JF Diorio/Estadão
Para Christian Gebara, trâmites do leilão do 5G estão respeitando os prazos. JF Diorio/Estadão

'Internet 5G estará disponível pouco tempo após o leilão', diz presidente da Telefônica

Executivo defende que a disputa pelas frequências só deve ocorrer quando as regras do edital estiverem totalmente esclarecidas pelo governo

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 05h00

O presidente da Telefônica Brasil, Christian Gebara, minimizou o atraso na definição do edital da internet móvel de quinta geração (5G), que segue em análise no Tribunal de Contas da União (TCU). A afirmação foi feita em entrevista para a série Olhar de Líder, em que jornalistas do Estadão/Broadcast conversam com líderes de grandes empresas.

Na avaliação do executivo, é preferível que o processo se arraste até o segundo semestre se forem garantidas regras claras para as proponentes e a pavimentação para o fluxo de investimentos na cobertura. “É melhor ter de ajustar algo e contribuir para a melhor digitalização do País em vez de antecipar algo cujas condições não estão bem definidas entre as instituições”, afirmou.

Uma vez definido e realizado o leilão, o sinal 5G deve começar a ser ativado em “poucos meses”, estimou o executivo da gigante espanhola. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Havia previsão do governo de que o leilão do 5G ocorreria na metade deste ano, mas já estamos em cima da hora e nada. O edital está sendo revisado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pode voltar para a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Qual a sua expectativa sobre prazos?

Nossa informação sobre prazos é similar à que você tem. O processo tinha o objetivo de ser finalizado mais rápido. Agora, estamos na fase de aguardar retorno do TCU, depois haverá possíveis questionamentos a serem respondidos pelo Ministério das Comunicações e pela Anatel. Só em seguida poderemos avançar para a realização do leilão. Não sabemos dizer com certeza quando isso vai acontecer.

É mais razoável imaginar que ficou para depois de julho?

Se o leilão for realizado em julho ou em setembro, por exemplo, a diferença é mínima. No fim, é melhor ter de ajustar algo e contribuir para a melhor digitalização do País em vez de antecipar algo cujas condições não estão bem definidas entre as instituições envolvidas. Não há uma pressa que não possa esperar por mais um, dois ou três meses. Estamos confortáveis se o leilão acontecer nos próximos meses. E preferimos que as regras estejam claras.

Esse atraso causa algum problema?

Não estamos atrasados. Esse é um processo que exige a existência de um ecossistema de dispositivos, o que está ocorrendo aos poucos. Mas ainda falta algum andamento para que o processo seja massivo e cheguem dispositivos (celulares, tablets etc.) a um preço acessível para uma população como a do Brasil. Da nossa parte, estamos preparando a infraestrutura para que, quando a frequência estiver liberada, a gente comece a usá-la e tenha modelos de negócios para isso. Já estamos fazendo provas de laboratório para a internet das coisas, que terá muitas oportunidades para uso na indústria, na agricultura e no varejo.

A Anatel já citou que o leilão deve movimentar em torno de R$ 33 bilhões a R$ 35 bilhões. Dá para dizer que será arrecadatório ou não, diante desses valores?

Com o valor solto assim, não sabemos dizer o que significa, porque não temos ainda a explicação a que se refere exatamente. O leilão terá blocos nacionais e regionais, de 5G e 4G, além das obrigações. O discurso e a mensagem que temos recebido até o momento são de que o leilão será orientado a obrigações, e não a arrecadação. Então, estamos trabalhando sob essa premissa. Além disso, temos de saber o valor concreto das obrigações. Não podemos ser surpreendidos com variáveis a serem definidas nos próximos anos. Gestores de empresas de capital aberto precisam saber os valores que estão sendo assumidos.

E vocês estão vendo pontas soltas?

