Marcos Correa/PR
Bolsonaro anunciou troca do presidente da Petrobrás, provocando nos investidores internacionais o temor da volta de uma política intervencionista nas estatais.  Marcos Correa/PR

Investidor estrangeiro teme que Bolsonaro repita nas estatais o intervencionismo do governo Dilma

Grandes bancos, como JPMorgan, Credit Suisse e Bank of America, cortaram suas recomendações para a Petrobrás e elevaram o tom pessimista em relação ao Brasil

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 15h53

A decisão de Jair Bolsonaro de trocar o presidente da Petrobrás provocou surpresa e trouxe, entre os investidores internacionais, o temor da volta de uma política intervencionista do Planalto nas estatais, nos moldes da gestão de Dilma Rousseff. Aumentou também a preocupação com uma estratégia mais populista na área fiscal, conforme relatos de analistas e investidores estrangeiros ouvidos nesta segunda-feira, 22, pelo Estadão/Broadcast. O risco imediato é de aumentar ainda mais a seletividade dos fundos com o Brasil, que tem se beneficiado de uma onda geral de fluxos em busca de retorno nos emergentes. 

"Vende, vende, vende", foi uma das expressões ouvidas pela reportagem ao contatar investidores em Wall Street sobre a Petrobrás. Outro profissional, também em Nova York, disse: "Isso é um grande choque de credibilidade para o Brasil. Esta foi minha última tentativa de investir na empresa e no Brasil. São movimentos inaceitáveis". Um terceiro investidor, em Chicago, ressaltando que zerou suas aplicações na Petrobrás, afirmou: "Vimos isso em 2015. Concordo com a visão de que o governo atual quer salvar sua popularidade, são medidas desesperadas, vejo nova piora fiscal." 

Grandes bancos, como JPMorgan, Credit Suisse e Bank of America, cortaram suas recomendações para a Petrobrás e elevaram o tom pessimista em relação ao Brasil. Os analistas do JP afirmaram estar "surpresos" com a mudança anunciada por Bolsonaro e recomendam redução de exposição na empresa, em meio à elevada incerteza sobre o cenário no curto prazo.

"É um sério problema para a lucratividade do segmento de logística da Petrobrás e, ainda mais importante, para sua credibilidade no mercado internacional", comenta o analista de petróleo do americano Raymond James, Pavel Molchanov. A recomendação dele é que investidores interessados na petroleira sempre levem em conta o "intenso nível de risco político".

Para Molchanov, que acompanha a empresa brasileira há anos, o nível de interferência de Bolsonaro na Petrobrás é fundamentalmente o mesmo de governos anteriores, como o de Dilma, de tentar interferir na política de preços para ganhar apoio político. A diferença agora, diz o analista, é que Bolsonaro foi eleito afirmando que não haveria interferência, mas resolveu quebrar a promessa.

Juros

Para Priscila Robledo, economista de América Latina em Nova York da Continuum Economics, consultoria de Nouriel Roubini, a decisão de Bolsonaro é negativa, pois fica clara sua intenção de interferência. É crescente a chance de que a batalha do presidente contra a paridade internacional nos combustíveis vai acabar prejudicando a já ruim situação fiscal do País, colocando pressão adicional nos juros, câmbio e, mais importante, afetando a confiança dos investidores, prejudicando ainda mais a atividade econômica.

Na avaliação de Klaus Spielkamp, responsável em Miami pela área de vendas e trading da Bulltick, a questão da troca de comando da Petrobrás e dos preços de combustíveis vem se somar a um momento econômico e político "bastante fragilizado" no Brasil, pela maior necessidade de gastos do governo para conter a crise gerada pela pandemia. "Se espera e se faz urgente que o Brasil consiga fazer as reformas, e, para isso, o ambiente econômico e político tem de estar em ordem."

"Intervencionismo nunca é bem visto na comunidade financeira internacional", afirma Spielkamp. Mas ele pondera que uma greve de caminhoneiros nos moldes da de 2018 seria um ponto final para as chances de reformas. O analista comenta que, em outros momentos, já viu mudanças de presidente da Petrobrás que foram anunciadas como um desastre para a empresa e ela sempre sobreviveu, "inclusive durante as barbaridades que vimos durante o governo Dilma".

