Saul Loeb/Reuter
Saul Loeb/Reuter
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Internacionalização dos nacionalismos?

Por toda parte, estão ganhando força os tais partidos nacionalistas de direita que, além da xenofobia, do protecionismo comercial e da repulsa a propostas socialistas ou até mesmo social-democráticas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2018 | 21h00

O diário londrino The Telegraph, na edição do dia 23, publicou análise intrigante. Seu título traduzido para o português: Nacionalistas de todo mundo, uni-vos.

Por toda parte, estão ganhando força os tais partidos nacionalistas de direita que, além da xenofobia, do protecionismo comercial e da repulsa a propostas socialistas ou até mesmo social-democráticas, têm em comum agenda contra tudo quanto cheire a globalização da economia e da política.

O norte-americano Steve Bannon, conhecido por ser o ideólogo do presidente Trump, saiu da Casa Branca onde esteve instalado até abril na condição de estrategista-chefe da presidência, deslocou-se para Bruxelas e, a partir daí, vem perseguindo uma espécie de união de partidos de direita.

Talvez porque não inspire confiança entre os europeus, Bannon não vem sendo bem-sucedido. No entanto, como são forças incipientes, mesmo em países onde operam há anos, como na França, são partidos que procuram apoio internacional para suas atividades, embora não saibam como. E é por aí que poderia fazer algum sentido para eles uma amarração internacional. Se, no entanto, não dá para todos os países garantirem seus interesses em primeiro lugar, como agora quer o presidente Trump, fica mesmo difícil entender a lógica dessa pretendida união global de interesses nacionalistas.

A bandeira internacional começou com a Revolução Francesa, que desde o início pretendeu expandir aspirações de igualdade, fraternidade e liberdade. Napoleão abraçou em boa medida esses ideais e conseguiu que a maioria dos países europeus assimilasse os valores incorporados a seu código civil. Depois vieram as propostas socialistas e, com elas, o lema “trabalhadores de todo mundo, uni-vos”.

As grandes guerras do século 20, quando trabalhadores saíram a lutar contra trabalhadores, e a Revolução Russa, que não teve saída senão “construir o socialismo em um só país”, mudaram essa escrita. Mas o ideal internacionalista ficou impregnado nos movimentos de esquerda. A União Europeia e a criação do euro, que unificou mercados sob inspiração social-democrata, foram um dos resultados desse movimento. Mas não ficou apenas nisso.

Os próprios Estados Unidos, sob a égide do liberalismo e do neoliberalismo, batalharam não apenas pelo alastramento do livre-comércio, da interconexão dos mercados e pelos princípios democráticos. Trataram, também, de criar instituições globais que trabalhassem na mesma direção: ONU, OMC, OIT, FMI, Banco Mundial, etc.

Agora vem a dupla Steve Bannon e Trump com proposta de desmontar essa ordem mundial democrática, sob o argumento de que ela favorece mais a Rússia e a China do que os Estados Unidos. Fossem apenas uns esquisitões a mais, ninguém perderia tempo com eles. Mas Trump é o chefe de Estado mais poderoso do mundo e quer mudar tudo. Não se sabe ainda o que é pura retórica e o que é projeto para valer.

Antes de avançar, apenas uma recapitulação sobre o que aconteceu no Brasil. A Independência, muitas das instituições do Império e até mesmo a Abolição foram influenciadas pelos ideais liberal-democráticos. As esquerdas, especialmente o Partido Comunista Brasileiro, também assumiram os lemas internacionalistas. Mas optaram por amoldar-se ao modelo stalinista que desistiu ao menos temporariamente das propostas do internacionalismo proletário, então defendidas por Trotsky.

As teses nacionalistas no Brasil foram inicialmente assumidas por Getúlio Vargas, que pretendia com elas definir o marco ideológico do desenvolvimento nacional (veja-se a palavra de ordem “o petróleo é nosso”). Depois de 1935, o Partidão brasileiro entendeu que, em vez de perseguir o internacionalismo proletário, por opção tática, deveria se concentrar em trabalhar aliado à chamada burguesia nacional. E, assim, as esquerdas assumiram propostas mais nacionalistas do que internacionalistas. E continuam com elas, sabe-se lá em que condições, mesmo tendo o mundo mudado como mudou.

De volta ao jogo Trump-Bannon, não dá para esperar dessa dupla supostamente desfeita nem dos demais partidos (ou governos) nacionalistas que avancem nas pretensas alianças mais do que podem. Se conseguirem o que dizem nos seus países, seus interesses nacionalistas logo se chocarão entre si e tenderão a se anular. Enquanto a lógica for essa, por mais que se esforcem e tentem dinamitar siglas globais importantes, muito improvavelmente terão fôlego para implantar no mundo instituições que suplantem as atuais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.