Não sabemos ainda, porque o edital não foi finalizado. O TCU está avaliando. E o trabalho do TCU é de comprovar que as obrigações contempladas estão dentro do valor contemplado. É um processo normal de qualquer leilão. Não posso especular sobre o que está sendo discutido, mas vamos aguardar que a comprovação de que as obrigações associadas a cada uma das frequências sejam condizentes, com números concretos, para não termos surpresas mais tarde. Até porque dificilmente haverá um outro leilão tão grande quanto esse nos próximos anos em tamanho de frequência leiloada, nem em relação às mudanças de paradigma.

Em quanto tempo o sinal do 5G será ativado após o leilão?

Tudo vai depender da tecnologia que será usada e da disponibilidade dos equipamentos. Mas, uma vez que o leilão for realizado e as frequências estiverem disponíveis, a ativação do 5G acontecerá em poucos meses. Isso vai começar de acordo com os pontos exigidos no edital. No caso do 4G, começamos pelas cidades da Copa das Confederações (evento realizado em 2013, preparatório para a Copa do Mundo). Se o leilão ocorrer este ano, em 2022 poderemos começar a ter a experiência do 5G em algumas capitais do País.

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'Já iniciamos novo ciclo de investimento', diz presidente da Volkswagen na América Latina

Após concluir aporte de R$ 7 bilhões no País, executivo argentino Pablo Di Si aguarda evolução da vacinação para anunciar valor de nova rodada

Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 05h00

À frente Volkswagen na América Latina desde outubro de 2017, o executivo argentino Pablo Di Si vive hoje seu segundo ciclo de investimentos no Brasil após finalizar os R$ 7 bilhões do programa anterior, lançado justamente no ano em que assumiu o cargo.

O anúncio do valor e do prazo dos novos investimentos só deve ocorrer, no entanto, quando houver maior controle da pandemia de covid-19. A ideia é que a divulgação aconteça em cerimônia com a participação do presidente mundial da empresa, Ralf Brandstätter. “Claro que o anúncio é importante, mas o mais importante é fazer, e já estamos implementando em nossas fábricas o nosso novo ciclo de investimento”, disse Di Si ao programa Olhar de Líder, do Estadão/Broadcast.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Quais são os planos de investimento da VW para o Brasil?

O plano de investimentos de R$ 7 bilhões foi finalizado. Estamos agora num novo ciclo. Ainda não anunciamos porque a ideia era convidar o presidente mundial (da montadora) para o anúncio. Mas, pela pandemia, estamos segurando um pouco. O importante é que isso já está acontecendo.

O investimento é maior do que o ciclo anterior de R$ 7 bilhões? 

Não posso falar em valores, mas o ciclo acontece em muitos segmentos. Nos próximos dois anos, o Brasil vai passar por muitas mudanças de legislação, envolvendo uma série de normas prevendo mais segurança e menos emissões. Alguns modelos que hoje existem no Brasil vão deixar de existir em seis meses, um ano ou dois e vai haver uma nova safra de produtos da Volkswagen e de outras montadoras. Esse investimento que estamos fazendo vai complementar nossa linha de produtos atual, melhorar o nível de segurança, de emissões de CO2.

Será um investimento com foco maior em desenvolvimento de produto do que em expansão?

Com certeza. Temos quatro fábricas no Brasil, estamos bem de capacidade. 

Como está o plano de trazer carros elétricos ao Brasil?

Temos um plano de seis veículos nos próximos cinco anos, entre elétricos e híbridos. O Brasil não é um país, é um continente, e esses híbridos são uma boa transição até a eletrificação completa do Brasil. Quem vai determinar a velocidade (de introdução) desses veículos será o consumidor. Hoje, o Brasil tem menos de 1% do mercado em veículos elétricos e híbridos. Se até 2030 vai ser 10%, 5% ou 30%, quem vai definir é o consumidor. Também vai depender de políticas públicas, do custo das baterias. Em relação ao produto, a Volkswagen terá mais de 140 veículos elétricos e híbridos no mundo nos próximos cinco anos. Temos muito conteúdo. Precisamos ver como o mercado vai evoluir no Brasil.

