Cláudia Trevisan/Estadão
Cláudia Trevisan/Estadão

'Investidor precisa de mais do que preço baixo'

Para Thomas McLarty, empresas dos EUA têm de ser persuadidas de que o Brasil é uma boa aposta no longo prazo

Entrevista com

Thomas McLarty III, presidente do US-Brazil Business Council

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2016 | 04h33

WASHINGTON - A desvalorização do real e a redução dos preços dos ativos brasileiros em dólares despertam o interesse de investidores estrangeiros, mas não são suficiente para convencê-los a entrar ou ampliar sua presença no país. "As empresas têm de ser persuadidas da premissa básica de que o Brasil tem uma boa perspectiva de médio e longo prazos, de que é uma boa aposta. Só o baixo preço não é suficiente, deve haver uma combinação", disse ao Estado Thomas McLarty III, o novo presidente do US-Brazil Business Council. A entidade reúne as cem maiores companhias americanas com investimentos no Brasil e é o principal canal de diálogo entre representantes do setor privado dos dois países, ao lado do Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos, comandado pelo presidente da Embraer, Frederico Curado. Ex-chefe de gabinete e enviado para as Américas do ex-presidente Bill Clinton, o empresário, cuja família é sócia majoritária da concessionária Caltabiano, assume o comando da instituição no momento em que a relação bilateral é ofuscada pela crise doméstica no Brasil e as eleições presidenciais nos EUA. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Esse não parece ser um bom momento para assumir a presidência do US-Brazil Business Council.

Uma crise é uma coisa terrível para se desperdiçar. Há oportunidades, como dizia Confúcio. Mas é claro que não podemos ignorar os desafios econômicos do Brasil e o ambiente político incerto e contencioso. As instituições estão funcionando bem, o que é um sinal positivo para a democracia brasileira. É um momento desafiador, mas há a esperança de que tenha um efeito galvanizador para aprovação de reformas e mudanças necessárias que vêm sendo adiadas.

Qual é o humor das empresas americanas que integram o Council em relação ao Brasil?

É de cautela e prudência. Não vejo empresas americanas saindo do Brasil. Vejo empresas americanas com determinação de continuar com sua presença no Brasil e ao menos considerar oportunidades durante esse período desafiador. Certamente há cortes de gastos de capital, mas temos de olhar para o médio e longo prazos. Nós temos de ser realistas, mas eu vejo algumas oportunidades.

Qual é o impacto da enorme desvalorização do real?

É significativo e nós certamente vimos isso na nossa empresa familiar, do setor automotivo, que foi afetado de maneira muito dura. Quando a economia entra em dificuldades, o valor das moedas reflete isso. Vimos isso na China, por exemplo. Isso demanda políticas econômicas sérias de parte do governo e do Banco Central. Do ponto de vista dos EUA, a desvalorização torna investimentos no Brasil potencialmente mais atrativos.

O sr. vê empresas interessadas em investir no Brasil porque o país ficou barato?

Sim, mas ainda cautelosas. Elas têm de ser persuadidas da premissa básica de que o Brasil tem uma boa perspectiva de médio e longo prazos, de que é uma boa aposta. Só o baixo preço não é suficiente, deve haver uma combinação.

Na semana retrasada o Citibank anunciou que está abandonando seu negócio de varejo no Brasil depois de 100 anos. Isso é um reflexo do que está acontecendo com investidores americanos no país?

Não podemos chegar a uma conclusão abrangente a partir da decisão de uma empresa individual. O Citigroup é uma das mais respeitadas organizações globais dos EUA e a decisão reflete uma racionalização de seu foco, não apenas no Brasil. Temos um momento muito problemático e frágil da economia mundial. Há ansiedade, frustração e raiva. Mas o Brasil é um país forte e resiliente. Se as instituições continuarem sólidas - e eu acredito que elas continuarão -, o Brasil vai superar esse período. Mas isso pode demandar algum tempo.

O que aumentaria a confiança dos investidores estrangeiros?

Há muitos anos os investidores sentem que o Brasil é muito complicado, muito burocrático e muito caro para se fazer negócios, que não é tão competitivo quanto deveria ser em um mercado mundial interconectado. São necessárias várias reformas nos setores laboral, de capital. Não estou falando em não haver fiscalização apropriada do meio ambiente, das empresas, das instituições financeiras, mas da facilidade de fazer negócios. Esse não é um sentimento novo. O Brasil está se movendo em uma direção positiva, mas talvez não na velocidade em que a comunidade empresarial gostaria. Além disso, os empresários querem o mesmo que a população brasileira: ver um governo que dê respostas e possa ser responsabilizado.

A visita da presidente Dilma Rousseff aos EUA no ano passado gerou otimismo, houve criação de grupos de trabalho e a percepção de que a relação bilateral havia voltado aos trilhos. As coisas estão andando?

Sim, mas não de maneira tão robusta quanto se esperava, porque o mundo mudou. Mas a atitude entre os dois países é muito mais positiva.

Quais serão as prioridades de sua gestão no US-Brazil Business Council?

Em primeiro lugar, dar um inequívoco e claro sinal de que estamos engajados e comprometidos com o Brasil. Em segundo lugar, queremos continuar a aumentar o comércio e os investimentos bilaterais. Podemos ter progresso na aprovação de alguns acordos bilaterais sobre investimentos, abertura de mercado, tarifas. Esse será um foco específico tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. De maneira geral, vamos continuar a ver um desejo de simplificar e tornar mais eficiente a realização de negócios no Brasil.

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