O economista-chefe de emergentes da consultoria inglesa Capital Economics, William Jackson, comentou  nesta segunda-feira que a decisão de demitir o atual presidente da Petrobrás aponta para uma maior intervenção do governo na economia e "pode também ser um prelúdio de uma política fiscal mais flexível". Por isso, o mercado financeiro doméstico deve permanecer sob forte pressão e cresce a chance de alta de juros no mês que vem.

Para a também inglesa TS Lombard, o episódio "populista" da Petrobrás aponta para o crescente risco de Bolsonaro prorrogar o auxílio emergencial sem cortes de despesa. Neste ambiente, a TS espera alta de juros já em março, de 0,50 ponto porcentual.

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Intervenção de Bolsonaro na Petrobrás derrete ações de estatais e derruba Bolsa

Mercado financeiro não reagiu bem ao anúncio de troca na presidência da petroleira e papéis da empresa caíram mais de 21%; Ibovespa cedeu 4,9% e dólar teve alta de 1,3%, após bater em R$ 5,53 na máxima

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 10h32
Atualizado 22 de fevereiro de 2021 | 19h35

A intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás, com o anúncio, na sexta-feira, 19, de que iria trocar o presidente da estatal, trouxe forte impacto para o mercado financeiro nesta segunda-feira, 22. As ações da Petrobrás, claro, lideraram entre as perdas do Ibovespa, com queda de mais de 21%. Mas os efeitos não se restringiram à petroleira. Os papéis de outras estatais também tiveram queda forte: Banco do Brasil caiu 11,06%, e Eletrobrás, cerca de 0,69%, após recuar mais de 7% no começo do pregão.

Em resposta, a Bolsa brasileira, B3, fechou em queda de 4,87%, aos 112.667,70 pontos nesta segunda, maior queda para um único dia desde 24 de abril e menor valor de fechamento desde 3 de dezembro. Na mínima do dia, o Ibovespa tocou os 111.650,26 pontos. menor nível intradia desde 2 de dezembro. Já os papéis ON e PN da Petrobrás tiveram quedas de 20,48% e 21,15% cada. "Sozinhas, as duas ações da Petrobrás derrubaram mais de dois mil pontos do índice hoje", aponta João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos.

Perto do fim da sessão, a notícia de que um juiz federal de primeira instância em Minas Gerais determinou que o presidente Bolsonaro preste informações em 72 horas sobre a troca de comando na estatal levantou o temor de que a questão venha a ser judicializada, inclusive no exterior, observa um operador. Já a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), anunciou que abriu um processo para investigar a troca no comando da estatal.

A decisão do governo de trocar o comando da Petrobrás após os reajustes nos preços dos combustíveis tem viés negativo na análise de risco de crédito da estatal, segundo a Moody's, enquanto, para a S&P, a interferência pode afetar a lucratividade e o fluxo de caixa da empresa. Somente hoje, a perda em valor de mercado da companhia somou R$ 73,2 bilhões. No pregão anterior, depois das ameaças do presidente, foi registrada uma perda de R$ 28,2 bilhões.

Nesta segunda-feira, casas como XP, Bradesco BBI e Credit Suisse reduziram o preço-alvo e cortaram a recomendação para as ações da petrolífera - por sua vez, o JP Morgan rebaixou a recomendação para os bonds da empresa. "Evidentemente, temos uma situação negativa não apenas para os papéis da Petrobrás, como também para os ativos brasileiros em geral, levando o mercado a reprecificar o 'risco Bolsonaro'", diz Pedro Paulo Silveira, gestor da Nova Futura Investimentos.

Para o BTG Pactual, "o controle de preços dos combustíveis em meio ao aumento do petróleo é a razão óbvia para se preocupar, mas pode nem ser a principal". "Com o ano eleitoral se aproximando, nossa principal preocupação fica com o que o novo CEO e sua nova diretoria implicam para a alocação de capital e, mais importante, o fluxo de dividendos; e a venda de ativos não essenciais, principalmente a venda de refinarias e seus preços, com compradores agora podendo retirar propostas ou oferecer um tíquete muito menor", diz o relatório assinado pelos analistas Thiago Duarte, Pedro Soares e Daniel Guardiola. 

