Brendan McDermid/Reuters
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Investidor estrangeiro não volta ao Brasil sem crescimento, diz Fitch

Diretor da agência de classificação diz que, se o impeachment não for aprovado, crise pode se arrastar por três anos

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2016 | 12h07

O investidor estrangeiro está interessado no crescimento e preocupado com as diretrizes do País, no que diz respeito à influência sobre a capacidade de geração de caixa das companhias e pagamento de suas dívidas. A afirmação é do diretor sênior de ratings corporativos da Fitch Ratings, Ricardo Carvalho. "O retorno material de investimento para o Brasil está vinculado ao crescimento econômico, de pelo menos 2% a 3% ao ano", disse ele, durante o Seminário Debêntures, Impactos da Crise Econômica e Política no Perfil das Emissões, realizado em São Paulo.

Carvalho afirmou que há 20 anos não se via uma crise de fluxo de caixa e de liquidez tão profunda. Para a Fitch, a crise de liquidez tem sido a maior preocupação. "Para nós, definitivamente, é um cenário de tempestade que vivenciamos nas companhias brasileiras, por conta da crise de confiança, deterioração do ambiente de negócios interno e externo e a crise de fluxo de caixa e liquidez", afirmou.

Segundo ele, se o processo de impeachment não for aprovado, "vamos arrastar corrente por três anos". E completou: "É preciso aprovar reformas para a retomada de investimentos das empresas. Sem reversão de expectativas efetivamente em 2017, veremos algo igual a 2016", afirmou.

Entre as tendências para este ano, Carvalho afirmou que a curva de recuperação judicial continuará subindo. Parte da geração de caixa das empresas está migrando para o pagamento de juro e muitas tentam vender ativos para gerar caixa. "Das 160 empresas que conversamos, mais de metade está vendendo ativos", contou Carvalho.

"No entanto, poucos foram vendidos, mesmo com a depreciação cambial, ponderou. "Não temos visto grande apetite por Brasil, é mais de quem já estava operando por aqui", acrescentou.

De acordo o executivo da Fitch, o desconforto com questões regulatórias tem sido uma das maiores razões de afastamento do investidor do Brasil, dado que ele normalmente é um investidor global. "O ano de 2016 foi de destruição de valor de ativos, estão excessivamente depreciados, em função da destruição dos principais fundamentos que fazem o estrangeiro vir para o Brasil comparativamente a outros países", disse.

Rebaixamento. Carvalho observou também que em 2016 existe tendência muito alta de rebaixamento, ou  downgrade, no termo em inglês. "Isso aumenta o risco de refinanciamento; na escala internacional esse efeito é muito maior, dado que está influenciada ainda pelo risco País", destacou. Carvalho notou que como a perspectiva para o rating soberano é negativa, essa é uma pressão que deve continuar.

Embora a necessidade de rolagem este ano seja baixa no exterior, o executivo da Fitch disse que essa curva é ascendente em 2017, lembrando que muitas dessas empresas não devem conseguir se financiar localmente, dado o rating incompatível com o apetite seletivo do mercado local. Ele disse ainda que os bancos estão muito duros com a rolagem e que para renovar créditos ao prazo de dois a três anos é preciso comprovar a capacidade de geração de caixa. "Só a receita de venda de ativos e redução e dividendos não é suficiente para segurar os ratings nos bancos", observou.

De acordo com ele, se a empresa depende da rolagem de dívida para gerar caixa, deve perder rating. Ele notou também que as companhias estão tendo de renegociar debêntures a um maior custo e vão se ressentir dessa renegociação em seus balanços por dois a três anos. "Por isso, é importante que o crédito volte, precisamos do mercado internacional de bonds porque a liquidez é muito restrita e superior a uma queda de geração de caixa", afirmou. 

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