Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Investidor de Bolsa se defende da crise buscando a segurança dos dividendos

Mesmo em tempos de incerteza, é possível garimpar ações de empresas que mantêm boa geração de caixa e distribuem lucros aos acionistas

Mariana Congo, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 02h03

SÃO PAULO - Algumas perguntas valem muito mais do que um milhão de dólares: a Bolsa já chegou ao fundo do poço? Quando vai começar a recuperação? A resposta de cada um é bem particular, mas é fato que, em tempos de incerteza, investidores que buscam rendimento no médio e longo prazos se apegam ainda mais às ações com boas políticas de distribuição de lucro aos acionistas - os dividendos. São as chamadas "vacas leiteiras".

Segundo professores e analistas de mercado, essas companhias são, em geral, de perfil maduro: geram bastante caixa e não precisam de investimentos elevados. Com essas características, costumam sobreviver melhor a crises econômicas e ainda assim distribuir lucro.

"A carteira com foco em dividendos tende a cair menos do que o Ibovespa. Mas quando a Bolsa retomar o crescimento, elas também deverão crescer menos", pondera o analisa da corretora Ativa, Lucas Marins.

Na XP Investimentos, a carteira de ações com foco em dividendos tem, até agora, performance melhor do que a seleção de papéis sem recorte de perfil. Enquanto a de "vacas leiteiras" rendeu 4,3%, a outra ficou em 2,3% de alta. Os resultados positivos contrastam com a queda de 6,2% do Ibovespa no mesmo período. A carteira de dividendos é focada no setor financeiro, com empresas como Itaú, BB Seguridade e Cetip. "Independentemente do dividendo, é preciso olhar como a empresa está no setor e no cenário econômico. Não olhamos só os dividendos, mas se a ação também tem perspectiva de alta", afirma o analista-chefe da XP Investimentos, Ricardo Kim.

As elétricas, antigamente unanimidade nas carteiras recomendadas de dividendos, hoje são alvo de controvérsia. Isso porque a crise hídrica e diversas mudanças regulatórias prejudicaram a performance dessas companhias.

Na avaliação do estrategista-chefe da Guide Investimentos Luis Gustavo Pereira, dentre as elétricas, é possível diferenciar os resultados das geradoras dos das transmissoras de energia. "As empresas de transmissão sofrem menos com o risco hidrológico", diz. Nessa linha, Pereira destaca as performances da Taesa e da Alupar.

Rendimento. Um dos indicadores usados para avaliação de empresas "vacas leiteiras" é o dividend yield. Ele mostra quanto os dividendos representam em relação ao preço da ação. Um levantamento da consultoria Economatica mostra as dez empresas com maior retorno em 2015 (12 meses encerrados em outubro). A Companhia Energética de São Paulo (Cesp) aparece em primeiro lugar, com 20,23% de retorno. Em abril deste ano, a empresa divulgou pagamento de R$ 4,85 em dividendos para um de seus papéis preferenciais. Apesar do dividendo gordo, como o papel acumula queda de 21% em 12 meses, o dividend yield fica mais inflado.

Na lista das "vacas leiteiras" (veja acima) aparecem outras elétricas, como Cemig e Copel. Além disso, considerando o recorte de setores, as companhias do mercado financeiro se destacam: Bradespar, Banco do Brasil e Santander.

Apesar da estratégia de ganhos com dividendos ser atrativa para muitos, não é unânime. A Tov Corretora não faz recomendação de carteira com essa característica, por exemplo. "Eu nunca achei o pagamento de dividendo uma estratégia aceitável. A empresa deve usar o caixa para investir, mesmo aquelas mais maduras", diz o economista-chefe da Tov, Pedro Paulo Silveira.

Juros. Comparar o rendimento em dividendos com o juro básico da economia parece uma luta totalmente perdida. A Selic está em 14,25% ao ano. "Um dos concorrentes dos dividendos é o Tesouro Direto. Competir com título público é difícil. Ainda mais que a previsibilidade do dividend yield é bem menor", diz o economista da NeoValue Investimentos, Giácomo Diniz. Segundo ele, a cultura do dividendo faz mais sentido em países com juro baixo, como os Estados Unidos.

Na visão do professor e responsável pela estratégia de investimento da gestora TCX, Luiz Antônio Gonçalves Pinto, o juro está hoje em um patamar anormal, mas se espera que não fique assim eternamente. "Nem sempre a ação vai ficar melhor que o juro. Mas a visão de Bolsa é de longo prazo: comprar uma empresa por 25 anos, por exemplo. E é claro que o investidor de Bolsa também tem diversificação em outros ativos, como renda fixa", afirma. Com os dois olhos nos ganhos que virão no futuro, volta a pergunta de mais de um milhão de dólares: quando a Bolsa vai voltar a subir? Ninguém sabe. Mas, enquanto isso, os investidores ainda podem contar com os dividendos.

PRESTE ATENÇÃO:

1. Existe um mantra do mundo dos investimentos: rentabilidade passada não garante retorno futuro. Com base nessa premissa, é preciso observar o indicador de dividend yield com cautela. Esse indicador mostra a rentabilidade dos dividendos sobre o preço da ação. Ele é resultado da soma dos dividendos pagos nos últimos 12 meses dividida pela cotação da ação no início do período. Ele mostra o desempenho passado. No ano seguinte, há sempre o risco de mudanças na política de distribuição de dividendos ou da oscilação da cotação do papel, o que influencia o dividend yield.

2. Para ter direito a receber dividendo, o investidor precisa ter a posse da ação no fechamento de um dia específico, divulgado pela empresa. No jargão do mercado, o dia seguinte é chamado de “ex-dividendos”, pois quem comprar a ação a partir dessa data não terá direito a receber os dividendos daquele ano. Além disso, no dia “ex-dividendos” a cotação da ação da empresa amanhece menor, pois dela foi descontado o dividendo pago.

3. Algumas empresas, em especial os bancos, optam por pagar dividendos todos os meses. Com essa antecipação, tentam cativar seus investidores. Na prática, é apenas uma questão de fluxo de pagamento, pois a empresa sempre vai pagar, no consolidado anual, o que foi previsto em estatuto.

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