Colocando o cenário macro em revisão, a Ativa Investimentos prevê câmbio e juros mais elevados, deterioração fiscal possivelmente maior e PIB mais baixo. "O discurso dele (Bolsonaro) torna-se populista quando se vale de uma tentativa de colocar o povo como explorado. Ao afirmar que não vai interferir e adiciona um 'mas', ele está justificando a interferência, o que implica incoerência", observa em nota Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa.

"Há um calafrio, pela lembrança recente do governo Dilma (Rousseff) e do que se viu então sobre o setor elétrico e a própria Petrobrás. O pesadelo passa de novo. E com os generais cada vez mais em evidência no governo, ainda faz lembrar a Venezuela, de Chávez, um líder militar a quem Bolsonaro chegou a elogiar no passado", diz uma fonte de mercado. O silêncio do ministro Paulo Guedes sobre a demissão sumária de Roberto Castello Branco, um liberal pós-graduado em Chicago indicado pelo próprio Guedes, também não passou despercebido. "O governo rasgou a fantasia."

Para membros do conselho de administração da Petrobrás, que têm reunião marcada para terça-feira, 23, a mudança no comando da empresa é vista como inevitável. Alguns conselheiros da estatal estudam votar pela recondução do presidente Roberto Castello Branco, mas o estatuto dá poder à União para fazer a troca.

Ações de ItaúBradesco também caíram 7,28% e 6,56% cada, de olho na baixa nos papéis do Banco do Brasil. Entre analistas, a percepção é a de que o presidente do BB, André Brandão, com quem Bolsonaro entrou em rota de colisão em janeiro, será o próximo da lista de demissões. 

Câmbio

O câmbio também foi afetado pela pressão interna causada pela interferência na Petrobrás. O dólar fechou hoje em alta de 1,27%, cotado a R$ 5,4539, devolvendo os ganhos após a alta 'exagerada' do dia. Antes disso, o leilão de US$ 1 bilhão de dólares feito pelo Banco Central, quando a moeda bateu em R$ 5,53 na máxima do dia, alta de 3%, teve efeito moderado sob a moeda. A turbulência também faz crescer a aposta na alta dos juros: aumentaram as projeções de aumentos de 0,5 ponto porcentual da Selic, a taxa básica de juros brasileira, em março e maio.

No final do dia, o peso mexicano acabou superando o real como moeda com pior desempenho hoje ante o dólar, considerando uma cesta de 34 divisas mais líquidas. "Durante a tarde foi passando um pouco o exagero, teve um pouco de realização após a forte alta", afirma o chefe da mesa de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem. O dólar futuro para março fechou em alta de de 1,57%, a R$ 5,4690.

Para Priscila Robledo, economista de América Latina em Nova York da Continuum Economics, consultoria de Nouriel Roubini, a tendência é de mais pressão no câmbio e nos juros pela frente por conta da interferência do governo na Petrobrás. Há ainda o risco de afetar a confiança dos investidores, podendo assim ter impacto negativo na atividade econômica. "A decisão de substituir Castello Branco é negativa na medida em que a intenção de interferir na Petrobrás fica clara. E a ameaça de que também haverá interferência no setor elétrico claramente não ajuda", comenta.

