''Intervenção do BC é tardia e insuficiente''

Para especialista, grau de volatilidade do real é inaceitável e se deve a equívocos cometidos pela autoridade monetária

Entrevista com

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

27 Dezembro 2008 | 00h00

O consultor Nathan Blanche, um dos maiores especialistas do País em câmbio, critica a atuação do Banco Central (BC) nos últimos meses e acredita que a autoridade monetária contribuiu decisivamente para a volatilidade do real. "O câmbio desvalorizou em três meses o que levou quatro anos para valorizar. Ou seja, é um grau de volatilidade inaceitável", afirmou, em entrevista ao Estado. Por que o real está tão volátil? Está mais volátil do que outras moedas não por falta de intervenção do Banco Central (BC), mas por uma intervenção tardia e insuficiente. Volatilidade é incerteza. O câmbio veio subindo de julho até atingir mais de R$ 2,50 no mês passado (novembro). Só aí se viu a autoridade agir como autoridade. Agora se pode observar que a volatilidade vem diminuindo. Isso, sem dúvida, se deve a uma intervenção da autoridade monetária que confirma o que todos nós sabemos. Nesse nível de volatilidade, só há um lado, o comprador. O lado vendedor cala. O BC demorou, mas entendeu o que está acontecendo e passou a agir de uma forma mais correta? Espero que sim. Não se trata do nível da taxa, mas de volatilidade. Foi a volatilidade que provocou essa maxidesvalorização do real, que nada tem a ver com os fundamentos da economia. Por que isso aconteceu? Porque foi tardia e insuficiente do ponto de vista quantitativo. O BC vendeu, até agora (dia 18 de dezembro), aproximadamente US$ 50 bilhões, mas, de oferta líquida de câmbio, foram US$ 10 bilhões. Outros US$ 30 bilhões foram de swap cambial, que é financiamento, uma troca de ativos. As vendas com recompra garantida também não implicam oferta líquida de câmbio. O câmbio desvalorizou em três meses o que levou quatro anos para valorizar. Ou seja, é um grau de volatilidade inaceitável. Imagine como os agentes econômicos com dívida em dólar estão surpresos. Como dão preço aos produtos dele? Se um agente tem dívida a pagar, vai jogar o preço lá para baixo para vender de qualquer maneira. Talvez seja isso que faça com que, atualmente, não haja repasse da alta do dólar para a inflação. Em uma segunda etapa, quando tiver de ofertar produto novo, terá de levar em conta seus custos, que dependem dos produtos importados. Aí vamos sentir a verdadeira pressão dessa maxidesvalorização nos preços. O BC se preocupou demais em preservar as reservas? Fiquei 30 anos no mercado e atuo há 15 como consultor. Existe uma assimetria de informações pela qual eu não sei o que o BC sabe. Há aquelas operações de derivativos "tóxicos". Parte disso o BC certamente conhecia. Vale lembrar que essas operações não têm impacto no fluxo cambial. Elas usaram o câmbio para uma operação de financiamento em reais. Portanto, quando demanda câmbio, tem prejuízo, sim, mas em reais. Muita gente me pergunta isso. O que vale é a conta de resultados. E ela mostra que a oferta líquida de câmbio é de US$ 200 bilhões de reservas, US$ 30 bilhões de swaps com o banco central americano (Fed) e US$ 23 bilhões de swaps cambiais reversos (valor antes da crise). Com isso, é inadmissível esse nível de volatilidade e incerteza no dólar real. Qual o impacto disso no dia-a-dia das empresas? Tenho visitado exportadores. Um deles me disse: "O paiol de Brasília está cheio de dólares e nós estamos aqui morrendo de fome". Ou seja, aquela pessoa está pasma, não está entendendo. Essa parada súbita depois da quebra do Lehman (Brothers), sinceramente, para mim, é inadmissível. As pessoas estão tontas. Para onde vai o dólar? Com a expectativa de que o BC vai de fato evitar a volatilidade, prevalecerão os fundamentos. Não tem como haver uma desvalorização do real acima de 20%. Ou seja, para o fim do ano que vem, calculamos o dólar em R$ 2,00.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.