Investidor já tentou resgate Cotista de fundo do Cruzeiro do Sul pode ter perda

Com patrimônio de R$ 250 milhões, BCSul Verax 5 Platinum tem 100% dos recursos aplicados em debêntures de empresa que pertence a sócios do banco

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h09

Os cotistas de um fundo ligado ao banco Cruzeiro do Sul correm o risco de não receber o dinheiro de volta. Fontes a par do assunto afirmam que há dúvidas sobre os ativos que compõem o Fundo de Investimento em Participações (FIP) BCSul Verax 5 Platinum. No fim de maio, o patrimônio do fundo era de R$ 251 milhões.

Segundo informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o fundo investiu tudo o que tinha em debêntures emitidas pela Patrimonial Maragato S.A. A empresa pertence a Luís Felipe e Luís Octavio Índio da Costa, controladores do Cruzeiro do Sul.

Luís Octavio é ainda um dos sócios da Verax, administradora de recursos de terceiros ligada ao banco, que é a responsável pela gestão do BCSul Verax 5 Platinum. Como é uma unidade de negócios independente, a Verax não está sob intervenção do Banco Central (BC).

A gestora continua funcionando normalmente, apesar de o Cruzeiro do Sul estar sob Regime de Administração Especial Temporária (Raet) desde 4 de junho. Na ocasião, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) assumiu a administração do banco. O FGC foi criado pelas instituições financeiras em 1995 para garantir os depósitos do sistema.

O artigo 14.º do regulamento do fundo afirma que "é vedada a aplicação de recursos em títulos ou valores mobiliários de companhias nas quais participem, direta ou indiretamente, o administrador (do fundo)".

Indagada pela reportagem se essa regra não impediria a Verax de investir em debêntures de uma empresa que tem Luís Octatio e Luís Felipe como sócios, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que "não comenta casos específicos".

Caixa escolar. No cadastro da Receita Federal, as atividades da Patrimonial Maragato são assim descritas: atividades de consultoria em gestão empresarial, exceto consultoria técnica específica; administração de caixas escolares; e atividades de apoio à educação, exceto caixas escolares.

Caixa escolar é definida por um dicionário da área educacional como instituição sem fins lucrativos que tem como função básica administrar recursos financeiros para escolas oriundos da União, Estados e municípios.

Consultada pelo Estado, a Verax deu, por meio da assessoria de imprensa, uma informação diferente. Segundo a gestora de recursos, a Maragato seria uma empresa de investimentos com atuação em vários setores da economia, como shoppings centers e empresas de logística.

A Verax afirmou também que, por ser um fundo de investimento em participações (private equity), o Platinum só prevê resgate ao seu final, em 2014. Por isso, não há preocupação com a liquidez imediata do fundo.

O Platinum é voltado apenas para investidores qualificados. A aplicação inicial mínima, segundo o regulamento, era de R$ 100 mil. Como ocorre em fundos de private equity, o Platinum está fechado para captação. Nesses produtos, o objetivo é reunir investidores, aplicar os recursos em empresas e aguardar anos para que mature.

O Estado apurou que Luís Octavio e Luís Felipe também teriam dinheiro aplicado no fundo. Procurados, eles não se pronunciaram.

FDICs. O BCSul Verax 5 Platinum não tem nenhuma relação com os fundos de investimento em direitos creditórios (conhecidos pela sigla Fdic) criados pelo Cruzeiro do Sul.

Os Fdics têm em suas carteiras empréstimos consignados gerados pelo próprio Cruzeiro do Sul. O banco concedia os créditos e os empacotava dentro dos fundos. O fluxo de pagamento dos devedores não foi alterado com a intervenção - o que, por tabela, não afeta os compromissos desses fundos.

Pelo menos um dos investidores que têm dinheiro no BCSul Verax 5 Platinum procurou a Verax nos últimos dias para tentar sacar a aplicação. Não conseguiu porque, pelo regulamento, só haverá resgates em 2014.

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