Pela tarde, declarações do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), em defesa da retomada da agenda das reformas ajudaram a trazer certo alívio, desencadeando o movimento de realização de lucros. O dólar chegou a desacelerar a alta para R$ 5,43. O parlamentar confirmou que a votação da PEC Emergencial/Pacto Federativo com cláusula de calamidade está prevista para quinta-feira, 25, e o texto do Orçamento, com proposta de desvinculação total de receitas, para até 25 de março, ambos no Senado./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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Acionistas minoritários da Petrobrás temem aumento da ingerência política na estatal

Especialistas esperam queda forte nas ações da empresa hoje e perdas ainda maiores se houver interferência na política de preços

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 05h00

A interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás, com o anúncio da troca do presidente Roberto Castello Branco pelo general da reserva Joaquim Silva e Luna, espalhou temor entre os acionistas minoritários da empresa. Apenas na sexta-feira, antes de o anúncio da troca ser oficializado, o valor de mercado da empresa caiu de R$ 383 bilhões para R$ 354,8 bilhões. A expectativa é de que caia ainda mais nesta segunda-feira. E a avaliação é que, se os próximos passos do governo forem no sentido de interferir na política de preços dos combustíveis, essa queda será potencializada, trazendo fortes perdas. 

Para o presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Fábio Coelho, o episódio da última sexta-feira, com a demissão do presidente da Petrobrás pelas redes sociais, é uma demonstração de “abandono de práticas consagradas de governança”. As críticas são, principalmente, quanto ao modo como a demissão aconteceu, sem que o conselho de administração tivesse oportunidade para, internamente, avaliar a indicação do general Luna ao cargo, antes de ela ser anunciada publicamente. “O ponto que chamou mais atenção não foi exatamente a qualificação profissional do novo presidente, mas o desrespeito ao conselho de administração”, acrescentou. 

A Amec e o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) divulgaram nota conjunta na qual destacam a preocupação dos minoritários com uma possível interferência política no comando da estatal. “Nessas situações, a observância de práticas consagradas de governança corporativa se torna ainda mais relevante para garantir que os interesses de todos – acionista controlador, investidores e outras partes interessadas – sejam levados em consideração”, diz a nota. 

O ataque a Castello Branco começou ainda na quinta-feira, depois de a estatal ter anunciado novo reajuste no preço do óleo diesel. Bolsonaro passou, então, a dar declarações de que iria mexer na empresa. O combustível é a principal fonte de custo dos caminhoneiros, uma das suas bases eleitorais com mais poder de pressão sobre a economia. Em sua defesa, a Petrobrás argumenta que segue uma política de paridade internacional, em que os seus valores de venda no Brasil acompanham as cotações do petróleo nas principais bolsas de negociação do mundo. 

A primeira reação do mercado foi de descontentamento com a atitude de Bolsonaro. Agora, os minoritários avaliam os riscos de uma ingerência política no dia a dia da estatal. 

Valor de mercado

Caso a avaliação dos minoritários seja de que a atual política de preços da Petrobrás e o programa de venda de ativos vão ser abandonados, as ações tendem a derreter ainda mais e conduzir a companhia a uma retração do valor de mercado superior aos R$ 28 bilhões registrados na sexta-feira. Mas, se a sinalização for de continuidade das principais bandeiras da atual gestão, os papéis devem sofrer apenas algum desconto, segundo os analistas. 

“Não me surpreenderia se o valor de mercado caísse agora 15% (cerca de R$ 50 bilhões). O que não pode é, por exemplo, alguém falar de repente que o aumento do preço dos combustíveis anunciado pela Petrobrás na última semana não vai ser aplicado. Mas, se o novo presidente da empresa mantiver a política de preço de paridade internacional (PPI), o que vai acontecer é que o mercado vai dar um desconto na ação relativo à percepção de risco”, avalia Glauco Legat, analista-chefe da Necton Investimentos. 

Para Cristiano Costa, analista da J Global Energy, a tendência é que o governo queira controlar a Petrobrás. “A Petrobrás segurava o preço do combustível porque estava fazendo dinheiro com a produção de petróleo. Então, um bolso segurava o outro. Mas, para o acionista, isso não é positivo. Não vejo com bons olhos no longo prazo.” 

Ontem, a XP rebaixou a recomendação das ações da Petrobrás de “neutro” para “venda”, por conta das mudanças. Também revisou o preço alvo do papel de R$ 32 para R$ 24. “Vemos esse anúncio (da troca de presidente) como uma sinalização negativa, tanto de uma perspectiva de governança, dados os riscos para a independência de gestão da Petrobrás, como também por implicar riscos de que a companhia continue a praticar uma política de preços de combustíveis em linha com referências internacionais de preços, ou seja, que reflitam as variações dos preços de petróleo e câmbio”, diz, em relatório, o analista Gabriel Francisco.

