Imagem Fábio Alves
Colunista
Fábio Alves
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Investidor prevê 15% de desvalorização

Análise é que emergentes vão sofrer com alta da inflação, crescimento menor e um forte ajuste fiscal; o Brasil está entre os mais vulneráveis

FÁBIO ALVES, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h13

A redução de bilhões de dólares em estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deverá levar a uma desvalorização de mais 15% nas moedas de vários países emergentes, incluindo o real, nos próximos 6 a 12 meses, alertam especialistas internacionais.

Segundo eles, a normalização das condições monetárias nos Estados Unidos resultará num choque externo de grande magnitude para muitas economias emergentes, com alta da inflação, desaceleração maior do crescimento e com custo fiscal extra para rolar a dívida pública. Nesse mapa mundial do contágio, o Brasil está entre os mais vulneráveis a uma forte correção na bolsa de valores, no câmbio e nos juros pagos pelos títulos públicos.

Os mercados financeiros globais despencaram desde que o presidente do Fed, Ben Bernanke, deu sinais, na quarta-feira passada, de que reduzirá o ritmo de compras de ativos, atualmente em US$ 85 bilhões por mês, a partir do segundo semestre deste ano, encerrando provavelmente esses estímulos monetários em meados de 2014.

"Estou muito pessimista em relação a todos os emergentes", diz o chefe de estratégia de mercados emergentes do banco francês Société Générale, Benoit Anne. Nos próximos seis meses, a retirada dos estímulos monetários pelo Fed vai desencadear uma desvalorização adicional de 15% nas moedas emergentes e uma elevação em 3 pontos porcentuais dos juros pagos pelos títulos de dívida pública de países emergentes. "A correção será severa."

Tensão. No Brasil, o dólar chegou a bater R$ 2,2760, na quinta-feira, mas cedeu depois de sucessivas intervenções do Banco Central. Mesmo assim, a moeda americana acumulou na semana valorização de mais de 5% ante o real. No mercado futuro de juros, as taxas dos contratos com vencimento em 2017, por exemplo, já subiram 1,17 ponto porcentual na semana. E a Bovespa ampliou na sexta-feira a queda acumulada neste ano para mais de 22%.

"A reação dos mercados globais, que estamos observando desde o fim de maio, é apenas um aperitivo de como os países emergentes vão lidar com a elevação dos juros dos títulos do Tesouro americano e, por tabela, a valorização do dólar", explica Chris Turner, chefe global de estratégia de câmbio do ING.

Os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano com vencimento em 10 anos subiram mais de 42% no acumulado deste ano. Esse papel fechou 2012 pagando uma taxa de 1,759%. Na sexta-feira, a taxa estava em 2,5%. E quando o Fed começar, de fato, a retirar os estímulos, há quem espere que os juros desses papéis superem 3%. Essa subida dos juros de mercado já começou a atrair de volta para os EUA bilhões de dólares hoje investidos em outros países.

"O prato principal (desse choque) será servido, e sentido, quando o Fed começar a, de fato, diminuir as compras de ativos e reduzir os estímulos monetários", explica Turner. Para ele, o dólar deverá se valorizar mais 10% ante as moedas de países desenvolvidos, como o euro e o iene, nos próximos 6 a 12 meses. As divisas de países emergentes poderão perder até 15% no período.

Saída de recursos. O efeito do choque com a normalização das condições monetárias nos EUA será sentido via reversão dos fluxos de capitais nos países emergentes, na opinião de Ilan Solot, estrategista de câmbio da corretora Brown Brothers Harriman, em Londres. "O pior do ajuste (à redução dos estímulos pelo Fed) está acontecendo agora, nessa primeira fase", diz Solot. Ele acredita, contudo, que a saída de capital deverá continuar. "Eu diria que já passamos por dois terços do ajuste, mas, de agora em diante, ele ficará mais seletivo entre os emergentes."

Para ele, países emergentes com mercados locais de renda fixa e variável mais líquidos, como Brasil e México, deverão sofrer com uma maior saída de recursos, uma vez que os investidores estrangeiros não terão tanta facilidade em sacar as aplicações de mercados ilíquidos, como Colômbia ou Tailândia, para voltar aos EUA.

Solot, do BBH, Benoit Anne, do Société Générale, e Chris Turner, do ING, citam também como os mais vulneráveis aqueles países emergentes com déficits crescentes de conta corrente. Com a reversão dos fluxos de capital, esses países não terão como suprir suas necessidades de financiamento externo. Nesse grupo, estão Brasil, Indonésia, Ucrânia, México, África do Sul, Turquia e Índia.

Bolsa. Muitos desses países foram os que mais receberam recursos de portfólio (como investimentos em bolsas e aplicações em renda fixa) nos últimos anos, segundo o diretor de Pesquisas para a América Latina da Nomura Securities, Tony Volpon. Segundo levantamento feito por Volpon, entre 2009 e 2012, o México recebeu US$ 340,1 bilhões - o equivalente a 8% do Produto Interno Bruto (PIB) mexicano - em fluxo de capital.

No mesmo período, o Brasil recebeu US$ 354,3 bilhões, ou 4,2% do PIB. A Turquia foi beneficiada com entradas de US$ 196 bilhões, ou 6,7% do PIB. Na África do Sul, aplicações de renda fixa e variável somaram US$ 50,8 bilhões, ou 3,5% do PIB, entre 2009 e 2012, enquanto na Indonésia esse número foi de US$ 69,7 bilhões, ou 2,3% do PIB.

"Uma parada súbita no fluxo de capital não significa necessariamente uma saída de recursos, mas resulta frequentemente numa desaceleração na taxa de crescimento desses fluxos", diz Volpon. "A literatura empírica mostra que tais eventos geram uma série de ajustes cíclicos que costumam ser altamente negativos. Manifestam-se na necessidade de rapidamente reduzir os déficits de conta corrente através de uma depreciação substancial da taxa real de câmbio."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.