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'Investidor estrangeiro tem otimismo cauteloso com o Brasil'

Executivo do banco UBS diz que País precisa fazer mudanças estruturais antes de receber mais recursos do exterior

Entrevista com

Alejo Czerwonko, estrategista de mercados emergentes do UBS

Ricardo Leopoldo, correspondente, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2019 | 10h38

NOVA YORK - Os investidores internacionais têm um "otimismo cauteloso" com o Brasil, porque há expectativas de mudanças estruturais serem entregues pelo governo, entre elas o avanço das privatizações. A avaliação é do estrategista de mercados emergentes do UBS Global Wealth Management, Alejo Czerwonko, em entrevista ao Estadão/Broadcast. Para ele, no entanto, o País está vulnerável a problemas regionais.

"É improvável que vejamos quantidades abundantes de recursos estrangeiros ingressando no País porque os desafios para a economia da região são muitos. Alguns desses desafios locais foram resolvidos e, na margem, as ações da atual administração continuarão a ser bem sucedidas", afirma.

Para Czerwonko, há urgência em reformas estruturais na América Latina. "Há grande urgência de reformas estruturais na América Latina, mas, na região, vários países estão revertendo reformas e não adotando passos adiante. Nesse ambiente, o fato de que o Brasil está tentando e parcialmente sendo bem sucedido em aprovar reformas socialmente difíceis é algo para ser aplaudido."

O estrategista faz uma avaliação positiva da evolução econômica do Brasil no médio prazo, e projeta que o crescimento vai ficar no nível de 2% nos próximos anos, uma marca bem melhor do que o registrado desde 2014. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Qual é a avaliação do sr. sobre o momento que o Brasil passa após a aprovação da reforma da Previdência pelo Congresso?

Há um contexto internacional que precisa ser analisado, no qual a economia global deve registrar uma expansão menor por um período mais prolongado, com baixos juros e inflação. Vemos ampla política monetária acomodatícia pelo mundo, inclusive porque o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) cortou os juros em 0,75 ponto porcentual neste ano e o Banco Central Europeu adotou novamente o programa de relaxamento monetário. São fatores que permitiram que os bancos centrais de vários países emergentes cortassem juros, entre eles o do Brasil. A integração comercial global aparentemente está em reversão, o que não é bom para mercados emergentes.

Apesar dessas condições mundiais, o Brasil está navegando relativamente bem. Enquanto vemos uma desaceleração da maioria dos países, o Brasil está em moderada aceleração. Celebramos a aprovação da reforma da Previdência. Todas as atenções estão voltadas ao novo conjunto de medidas econômicas da administração do presidente Jair Bolsonaro, que inclui passos para a administração do Orçamento ter mais flexibilidade e a reforma administrativa. Há também as privatizações que esperamos que serão agilizadas. Não aguardamos que todas as medidas passem a vigorar em 2020, mas sim um segmento dessas ações.

Como o sr. avalia o fato de o governo ainda não ter apresentado uma proposta de reforma tributária, que analistas dizem ser essencial para melhorar o ambiente de negócios e ampliar investimentos no País?

Há restrições estruturais para o crescimento no Brasil que provavelmente não serão resolvidas de uma vez e não esperamos que a expansão do PIB volte a 3% na atual administração. Avaliamos que o crescimento nos próximos anos deve ficar em um patamar de 2%.

O crescimento de 2% é suficiente para o Brasil?

Não penso que é suficiente para o Brasil, mas é melhor do que um crescimento médio muito baixo, que foi registrado nos últimos anos.

O governo está sendo eficiente em construir consenso no Congresso para viabilizar as reformas estruturais?

Claro que mais precisa ser feito para que o Brasil tenha um maior ritmo de crescimento. Ao mesmo tempo, com as reformas que já foram aprovadas e com as novas medidas que devem ser aceitas pelo Congresso no próximo ano, mais um ambiente de juros básicos muito baixos, há uma grande mudança no País em relação à realidade registrada há alguns anos. Há uma elevação da alocação de crédito por empresas privadas em relação ao setor público com os juros baixos, o que é positivo.