A Anfavea (entidade que representa as montadoras) disse que as matrizes estão assustadas com a política e a economia do País. Isso afasta investimentos?

Nossa matriz não está assustada. Entende que a América Latina tem volatilidade. Não é um mercado que cresce 1% e cai 1%. É um mercado que sobe 30% e cai 40%; sobe 50%, cai 20%. Essa instabilidade gera tensão às vezes. Mas o importante é o olhar de médio e longo prazos. Ninguém faria os investimentos que fizemos e estamos fazendo se não acreditasse na região no médio e longo prazos. O que temos de ter cuidado é com a competitividade do País. São coisas faladas há mais de 30 anos: reforma tributária, reforma administrativa. Todo o custo de ineficiência que nós temos torna difícil exportar um veículo, por exemplo. Fica mais caro produzir um veículo aqui do que em outro país. Sempre temos uma mochila de 50 quilos nas costas. 

Como a Volkswagen tem conseguido atravessar a crise de abastecimento de peças?

Falta de semicondutores é no mundo, não é só no Brasil. Então, o time da Alemanha está nos ajudando muito. Temos muitos problemas, mas o time gerenciou para não parar um dia por falta de peças. Temos reuniões diárias para entender o que está faltando, onde estão as peças, em qual país, em qual avião. Trabalhamos num nível de detalhe alto.

Há previsão de paradas por falta de peças na Volkswagen?

Não temos previsão, mas também não me chamaria a atenção se tivermos de parar por dois ou três dias. 

A volta do mercado de veículos a níveis de pré-pandemia deve ser rápida ou lenta?

Acho que vai ser muito rápida. Quando você tem um problema de abastecimento é porque a demanda está maior do que a oferta. Esses problemas existem porque há uma demanda muito aquecida no mundo, incluindo o Brasil. Então, com a vacina disponível, a demanda vai acelerar no segundo semestre. Neste mês, vai chegar uma quantidade enorme de vacinas. Como o sistema do SUS é muito bom, a vacina vai chegar num período curto aos braços das pessoas. Até junho, a vacinação no Brasil deve acelerar muito.

Como fica o futuro do Brasil diante do plano mundial da Volkswagen de se tornar uma montadora neutra em carbono?

Antes de entrar no tema dos carros elétricos e híbridos, existe a importância da matriz energética de cada país, porque é o que vai alimentar um carro elétrico ou híbrido. O Brasil tem 85% da matriz em fontes renováveis. O mundo só tem 36%. Há países com alta dependência do carvão. Como Volkswagen, vamos olhar a cadeia como um todo, não apenas o veículo. As estratégias podem variar para atingir o mesmo objetivo. Nós, aqui, temos o etanol e o biocombustível. O caminho à neutralidade de carbono não tem retorno, e o Brasil e a região não estão fora. 

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'Vendedor hoje tem mais poder do que comprador no setor de tecnologia', diz presidente da Totvs

Mesmo após negócio de R$ 1,9 bilhão, empresa busca aquisições no cada vez mais competitivo cenário do setor de tecnologia

Gabriel Baldocchi, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

Após perder a disputa pela Linx para a Stone, no ano passado, a Totvs superou a Locaweb na briga pela RD Station, de marketing digital, no início de 2021. O negócio, de quase R$ 1,9 bilhão, foi o maior já feito no setor nacional de software. Segundo Dennis Herszkowicz, presidente da Totvs, o investimento se justificou pelo caráter único da companhia e pelo contexto de maior competição na área de tecnologia. “Até pouco tempo, havia uma situação em que o comprador tinha a faca e o queijo na mão”, disse, em entrevista para a série Olhar de Líder, do Estadão/Broadcast. “Hoje, o vendedor tem mais poder do que o comprador.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

A Totvs passou por duas negociações de aquisições duras recentemente. Qual foi a lição de ter perdido a disputa pela Linx?

