Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Inundada de dinheiro, Suíça vai entrar em recessão

Fim do limite para flutuação do franco suíço fez moeda local se valorizar e retirar a competitividade das exportações do país

Jamil Chade, Corresponde de O Estado de S. Paulo

08 Fevereiro 2015 | 02h05

GENEBRA - De seu sofisticado escritório à beira do Lago Leman, em Genebra, um banqueiro de uma das instituições financeiras mais tradicionais da Suíça confessa, enquanto passa a mão em seu bigode cuidadosamente talhado. "Será um ano de grande turbulência", diz, diante da tempestade de vento que se formava sobre o lago que mais parecia um mar por conta das ondas.

Pedindo anonimato, ele faz uma avaliação da situação da pequena Suíça. E não hesita em alertar que o país entrará em recessão. A avaliação é compartilhada por vários bancos e institutos de pesquisa do país.

Mas, considerada em todo o mundo como um oásis de estabilidade, a recessão na Suíça tem uma histórica única. Se em grande parte da Europa uma situação parecida é resultado de gastos excessivos do governo, de um desemprego galopante ou de erros na política econômica, na Suíça a crise será resultado do próprio sucesso do país, pelo menos na área dos bancos.

Desde 2008, o franco suíço passou a ser usado como moeda de refúgio para investidores de todo o mundo, em busca de um câmbio estável e que não estaria sujeito a eventuais crises geopolíticas. A escolha de árabes, russos, latino-americanos, europeus ou africanos passou a ser o franco suíço, uma moeda de um país com apenas 7 milhões de pessoas, mas que serve de cofre para US$ 6,6 trilhões das fortunas do mundo, mais de 10% do PIB mundial.

Apenas em 2014, a Associação de Bancos Suíços estima que o país foi inundado com mais 340 bilhões de francos em suas contas. A entrada de tanto dinheiro, porém, colocou um desafio ao governo: impedir a valorização excessiva da moeda local, o que afetaria a competitividade de produtos como o queijo, chocolate, relógios, remédios e dezenas de outros setores.

Por três anos, o Banco Central manteve sua promessa de garantir um certo nível para a moeda local. Em dezembro de 2014, o governo anunciou a criação de taxas de juros negativa. Ou seja, se alguém quisesse colocar dinheiro no país, teria de pagar por isso e seu dinheiro não renderia um centavo.

Mas nada funcionava. Depois de gastar US$ 60 bilhões em 2014 para manter a moeda, o BC optou por deixar o câmbio livre. Em dez minutos, ele sofreu uma valorização de 39%, para depois se estabilizar em 18%.

Agora, o próprio governo e bancos admitem: a medida vai ter um sério impacto no país e pode gerar desemprego. "Uma incerteza cada vez maior vai existir se o franco continuar forte", disse a Secretaria de Economia do país.

Na avaliação do Centro de Pesquisas Conjunturais da Universidade de Zurique, a Suíça terá uma contração de sua economia de 0,5% em 2015. Para outro instituto, o BAKBasel, a recessão vai acontecer no segundo semestre, quando a queda nas exportações de bens de tecnologia vai começar a afetar as empresas e seus planos. Hoje, 80% da produção manufatureira do país é destinado ao mercado externo.

Para o grupo Swissmem, que agrega empresas de máquinas industriais, um quinto das empresas pode desaparecer no setor por conta do franco valorizado. Outros, como a Swatch ou a Richemont, anunciaram que vão elevar os preços de seus produtos finais exportados para compensar pela queda de renda.

Na avaliação do banco suíço-brasileiro J. Safra Sarasin, a contração será registrada ainda no primeiro semestre do ano, com uma queda do PIB de 0,5%. "A Suíça entra em recessão", declara Karsten Junius, o economista-chefe da instituição e ex-funcionário do FMI.

Os primeiros dados do ano do setor industrial apontam justamente para um recuo. Em janeiro, o segmento sofreu sua maior queda desde novembro de 2008, quando o mundo vivia o auge da crise econômica. "Claramente, poucas empresas na Suíça esperavam que o BC modificasse sua política", disseram os autores do estudo sobre o setor industrial no Credit Suisse.

Fuga. O que mais chama a atenção dos especialistas é que um número relativamente grande de empresas indicou que já estava pensando em deslocar sua produção industrial para fora da Suíça para ser mais competitivo no mercado exterior. "14% das empresas que consultamos indicaram que estão planejando realocar no exterior parte de sua produção, ou pelo menos congelar seus investimentos na Suíça, assim como as novas contratações de mão de obra", alertou o Credit Suisse.

A nova realidade também abriu um novo debate na Suíça: se empresas e sindicatos devem ou não renegociar salários para baixo para manter os setores competitivos no mercado internacional. A sugestão foi lançada pelo ministro de Economia do país, Johann Schneider-Ammann. Ainda que, dias depois, ele tenha amenizado sua recomendação diante do protesto dos sindicatos, empresas não perderam a ocasião de questionar os salários e apontar que eles estão entre os mais elevados do mundo.

Dados oficiais do governo estimam que o salário médio mensal pago na Suíça seja de 6 mil francos, ante cerca de apenas 1,2 mil francos suíços na Espanha e 2,1 mil francos na França.

O debate ganhou tom político. O presidente do Partido Socialista suíço, Christian Levrat, é quem lidera o grupo que se opõe à medida. "Reduzir a renda do trabalhador vai nos jogar a uma recessão severa", alertou. Para as entidades patronais, se não houver um ajuste, porém, serão as empresas que deixarão de contratar.

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