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BC leiloa US$ 1 bilhão para segurar o dólar após demissão do presidente da Petrobrás

A intervenção foi feita por meio de swap cambial, um tipo de contrato ligado ao câmbio que, ao ser negociado pelo Banco Central, tem um efeito equivalente à venda de dólares no mercado futuro

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 15h32

BRASÍLIA - Em um dia marcado pela forte alta do dólar ante o real no Brasil, após o presidente Jair Bolsonaro ter demitido o presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, o Banco Central entrou no mercado no fim da manhã. A autarquia promoveu entre instituições financeiras leilão de US$ 1 bilhão numa tentativa de segurar as cotações da moeda americana.

A intervenção foi feita por meio de swap cambial, um tipo de contrato ligado ao câmbio que, ao ser negociado pelo BC, tem um efeito equivalente à venda de dólares no mercado futuro. Como o mercado futuro da moeda americana é o mais líquido no Brasil, sempre que negocia swaps o BC acaba por afetar também as cotações do dólar à vista – utilizado em transações comerciais, remessas ao exterior e operações entre instituições financeiras, por exemplo.

Após ter promovido o leilão de US$ 1 bilhão em swaps entre 11h15 e 11h25 da manhã, o BC vendeu ainda outros US$ 800,0 milhões em swaps entre 11h30 e 11h40 – neste caso, numa operação já prevista, para renovar alguns vencimentos destes contratos cambiais programados para o início de abril.

O efeito da atuação do BC foi perceptível. Após ter sido negociado a R$ 5,5336 mais cedo, o dólar à vista era vendido a R$ 5,4976 às 12h27, conforme o Broadcast.  A alta no dia era de 2,08%.

No exterior, o dólar também sobe ante outras moedas de países emergentes ou exportadores de commodities, como o dólar canadense (alta de 0,08% para o dólar americano), o rand sul-africano (+0,80%), a lira turca (+1,43%) e o peso chileno (+1,34%). Mas o porcentual de ganho da moeda americana no Brasil é bastante superior ao que se vê em outros países.

Isso ocorre porque o mercado brasileiro reage hoje à intervenção de Bolsonaro na Petrobras, que resultou na demissão de Castello Branco. Para seu lugar, foi indicado na sexta-feira, 19, o general Joaquim Silva e Luna. Para aumentar o estresse do mercado financeiro, Bolsonaro sinalizou com mais mudanças nesta semana. Um dos possíveis alvos é o setor de energia elétrica, outra fonte de pressão inflacionária.

Como informou pela manhã o Estadão/Broadcast, em meio à alta nos preços dos alimentos e de combustíveis, os economistas do mercado financeiro já projetam uma inflação em 2021 acima da meta perseguida pelo Banco Central. O Relatório de Mercado Focus – que reúne as expectativas do mercado – indica que a inflação projetada para este ano já está em 3,82%. O centro da meta perseguida pelo BC é de 3,75%. A margem de tolerância é de 1,5 ponto porcentual (inflação entre 2,25% e 5,25%).

Foi a primeira vez, considerando as projeções feitas nos últimos dois anos, que o mercado indica a expectativa de que o IPCA – o índice oficial de inflação – fique acima do objetivo central do BC, ainda que dentro da margem de tolerância. O porcentual diz respeito à mediana de todas as projeções encaminhadas ao BC para formulação do relatório. Mas para pelo menos uma instituição consultada no Focus, a inflação encerrará 2021 em patamar ainda maior, aos 4,61%.

Com o foco voltado para a reeleição em 2022, Bolsonaro tem adotado postura mais intervencionista na economia. A demissão de Castello Branco na Petrobrás foi uma reação aos aumentos mais recentes dos combustíveis nas refinarias, que elevaram a pressão dos caminhoneiros sobre o governo.

