Investidor deve buscar empresa com bons dividendos

Para diretor do BlackRock, estratégia de buscar companhias com melhor qualidade deve guiar investimentos

Entrevista com

DANIELA MILANESE, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2013 | 02h06

A forte onda de liquidez criada pelos grandes bancos centrais infla as cotações dos ativos financeiros ao redor do mundo. No atual cenário, é possível argumentar que existe uma bolha no mercado global de renda fixa, já que as iniciativas das autoridades monetárias derrubaram as taxas de juros e colocaram os preços dos títulos de dívida em patamar muito elevado, acredita Timothy Baker, diretor para a área de Global Equity da BlackRock, uma das maiores gestoras de recursos do mundo.

No entanto, ele avalia que os BCs serão cautelosos ao desmontar as estratégias emergenciais em curso atualmente. "É difícil dizer que os bancos centrais permitiriam que essa bolha explodisse", afirmou, em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

Em que ponto estamos da crise global e o que devemos esperar daqui para a frente?

Temos uma perspectiva de baixo crescimento por um período longo. Não compartilhamos a visão de alguns de que a economia dos Estados Unidos vai engatar e levar junto a atividade global. Veremos estabilidade nos países desenvolvidos, com crescimento maior nos emergentes. Boa parte disso é porque estamos nesse processo de desalavancagem global. Esse é um processo com duração de dez anos e provavelmente estamos na metade do caminho. Acreditamos que a estratégia de buscar empresas de maior qualidade e com melhores perspectivas de pagamento de dividendos deverá guiar o ambiente de investimentos.

Como deve ser essa busca por parte dos investidores?

Não estamos procurando países ou regiões especificamente, então não estamos preocupados em saber onde a empresa está sediada, mas sim de onde vêm os seus negócios. Não estamos clamando pelos retornos mais elevados com dividendos. Na verdade, acreditamos que as companhias com os retornos mais elevados do mundo tendem a ter as piores características ao longo dos anos. Isso não fala muito sobre como será o comportamento dos dividendos no futuro. A questão é mais procurar empresas de boa qualidade.

Existe diferenciação entre as companhias de países desenvolvidos e em desenvolvimento?

Se você procura empresas com fluxo de caixa forte e bom controle de investimentos, enfim, se pensa sobre qualidade primeiro, olhará para companhias em mercados desenvolvidos, mas não exclusivamente.

Por quê?

Porque elas tendem a ser mais maduras, com equipes mais experientes, com mais disciplina de dividendos. Nos emergentes, há companhias com boas políticas, mas, pela natureza desses países, elas tendem a estar em setores mais cíclicos. São oportunidades mais limitadas do que nos EUA ou na Europa, onde você encontra empresas como Coca-Cola, Unilever, Anheuser-Busch, Johnson & Johnson, McDonald's.

Os índices Dow Jones e S&P vêm batendo recordes. A elevada liquidez injetada pelos BCs está afetando os preços do mercado de ações norte-americano?

A maior parte da atividade no mercado de ações vem sendo motivada pela injeção de liquidez dos bancos centrais. É por isso que encorajamos os investidores a pensarem mais globalmente. Sim, as ações estão mais caras. E esse é um fenômeno dos Estados Unidos. Se sair dos EUA, não verá cotações batendo máximas históricas. Há outros lugares com precificações mais atrativas.

Como no Brasil, onde os preços das ações parecem atrativos, mas a Bovespa não anda. O que acontece?

Li um estudo, que não era da BlackRock, apontando que o Brasil está assimilando um grande número de pessoas à classe média. Mas, as ações estão sendo negociadas com desconto de 19% em relação aos mercados internacionais e 14% de desconto em relação aos pares latino-americanos.

Há empresas do Brasil que podem ser incluídas na sua lista de boas pagadoras de dividendos?

Acharemos nomes em lugares como Brasil, Taiwan, África do Sul. Podemos encontrar em qualquer país, a escolha está ligada aos fundamentos das companhias.

Temos uma nova bolha no mercado global?

É possível argumentar que existe uma bolha no mercado de renda fixa. Toda a liquidez gerada pelos bancos centrais colocou as taxas de juros em níveis extremamente baixos e os preços dos títulos estão num patamar extremamente alto. Mas, quando pensamos numa bolha, é porque existe algo que a fará explodir. Não sabemos, com certeza, quando os bancos centrais começarão a retirar o gás. Devem fazer isso muito devagar e elevar as taxas de juros de forma administrável. É difícil dizer que os bancos centrais permitiriam que essa bolha (na renda fixa) explodisse.

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