Intrépidos, mas humanos

O 'boom' do consumo na China não será suficiente para socorrer a combalida economia mundial

The Economist

30 Setembro 2015 | 02h05

Nos anos 1950, a Nova Vila de Caoyang, localizada nos arredores de Xangai, tornou-se um dos primeiros assentamentos modelo da China para os heroicos trabalhadores socialistas. Milhares vieram habitar suas casas simples e semelhantes para fazer funcionar a indústria têxtil de propriedade estatal. Hoje, erguendo-se das antes modestas ruas, há um edifício elegante destinado a um novo tipo de cidadão modelo: o consumidor.

O Global Harbor está entre os maiores shoppings do mundo, com área construída equivalente a quase 70 campos de futebol. Há uma mistura de falsa arquitetura europeia e uma seleção de lojas tipicamente asiática. Sob as altas redomas de vidro e murais imitando o Renascimento temos um café inspirado em Hello Kitty, meia dúzia de restaurantes oferecendo macarrão, joalherias repletas de ouro e um teatro usado para concursos de karaokê.

Não é exagero dizer que as esperanças para a economia da China se apoiam nas falsas colunas gregas do Global Harbor. Com as décadas de boom no investimento chegando a um fim abrupto, o país precisa que o consumo ganhe força para se tornar um novo fator de impulso ao crescimento. Este reequilíbrio é comentado há anos, mas se tornou mais urgente com o aprofundamento do declínio industrial chinês. O frenesi nacional de construção civil está perdendo força, as fábricas têm capacidade de sobra e a indústria metalúrgica do norte está à beira da recessão. Nessa semana, um índice de manufatura apontou seu valor mensal mais baixo em seis anos - o sétimo recuo seguido.

Em meio ao pessimismo extremo em relação à economia chinesa nos meses mais recentes, é tentador concluir que o reequilíbrio fracassou. Basta olhar para o mercado de carros, que costuma ser bom indicador da demanda do consumidor. As vendas de automóveis tiveram queda de 3,4% em agosto, em relação ao mesmo período de 2014, no terceiro declínio mensal seguido. Mas outras formas de consumo tiveram alta. Uma recuperação das propriedades estimulou a demanda por móveis, eletrônicos e materiais para reforma, com as vendas de agosto registrando alta de 17% frente ao ano anterior. Das joias aos remédios da medicina tradicional chinesa, as compras ganharam força nos últimos meses.

Sofisticação. As vendas de smartphones recuaram em volume, mas seguem aumentando em valor, conforme os consumidores procuram modelos mais caros. Empresas atingidas pela campanha de combate à corrupção durante o governo do presidente Xi Jinping estão aprendendo a prosperar apesar das novas regulamentações. O lucro das destilarias, em queda no ano passado, apresentou recuperação, impulsionado por marcas mais acessíveis, e não pelas garrafas de valor exorbitante antes usadas para subornar funcionários do governo.

Em geral, as vendas no varejo chinês aumentaram 10,5% em termos reais este ano, bem acima do crescimento econômico (anunciado oficialmente como 7%, mas mais próximo de 6%, segundo muitos analistas). Como sempre, dúvidas pairam em torno dos dados econômicos chineses, mas, neste caso, talvez os números do varejo sejam ainda maiores. O especialista em estatísticas chinesas Nicholas Lardy, do Instituto Peterson de Economia Internacional, destaca que os números do varejo não incluem serviços, uma séria omissão, pois levantamentos indicam que os serviços correspondem a até dois quintos dos gastos do consumidor chinês.

Tudo isso indica que o consumo está absorvendo ao menos parte do vácuo deixado pelo declínio industrial. A principal razão da resiliência dos compradores chineses é o constante aumento na renda. Os salários para trabalhadores migrantes tiveram alta de 10% no segundo trimestre, em relação ao ano anterior, superando a média nacional de 7%. Como os trabalhadores de renda mais baixa tendem a gastar mais de seu salário do que os ricos, isso deu ao consumo uma força adicional.