No fim de semana, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, tentou minimizar a intervenção ocorrida na Petrobrás. Numa rede social, ele escreveu que o governo “jamais irá intervir em preços e acredita no livre mercado”. “O que existia era uma total falta de afinidade entre o PR (presidente) e o Castello e a troca foi fato isolado”, defendeu.

O mercado não entendeu desta forma. Neste início de tarde, o dólar à vista segue próximo de R$ 5,50. O dólar turismo – ofertado pelas casas de câmbio para quem vai fazer viagens internacionais – era negociado a partir de R$ 5,72 em Brasília e de R$ 5,68 em São Paulo. 

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Por que o mercado reagiu tão mal à interferência de Bolsonaro na Petrobrás?

Após indicação do general da reserva Joaquim Silva e Luna para o comando da petroleira, ações desabaram, levando junto as do Banco do Brasil e da Eletrobrás

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 17h02

O anúncio do presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira, 19, de que iria tirar da presidência da Petrobrás o executivo Roberto Castello Branco e colocar em seu lugar o general da reserva Joaquim Silva e Luna provocou um estrago generalizado no mercado nesta segunda-feira, 22. As ações da Petrobrás caem cerca de 20%, e levam na esteira as do Banco do Brasil (cerca de 11% de queda) e da Eletrobrás (pouco menos de 3%). Por que isso acontece? É porque o mercado é "irritadinho", como disse Bolsonaro no início do mês?

O mercado - nesse caso, os investidores, acionistas da Petrobrás - é sensível, e reage rapidamente toda vez que vê a possibilidade de ganhar ou perder dinheiro. Nesse caso, viu uma probabilidade grande de perder. Roberto Castello Branco vinha fazendo uma gestão ao gosto desses investidores. A empresa vinha sendo enxugada, ativos não prioritários estavam sendo vendidos. O lucro está em alta e todos viam a possibilidade de receber mais dividendos. Uma troca nesse momento, por essa lógica, não faria sentido.

Mas Bolsonaro se disse irritado com a política de preços da empresa, que acompanha a variação do petróleo no mercado internacional - com uma enorme volatilidade. O preço às vezes cai. Mas, nos últimos meses, só vem subindo, e os caminhoneiros, base de apoio do governo, reclamaram e ameaçaram mais uma greve. A troca por um general de confiança do presidente foi a solução mais fácil de ser tomada.

O que o mercado viu nisso? A volta de uma política intervencionista, muito usada no período do governo Dilma Rousseff, que se acreditava enterrada. Na época de Dilma, os preços dos combustíveis foram segurados para evitar que a inflação disparasse. Isso provocou um enorme rombo nos cofres da empresa, que ainda paga por isso.

E o que o Banco do Brasil tem a ver com isso? Em janeiro, Bolsonaro já quis demitir o atual presidente, André Brandão, que anunciou um plano de corte de pessoal e de fechamento de agências - algo feito usualmente pelos bancos privados. A equipe econômica conseguiu segurar a demissão. Mas, no sábado, o presidente disse que haveria mais cortes. E as especulações em cima do Banco do Brasil voltaram com força. 

Quem é o mercado?

No caso da Bolsa de Valores, o "mercado", que é sempre visto como uma entidade etérea, tem CPF e CNPJ. São os investidores, pessoas físicas ou jurídicas. Eles investem nas empresas esperando que elas cresçam, deem lucro, distribuam seus dividendos. E não é mais uma coisa só para ricos ou grandes investidores. A Bolsa tem se tornado uma saída cada vez mais usada pelos pequenos investidores, que buscam uma alternativa para turbinar sua poupança, já que a renda fixa deixou de ser atraente com a queda da taxa de juros.

Petrobrás e Banco do Brasil, principalmente, são papéis bastante procurados, até por serem marcas muito conhecidas dos brasileiros. Então, uma queda tão profunda nas ações acaba prejudicando os grandes investidores, mas também os pequenos, aqueles que têm fundos de ações de seus bancos ou corretoras.

Ao fazer mudanças bruscas, da forma como Bolsonaro fez na Petrobrás, sem que ninguém tenha conseguido entender seu objetivo, traz perdas para todos.

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