O fato de eu ter passado mais de 15 anos na Linx me deu um grau de conhecimento da operação maior do que a média, mas isso serviu para estabelecer limites que não ultrapassamos. Ninguém gosta de perder e ninguém entra para perder, mas, dado que tínhamos esses limites, vida que segue.

Na compra da RD, analistas chegaram a questionar se o preço não teria sido um pouco elevado. O que justifica o valor pago? 

A RD é uma empresa única. Costumo brincar que é equivalente a uma Gillette, uma Coca-Cola – é sinônimo da categoria quando se pensa em marketing digital. O valor que ela tem num mercado que ela criou e que cresce exponencialmente é de uma importância incalculável. Para a Totvs, que quer construir esse ecossistema, não poderia existir uma peça mais central. Ninguém poderia imaginar que compraríamos por um valor muito menor uma companhia única como a RD, com o tamanho que tem, e que vai faturar R$ 200 milhões neste ano, já entrou em breakeven (equilíbrio) e com uma taxa de crescimento alta. Não tenho dúvida de que, se a RD seguisse caminho independente e buscasse um IPO (oferta inicial de ações), muito provavelmente conseguiria múltiplo maior. O principal comparável da RD lá fora, a Hubspot, tem um múltiplo duas vezes maior.

Os preços para o setor de tecnologia estão altos?

Tínhamos também limites no caso da RD e não ultrapassamos. A única coisa é que os limites no caso da Linx eram uns e os da RD, outros. Esse é o grande aprendizado. Sempre que se ultrapassam os limites, corre-se risco desnecessário. A lição principal é: tenha disciplina. Coloque esses limites e não ultrapasse. Não existe negócio que seja de vida ou morte. Essa é uma falácia no M&A (fusões e aquisições). Se a sua empresa chegou até aqui sem aquela transação, vai poder seguir sem ela.

A competição aumentou?

Temos um ambiente de liquidez muito maior, existe competição maior. Uma empresa bem sucedida como a RD tinha opção de vender para a Totvs, para uma série de outras empresas, buscar um IPO ou fazer mais uma rodada de investimento (privada). Até pouco tempo, havia uma situação de “buyers market”, ou seja, um comprador tinha a faca e o queijo na mão. Hoje, há uma situação mais equilibrada ou uma assimetria, onde o vendedor tem mais poder do que o comprador. É ainda mais importante que o comprador siga os limites religiosamente.

A Totvs vai fazer uma pausa no processo de M&A?

Não. Temos um “pipeline” muito grande e continua bastante variado, tanto em termos de perfis de empresas quanto em porte. M&A é parte do DNA da companhia. Enquanto tivermos recursos e estivermos operando, certamente vamos continuar fazendo.

O Brasil está enfrentando a segunda onda da pandemia com um dos piores indicadores do mundo. O que você espera para 2021?

A operação das empresas num ambiente como esse já está muito melhor do que estava há um ano. O impacto de quarentenas, de lockdowns, é proporcionalmente menor. Acho que vai ser melhor do que 2020, mas estou otimista mesmo é de 2022 adiante. Com todas as dificuldades, ainda assim, provavelmente fecharemos o ano com a vacinação e uma situação de pandemia praticamente resolvida. Aí tem uma demanda reprimida, uma ânsia por recuperação muito forte em todos os setores.

Poderíamos ter feito mais na resposta à pandemia?

Sempre podemos fazer mais. No trabalho, o dia que estou feliz é o que acho que fiz tudo o que eu podia fazer, mas não é todo dia que chego em casa com esse sentimento. Quando eu olho para o País, sempre dá para fazer mais. Prefiro não entrar num julgamento do que foi certo ou errado.

Há um grupo de empresas que entende que pode ajudar na vacinação. A Totvs tem algum trabalho para comprar vacinas?