O governo poderia fazer mais? Certamente. O governo poderia aproveitar mais o atual ambiente político? Sim. No entanto, não podemos esquecer que o Brasil enfrenta muitas limitações sociais e econômicas que os países na América Latina passam.

Essa não é mais uma razão para avançar nas mudanças estruturais no Brasil?

Sim, mas há desafios políticos que precisam ser superados. Há grande urgência de reformas estruturais na América Latina, mas na região vários países estão revertendo reformas e não adotando passos adiante. Nesse ambiente, o fato de que o Brasil está tentando e parcialmente sendo bem sucedido em aprovar reformas socialmente difíceis, é algo para ser aplaudido.

Por que, então, a equipe econômica ainda não apresentou a proposta de mudanças nos impostos?

Para ser bem sincero, é um fato intrigante para nós porque ainda não propôs, pois este é um período precioso, embora acreditamos que uma proposta pode ser apresentada ainda neste ano. Em 2020, ocorrerão eleições municipais no País e a agenda legislativa estará fechada na segunda metade do ano. Timing é essencial.

O senhor teme que o governo não conseguirá a aprovação da reforma tributária no Congresso em 2020?

Sim, claro. Se a história recente de aprovação de reformas no Brasil é um guia, é necessário muito tempo para que uma reforma tão importante seja aprovada pelos legisladores, como ocorreu com a Previdência Social. Estamos confiantes de que outros passos menores poderão ser adotados no próximo ano, como os relacionados às privatizações e à reforma administrativa.

Um crescimento de 2% do País deixa muito a desejar, mas se o Brasil conseguir manter este ritmo por vários anos será muito mais atraente para investidores do que as marcas registradas nos últimos cinco anos, o que também será mais interessante do que o registrado por outros países emergentes, inclusive na América Latina. Não será um desempenho macroeconômico estelar que atrairá investimentos estrangeiros, mas é uma melhora em relação à realidade que o País enfrentou na última metade de década. E serão estabelecidas as fundações para que o crescimento do Brasil seja maior posteriormente, embora não seja garantido. Há melhoras marginais na direção correta. Penso que sair do atual patamar para uma trajetória consistente de 3% de crescimento ao longo do tempo é uma ilusão.

O que seria necessário fazer para que o crescimento atinja 3%?

Seria necessário uma abrangente reforma tributária e um esforço agressivo para reduzir regulações e burocracias a fim de tornar mais fácil realizar negócios, para abrir e fechar empresas no País. Acredito que o atual governo tem chances de enfrentar essas questões e há muito trabalho a ser feito.

O sr. acredita que até o fim do governo Bolsonaro o País vai atingir 3% de crescimento?

Isso não faz parte do nosso cenário-base. O ponto inicial dessa trajetória já foi muito desafiador, se for observado que o ritmo do crescimento do País nos últimos cinco anos.

Fatores como brigas políticas também influenciam a retomada do crescimento?

Brigas internas dentro do partido do governo não ajudam. O relacionamento entre governo e Poder Legislativo poderia ser melhor. Além disso, há consideráveis interesses que em qualquer país, inclusive no Brasil, tornam a adoção de tais mudanças estruturais uma tarefa muito desafiadora. Por outro lado, há forte liderança na equipe econômica, cujo ministro (Paulo Guedes) tem o sinal verde para ter liberdade de atuação.

Mas há sinais de que o presidente não está convencido de que são necessárias mudanças estruturais no País, além da realizada na Previdência...

Não estou certo se o presidente está engajado em cada item da agenda de reformas, mas no geral ele tem demonstrado que parcialmente ele está comprometido. É cedo para descartar o sucesso da reforma tributária e de toda a agenda econômica.

Como investidores internacionais avaliam as perspectivas de investimentos para o Brasil nos próximos anos?

A comunidade de investidores não está excessivamente animada com a América Latina em geral. O Brasil é visto como uma área de relativa melhora. Eu avalio que os investidores têm um otimismo cauteloso com o País e há expectativas por algumas medidas estruturais que serão entregues pelo governo. No entanto, é improvável que veremos quantidades abundantes de recursos estrangeiros ingressando no País porque os desafios para a economia da região são muitos. Alguns desses desafios foram resolvidos e, na margem, as ações da atual administração continuarão a ser bem sucedidas.

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