Uma das preocupações envolve a possibilidade de o crescimento na renda prosseguir, apesar das dificuldades da indústria chinesa. Algumas fábricas estão cortando empregos. Mas os serviços correspondem a uma parcela da economia maior do que a indústria, empregam mais pessoas e continuam crescendo bem.

Bônus demográfico. Também há fatores estruturais influenciando este quadro. Com a população chinesa em idade economicamente ativa agora em declínio, a mão de obra está se tornando mais escassa e os trabalhadores exigem salários mais altos. A proporção da renda poupada pelos lares chineses - quase 30%, uma das mais altas do mundo - também começa a cair conforme a população envelhece e os idosos recorrem a saques da riqueza acumulada. A fatia do consumo dos lares no PIB caiu para 35,9% em 2010, baixo até para os padrões asiáticos, mas tem se recuperado desde então.

Uma mudança de gerações ajudou no processo. Para os chineses mais velhos, a experiência da privação na época de Mao inibe gastos. Numa tarde de domingo no Global Harbor, as pessoas segurando sacolas e formando filas nos restaurantes têm, em sua maioria, entre 20 e 30 anos. "Nossos pais são muito cuidadosos, mas queremos levar uma vida mais equilibrada", diz Lulu Yu, assistente jurídica que foi ao cinema com o namorado para assistir a um filme. Ela é o retrato de uma consumidora madura. Com o corte de cabelo da moda e lentes de contato para fazer os olhos parecerem maiores, ela traz pendurado no braço um par de sapatos de salto alto, compra que ela fez impulsivamente a caminho do cinema.

Isso significa que os consumidores chineses estão prestes a se tornar o motor da economia global, como seus famosos equivalentes americanos? Em certos aspectos, isso já ocorreu. O número de chineses viajando para o exterior teve alta de 19,5% no ano passado, chegando a 107 milhões. Além disso, os turistas chineses gastam mais do que os outros, comprando artigos que são mais baratos no exterior. Tudo isso faz da China a maior fonte de dólares para o turismo. Na Coreia do Sul e na Tailândia, a alta nos gastos por parte de turistas chineses entre 2011 e 2014 compensou a queda nas exportações para a China ao longo do mesmo período, de acordo com a firma de pesquisas Capital Economics.

Mas, mesmo que o consumo chinês conserve seu vigor, ele não servirá de cura para o anêmico crescimento global. Os países exportadores de commodities cuja sorte dependeu da China na década mais recente devem sair perdendo, pois produzem pouco em termos de bens de consumo que interessem aos compradores chineses. De fato, para o mundo exterior como um todo, a mudança chinesa do investimento para o consumo vai subtrair da demanda, já que a fabricação de aço exige mais importações do que manter os estoques de shoppings como o Global Harbor.

Independência. O componente importado do consumo chinês está 11 pontos porcentuais abaixo daquele correspondente ao investimento, de acordo com o banco Goldman Sachs. Um reequilíbrio de 1 trilhão de yuans (US$ 157 bilhões) do investimento para o consumo cortaria assim as importações chinesas em cerca de 110 bilhões de yuans.

Essa relativa independência deve aumentar com o tempo. Um estudo realizado pela consultoria Bain revelou que, das 26 categorias de bens de consumo baratos, as marcas estrangeiras perderam mercado em 18 no ano passado, incluindo cremes para a pele, leite, amaciante e pasta de dente. Em produtos mais sofisticados, as empresas domésticas também estão conquistando mais espaço em território antes dominado por participantes internacionais.

As marcas chinesas de carros responderam por 41% das vendas neste ano, com ganho de 3,5% em participação no mercado. O crescente consumo de serviços, desde cirurgias cosméticas até jantares em restaurantes, apenas acentua a vantagem doméstica, já que a maioria dos serviços é prestada localmente. O boom no consumo chinês é real. Mas não podemos contar com sua capacidade de sustentar a economia global.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR AUGUSTO CALIL, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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