‘Investidor quer ver medidas concretas’

Para Aswath Damodaran, professor da Universidade de Nova York, estrangeiros ainda desconfiam da duração do governo Temer

Lucas Hirata, O Estado de S. Paulo

05 Junho 2016 | 05h00

O retorno dos estrangeiros ao mercado financeiro do Brasil depende de medidas concretas de ajuste econômico e de uma solução definitiva para a crise econômica nacional, disse o professor de Finanças da Universidade de Nova York (NYU) Aswath Damodaran. Para o especialista, prevalece um tom de cautela entre os investidores, que restringem a exposição ao País. Apesar disso, ele entende que o mercado de ações nacional possui potencial de ganho, principalmente, no setor de consumo.

“No momento, as palavras dos políticos pouco importam para os investidores (estrangeiros). Houve tanto falatório que eles pararam de ouvir”, disse o economista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, em entrevista por telefone. “O mercado está esperando para ver medidas concretas. É com base nisso que o Brasil será avaliado”, disse Damodaran.

Por enquanto, a agenda econômica do presidente em exercício, Michel Temer, tem entre as prioridades uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para criar um teto para o crescimento dos gastos públicos. No entanto, a medida, assim como outros esforços do peemedebista, precisa passar pelo crivo do Congresso, tornando ainda mais essencial a relação de apoio entre o Legislativo e o Executivo.

Para o economista, a deterioração do cenário nacional é fundamentalmente um problema político que está se refletindo no lado econômico. “Os problemas políticos levam mais tempo para serem resolvidos e a solução lógica nem sempre é a solução adotada. É simplesmente política”, disse Damodaran, ao indicar que a tomada de decisões é influenciada pelo ciclo eleitoral.

O mercado também tem desconfiança em relação à duração do governo Temer. “Os investidores sabem que o governo em exercício agora pode não ser de longo prazo”, afirmou o especialista. “O mercado quer ver medidas ousadas, que possam perdurar, mas isso só pode ser conseguido em um governo com um mandato.”

China. Do lado externo, um ponto de alerta para a economia brasileira diz respeito ao enfraquecimento da China. Para Damodaran, muitas empresas são dependentes do país asiático e, embora ainda esteja crescendo, a economia chinesa tem poucos indicadores confiáveis. “Não se sabe o que está acontecendo”, afirmou. “Só entendemos a realidade dois anos depois do fato. Ficamos sabendo da realidade pelo relato de companhias europeias, brasileiras e americanas, porque dados oficiais não são confiáveis”, acrescentou.

“Eu observo a receita e os ganhos das companhias que estão expostas ou investiram na China. Isso (a saúde dessas empresas) é o ‘canário na mina de carvão’ (ou seja, um indicador de perigo) e poderá mostrar que os problemas estão vindo”, disse o economista. Para Damodaran, um pouso forçado no país asiático é possível, mas, caso concretizado, o impacto terá de ser enfrentado globalmente. “Não existe mais um porto seguro na economia mundial”, acrescentou.

Mais conteúdo sobre:
mercado financeiro confiança estrangeira

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.