Enquanto não houver a possibilidade de a companhia fazer algo dentro da legalidade, não vamos. Não estamos fazendo e não faremos. Hoje, a minha percepção é de que, mesmo que houvesse a possibilidade, existe uma escassez (de vacinas), e o que a Totvs certamente não fará é concorrer com o poder público. 

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'Vamos implantar ônibus elétricos em grandes cidades', diz presidente da Enel no Brasil

Empresa de energia negocia consórcio para pôr ‘centenas ou milhares’ de veículos elétricos para rodar pelo Brasil; ainda segundo o executivo, clientes pedem por fontes de energia renováveis

Entrevista com

Nicola Cotugno, presidente da Enel no Brasil

Irany Tereza, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 05h00

RIO - O presidente da Enel no Brasil, Nicola Cotugno, está decidido a liderar iniciativas para a introdução de veículos elétricos no Brasil. Ainda neste ano, ele pretende anunciar a formação de consórcios da multinacional com montadoras e empresas de transporte para criar frotas de ônibus elétricos em São Paulo, no Rio e em Salvador. À série de entrevistas Olhar de Líder, do Estadão/Broadcast, Cotugno disse que o Brasil é uma “base” de energia renovável para a companhia italiana. 

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O aumento dos negócios no mercado livre de energia é uma tendência?

O mercado livre é muito competitivo, com oferta relevante. As novas usinas, e especialmente as renováveis, estão vendendo e entregando energia a este mercado. O tema é qual será o caminho de liberalização e abertura do mercado aos clientes nos próximos anos. Esta é uma parte que depende da regulação. Sem dúvida, vamos ver uma redução desse nível de consumo (necessário para entrar no segmento) e, por isso, vai haver crescimento. A Enel Brasil cresceu 20%, apesar da pandemia. Os clientes pedem energia renovável. Não só pelo preço, mas também porque este é um tema de compromisso ambiental, de sustentabilidade. Muitas empresas estão tomando como uma prioridade não fazer negócio (com energia altamente poluente).

A Enel tem alguma meta para a energia renovável?

Temos uma meta de seguir com a descarbonização, de criar capacidade adicional de geração renovável. E usar essa energia limpa para substituir outras formas de energia. Há dez anos, estamos desenvolvendo no Brasil e no mundo uma estratégia de fortalecimento de renováveis. Comunicamos o início de um projeto de 1.300 MW de energia solar e eólica no Brasil, que vai se somar aos 3,4 MW que já temos em energia hidráulica, solar e eólica. Esses 1.300 MW vão gerar 10 mil empregos e investimento de mais de R$ 5 bilhões.

O carro elétrico na Europa é uma realidade, mas ainda demora por aqui...

Acompanhamos o crescimento dessa tecnologia. Nos últimos dez anos, o custo das baterias, a parte mais importante do carro, baixou muito. Até 2023, no máximo, o carro elétrico vai custar o mesmo do que um carro a gasolina. E o custo (de manutenção) do carro elétrico é equivalente de 20% a 30% do necessário para um carro a gasolina. A economia é gigante. A equação já é conveniente. A barreira é o preço de entrada, o investimento para comprar. Por isso, acredito que agentes privados vão entender o carro elétrico como uma alternativa boa em um ano ou dois, quando o preço baixar para o equivalente a um carro a gasolina. Já os condutores de táxi, ou uma empresa de ônibus, já avaliam e entendem (as vantagens). 

O que falta para esse salto?

Na Europa, países falam que, depois de 2025 ou 2030, não venderão mais carros a gasolina. Aqui, obviamente, há um tema de regulação para essa mudança. Porém, volto a falar: os números são bons. No Brasil, o potencial é gigantesco. O País tem uma grande malha rodoviária, um número de carros gigante, montadoras de carros e uma sensibilidade para economizar. Estou convencido que é um futuro magnífico. Para o transporte público, já estamos ativamente em negociação e espero, antes do fim do ano, falar do negócio de implantar ônibus elétricos em grandes cidades. Falamos de centenas ou milhares de ônibus elétricos, não de algo demonstrativo. 

