. "Ele tem de saber a dosagem correta do adubo e a quantidade de sementes que deve sair da máquina." O agricultor tem de manter informado: lê jornais, acompanha noticiários da televisão, usa computador e internet. "Seja grande ou pequeno, se não tem eficiência, quebra." Em pouco mais de seis anos, a Fazenda São Paulo, em Taquarivaí, tornou-se modelo de produtividade. Até 1995, abrigava nos 4.100 hectares cerca de 1.200 cabeças de gado em regime extensivo. O proprietário, o paulistano Edmundo Maluf, decidiu torná-la auto-suficiente e lucrativa, "sem ajuda do governo". Hoje, o rebanho é de 2.700 cabeças. A fazenda integra lavoura e pecuária, plantando soja e milho nos pastos degradados. "Além de obter boa produtividade de grãos, os pastos são reformados", conta o administrador João Jacinto Dias de Almeida. Os cultivos anuais somam mil hectares de soja, 500 hectares de trigo e triticale e 240 hectares de milho, com produtividades elevadas. A soja rende 56 sacas por hectare, o milho, 127 sacas. A produção conta ainda com com 82 mil pés de frutas cítricas e uma criação de javalis. O salário mínimo da fazenda é de R$ 294,00 e os 58 funcionários recebem cesta básica e café da manhã. A frota de máquinas, com 10 tratores, duas colhedoras e muitos implementos, é nova. Almeida mudou-se de São Carlos, com a mulher e o casal de filhos, para a fazenda. "É o melhor lugar do mundo", diz.

Agencia Estado,

12 de maio de 2002 | 09h44

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