Intoxicação

Apesar do fracasso do PIB e da esticada da inflação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, insiste em que a política econômica do governo Dilma está correta e que, um pouco mais tarde do que o inicialmente esperados, os resultados virão.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2012 | 02h03

Para explicar o atraso, desenvolveu a teoria de que a economia está agora em processo doloroso e temporário de desintoxicação e que, uma vez completado, tudo será diferente - e melhor.

No artigo que assinou na edição de domingo do Estado, Mantega explica que o setor produtivo estava viciado (e ainda está) em juros e em câmbio valorizado (baixa cotação do dólar). Os juros altos, diz o ministro, contaminaram o sistema produtivo porque as empresas passaram a contar mais com o retorno financeiro (aplicações no sistema bancário) do que com o operacional. Da mesma maneira, o dólar barato havia empurrado as empresas ao fornecimento externo de máquinas, componentes, peças, conjuntos e capital de giro (empréstimos em moeda estrangeira). A desvalorização cambial de cerca de 20% ao longo de 2012, aponta o ministro, provocou elevação de custos e prejudicou o resultado das empresas brasileiras.

No entanto, prevê Mantega, a persistência de um quadro de juros baixos e de moeda mais desvalorizada criou condições para livrar as empresas da dupla dependência. É esperar mais um pouco e ter mais paciência para ver.

A teoria da intoxicação está correta. As empresas vinham operando à base de consumo excessivo de substâncias tóxicas. O problema de Mantega e do governo Dilma é que não conseguem se dar conta de que toda a economia, e não só as empresas, está sendo atacada por outros tóxicos tão ou mais sérios do que o juro alto e o câmbio baixo demais.

Tudo começou pela estratégia de privilegiar o consumo e não o investimento. A formação de poupança vem sendo fortemente desestimulada. Desde 2003, o governo deu pouca importância ao desenvolvimento da infraestrutura e, neste momento, enfrenta apagões por toda parte: na área de energia elétrica, na telefonia, nos transportes rodoviários, nos aeroportos, nos portos, na produção de petróleo e de etanol.

As agências reguladoras, encarregadas de manter os sistemas funcionando e de cobrar eficácia em cada setor, foram confiadas a compinchas políticos, recrutados até por uma secretária da Presidência da República em São Paulo - como se viu pelos escândalos revelados pela Operação Porto Seguro.

Ainda na segunda-feira, na Rede TV, o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, reconhecia que "faltou filtro". E acrescentou: "É doloroso ver companheiros nossos se enriquecendo ao longo desses anos".

Ou seja, a intoxicação da economia brasileira, responsável pela sucessão dos pibinhos, pela estocada da inflação e pela falta de investimentos, é mais ampla e mais profunda. Todo o governo Dilma está precisando de um estágio na irmandade dos Alcoólicos Anônimos para obter ajuda e se livrar dessas dependências.

O risco é o de que passe mais um ano sem os resultados esperados porque o governo partiu de um diagnóstico parcial do problema e demorou mais do devia para apenas começar a enfrentar a intoxicação do sistema.

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