Christina Rufatto/Estadão - 28/8/2018
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Intervenção do BC no câmbio reflete a irresponsabilidade fiscal do Senado, diz sócio da Tendências

Para Nathan Blanche, ao vender dólares da reserva, o Banco Central emite dívida com o único objetivo de acalmar artificialmente o dólar e acaba apagando o sensor dos fundamentos da economia

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 21h37

As intervenções no câmbio pelo Banco Central (BC) nesta quinta-feira, 20, despejando US$ 1,140 bilhão no mercado à vista, foram duramente criticadas por um dos principais especialistas brasileiros em câmbio, o sócio da Tendências Consultoria Integrada, Nathan Blanche. Com a moeda acima dos R$ 5,60, a autoridade monetária fez um leilão na parte da manhã, quando colocou no mercado US$ 590 milhões, e outro à tarde, num montante de US$ 550 milhões.

Blanche - que se diz favorável a que o BC intervenha no câmbio quando a atuação da autarquia visa a combater episódios de volatilidade da moeda - disse ao Estadão/Broadcast, que, desta vez, foi contra porque, em sua visão, a atuação do Banco Central foi para acobertar o que ele classifica de irresponsabilidade fiscal do Senado. Na noite de quarta-feira, 19, a Casa derrubou o veto do presidente Jair Bolsonaro à possibilidade de reajuste dos salários de parte do funcionalismo público. Ao longo do dia, o governo intensificou a articulação para não sofrer nova derrota entre os deputados e evitar piorar a situação das contas públicas do País - o que conseguiu, há pouco mais de uma hora.

Para Blanche, ao vender dólares da reserva, o Banco Central emite dívida com o único objetivo de acalmar artificialmente o dólar. Mais que isso, diz o especialista, a autarquia tenta apagar o sensor dos fundamentos da economia.

 "É muito séria a intervenção do Banco Central num mercado em que a moeda reflete os fundamentos de uma economia e sua capacidade, inclusive de ter reservas em outra moeda", criticou Blanche. Para ele, o Brasil está marchando em direção a uma insolvência fiscal com o apoio do Congresso. A derrubada do veto presidencial permitiria o reajuste salarial para algumas categorias do funcionalismo público até o final de 2021.

"Com essa decisão do Senado, o regime fiscal, o equilíbrio fiscal e o teto fiscal dançaram no Brasil. É um forte passo para a insolvência fiscal. Você tem de somar a esse corporativismo dos funcionários públicos federais os Estados e municípios, porque a decisão afeta eles também. Os Estados e municípios não têm como financiar suas contas", alertou o sócio da Tendências.

Segundo Blanche, trata-se de uma situação dramática em que o único sensor de curto prazo que existe é o câmbio. E aí, diz ele, vem o Banco Central e o apaga. "O BC errou e o que ele está fazendo é atender a uma demanda de hedge futuro com a venda de reservas no mercado à vista", pontuou o especialista.

Ou seja, continua Blanche, é sinal de desespero e isso diminui mais ainda a confiança no equilíbrio do risco fiscal brasileiro. Para ele, a atuação do BC injeta mais desconfiança no sistema porque, na hora que ele intervém, vendendo reservas no mercado futuro para defender a moeda, "diante de uma decisão irresponsável do Senado Federal", é um sinal dramático.

"Toda a sociedade está sofrendo com o desemprego e com o aumento da dívida pública. Em dois anos a dívida pública aumentou mais do que a Dilma [Rousseff] a fez aumentar em seis, sete anos", comparou Blanche.

Ele lembra que no início do governo da petista, a relação dívida na proporção do Produto Interno Bruto era de 50%. Quando o ex-presidente Michel Temer assumiu o governo, a dívida já estava em 75% do PIB. "Agora, em um ano, a gente está aumentando a dívida de 76%, 77% para 90% do PIB porque, segundo o ministro da Fazenda [Paulo Guedes], neste ano a gente vai aumentar o déficit público em 14%", disse Blanche.

Pelos cálculos dele, se forem atendidas as correções salariais do funcionalismo, sem contar os desembolsos para combate à covid-19, a dívida ultrapassaria os 100% do PIB já no ano que vem.

"Então, quando o BC intervém no câmbio, ele não está só atuando para baixar o dólar. O câmbio funciona como um indicativo de confiança na moeda que, por sua vez, representa a desconfiança dos agentes econômicos na capacidade dos termos de troca no valor de sua moeda", disse o especialista, acrescentando que, se o BC não atuasse, o real poderia chegar a uma desvalorização de 40% a 50%.

Neste caso, segundo Blanche, em vez de o BC baixar a febre, está quebrando o termômetro. "Sou sempre a favor de que o BC interferir, mas por causa de volatilidade, como fizeram Gustavo Franco e Henrique Meirelles, que visaram a combater os efeitos da irresponsabilidade de outros países. Agora, está refletindo irresponsabilidade nossa, por conta do relaxamento do equilíbrio fiscal", disse Blanche.

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