Com quem estão negociando?

Estamos montando consórcios de empresas onde estarão quem entrega o ônibus, quem opera e quem pensa a parte elétrica do processo. Com a experiência que temos no desenvolvimento das baterias, vamos desenvolver isso com esquema de cooperação. O foco vai estar nas grandes cidades. No Chile, entregamos os primeiros cem ônibus elétricos em Santiago e, agora, vamos a Bogotá (Colômbia). No Brasil, sentimos que o transporte é um problema importante em cidades como São Paulo, Rio, Fortaleza e Salvador. Por isso, pensamos que a solução para o problema é um negócio para a gente.

Qual é o investimento?

É intenso. Por isso, vamos focar nessa forma de consórcio. Vamos substituir ônibus que estão no fim da vida útil. É uma grande oportunidade também para requalificar o sistema de transporte público e descongestionar o trânsito nas grandes cidades. Observamos em Santiago um fenômeno muito interessante: os clientes gostam de tomar um ônibus elétrico e isso foi um incentivo ao uso de transporte público. São veículos novos, com ar condicionado, Wi-Fi, mais silenciosos. O transporte é responsável pela qualidade do ar quase da mesma forma que a produção de energia.

Qual matriz energética a Enel busca ter no Brasil?

A Enel investe pesado no Brasil com aquisições em distribuição e muitas construções na área renovável. O Brasil é uma base, especificamente da matriz renovável da geração. 

Com as críticas ao combate à pandemia, é difícil ‘vender’ a ideia de investir no Brasil?

Grandes investidores olham com atenção o que acontece nos países. Apesar de problemas específicos, como a pandemia, os investidores seguem acreditando no País. O que é fundamental para o investidor seguir acreditando é a segurança regulatória dos contratos.

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'O que derruba o presidente é a economia fraca', diz CEO do Banco XP

Executivo vê chance de polarização entre Lula e Bolsonaro em 2022, mas ressalta que há 'muita água para rolar'; até lá, ele reforça o coro pela vacinação em massa

Entrevista com

José Berenguer, presidente do Banco XP

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 05h00

Foi em plena pandemia que o executivo José Berenguer, de 54 anos, decidiu trocar o banco americano JP Morgan para buscar uma alternativa de carreira. Acabou se deparando com a XP, onde ingressou há sete meses, com o desafio de posicionar a companhia em condição de disputa com os grandes bancos brasileiros.

Além da disputa com gigantes e com uma série de bancos digitais, Berenguer também vem enfrentando o difícil cenário da pandemia no País e as turbulências de Brasília. “Se eu deixar esse ruído político afetar o meu dia a dia, deixo oportunidades em cima da mesa”, disse o executivo, na série Olhar de Líder, em que jornalistas do Estadão/Broadcast entrevistam líderes de grandes empresas.

Para 2022, o executivo vê a polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como cenário provável. Mas, como há “muita água para rolar” até lá, ele reforça o coro pela vacinação em massa. “O que derruba presidente é muito mais uma economia fraca.” Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Ao sair do JP Morgan, por que o sr. escolheu a XP?

É uma questão de fácil resposta. Adoro o JP Morgan e a equipe que está lá. Ao longo de sete anos e meio, chegou o momento em que senti que o meu ciclo estava chegando ao fim e a próxima etapa era eu me mudar para os EUA. Estou com 54 anos, acho que tenho uns 10, 15 anos de gás para trabalhar. Conversei com algumas pessoas, com o Guilherme (Benchimol, fundador da XP), e a nossa conversa se desenrolou muito bem. Então, saí do JP Morgan e vim para a XP.

Onde a XP quer chegar?

Tem uma revolução tão grande acontecendo no mundo financeiro – com tecnologia, open banking, Pix e outras iniciativas – que vai fazer com que a competitividade aumente no segmento. Uma empresa com as características da XP tem condições de ocupar um espaço muito importante. Foi isso que me fez pensar na XP como primeira alternativa.

O sr. acredita que o PIX e o open banking podem ser uma grande revolução. Por quê?

O open banking empodera ao cliente, dá a ele capacidade de comparar produtos e portar (transferir) operações entre diversos agentes. Há um deslocamento de forças em direção ao cliente. E a agenda do open banking no Brasil é muito moderna. É completa, vai pegar investimentos, operações de seguro, que ficarão à disposição de instituições financeiras e não financeiras. Vai haver uma mudança grande no mercado, novos players aparecerão, talvez haja muito menos concentração. É bom para o cliente.

Como o sr. vê o ambiente de competição do mercado bancário no País?

O ambiente competitivo hoje é ameaçador para os incumbentes. Novos agentes vão entrar, o que tratará mais competitividade e redução da rentabilidade de grandes bancos. O Pix e o open banking vão nessa direção, e você tem as big techs gravitando em torno desse mercado, fazendo algumas coisas pontuais em pagamentos. 

Como fica a XP nesse cenário?

Prefiro colocar a XP como sendo uma grande fintech, com a ambição, talvez, de ser a fintech mais bem-sucedida do mundo não em tamanho, mas na forma como interage e atende o cliente.

Como o sr. vê a atual turbulência na Bolsa brasileira?

O Brasil é o país das oportunidades, mas não é para amadores. É complicado trabalhar no Brasil, a gente está sempre tendo sobressalto, mas há muita oportunidade também. A mudança que a redução dos juros trouxe para o comportamento dos investidores é excepcional. A gente hoje tem um mercado de capitais funcionando como deve, financiando o crescimento dessas empresas. Esse funcionamento pleno do mercado de capitais é super importante para o futuro do País.

Nas últimas semanas, empresários e banqueiros começaram a cobrar uma resposta para os problemas do País. Qual sua opinião da gestão do governo Bolsonaro em relação à pandemia?

Vejo os números – e não são bons. Portanto, há espaço para melhora. A saída é vacinar e é o que o ministro da Economia (Paulo Guedes) tem dito. É fácil julgar. Tem uma narrativa negativa em relação à condução. Prefiro ter humildade e dizer que não conheço os detalhes. Quem está sentado ali está tentando fazer o melhor com as limitações que tem. 

Qual é sua opinião sobre a compra de vacinas pelo setor privado?

É uma questão ampla para uma resposta simples. Tendo, hoje, a achar mais que é papel do setor público e a gente deveria ter o SUS conduzindo essa iniciativa. Mas já mudei de opinião algumas vezes e não consigo cravar uma resposta.

O sr. acredita que a agenda de reformas do governo Bolsonaro ainda tem chance de sair?

Nos próximos 12 meses, acho que vai ter uma discussão da reforma administrativa e começar a da tributária, que é mais complexa. Por que acredito que vai acontecer? Por questão de limitação. Não dá para gastar mais do que você arrecada. 

Como sr. vê o xadrez político? A disputa vai ser entre Lula e Bolsonaro em 2022?

É um cenário provável. Tem essa discussão se o Centro vai se aglutinar em um nome ou se vai abrir uma pulverização. As coisas se alteram no decorrer do tempo, com o quadro econômico. O que derruba presidente é muito mais economia fraca, recessão e inflação fora de controle do que uma questão política em si. Ainda é cedo, mas hoje, sem dúvida, o cenário é ter uma polarização entre Lula e Bolsonaro. Mas tem muita água para passar embaixo da ponte.

O mercado financeiro apostou em Bolsonaro em 2018. Pode agora migrar para Lula?

É difícil. Depende do que acontecer até lá, de com quem o Lula se associaria, de como o Bolsonaro vai conduzir a agenda e econômica até lá. É como você colocou: o mercado apoiou o Bolsonaro. (Mas) conheço vários banqueiros, vários que votaram no Haddad. Vários.

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