''Investidor tem o direito de ficar bravo''

Para executivo, é natural que quem perdeu dinheiro na bolsa esteja irritado. Ele acredita, porém, que crise abre oportunidades

Entrevista com

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

26 Dezembro 2008 | 00h00

Antes de se fundirem, em março deste ano, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) fizeram as operações de abertura de capital mais bem-sucedidas da história do País. Juntas, atraíram quase 300 mil investidores. Os dois IPOs, lançados em 2007, representaram o ápice de um movimento que fez disparar o número de pessoas físicas na bolsa brasileira, de cerca de 80 mil no início da década para 550 mil. Em parte, esse movimento resultou de um programa da própria Bovespa, cuja intenção era educar o investidor e, assim, levá-lo para o mercado. Mas a crise global pegou essa geração de brasileiros no contrapé. O Índice Bovespa, que chegou aos 73.516 pontos em maio, fechou na segunda-feira aos 36.470 pontos, uma desvalorização de 50,4%. Mesmo assim, o presidente do conselho de administração da bolsa, Gilberto Mifano, diz que o mercado acionário continua atraindo novos investidores. "Seis mil novas pessoas físicas entraram na bolsa em novembro", comemora. Para ele, o momento é perfeito para ir às compras. "Sempre de forma consciente, pensando no longo prazo", ressalta. A Bovespa fez um movimento bem-sucedido para levar as pessoas físicas para o mercado. O que dizer a essas pessoas agora? Primeiro, é importante colocar de uma forma um pouco diferente da pergunta. Não fizemos esforço diretamente para trazer pessoa física e investidor individual para a bolsa. O que nós fizemos foi um esforço de educação, para transmitir informação. Explicar o que é o mercado, o que é uma companhia aberta, o que significa ser um acionista, qual a relação do mercado de ações com a vida do País. É algo que a nossa geração tinha perdido, depois de tantos anos de alta inflação. Isso era totalmente desinteressado? É claro que não. Havia a consciência de que, levando o conhecimento adiante, em algum momento isso se refletiria num aumento do movimento. Temos 550 mil pessoas que estão aqui e negociaram ações nos últimos seis meses. Isso é pouco, se compararmos com a população brasileira ou com o que há em países como os Estados Unidos. Mesmo assim, cresceu barbaramente, pois no início da década eram 80 mil. Em certa medida, foi fruto do nosso trabalho, mas, principalmente, da estabilização da economia brasileira. Hoje temos um investidor consciente. Diferente das outras crises, não vimos uma debandada geral. Sabe o que aconteceu de outubro para novembro? Seis mil novas pessoas físicas entraram na bolsa em novembro. Elas sabem que está barato, que há empresas boas. É o momento de ir às compras, sempre de forma consciente, pensando no longo prazo. Isso não quer dizer que não possa ficar mais barato. Existe esse risco, que é muito menor do que o risco de ficar mais caro. O brasileiro entendeu a bolsa? Na média, sim. São pessoas conscientes. Não compraram gato por lebre. Sabiam que estavam entrando num mercado de risco, de longo prazo. É diferente dos anos 70, quando a pessoa vinha atrás de dica. Ou dos anos 80, quando o pessoal punha dinheiro num fundo de renda variável achando que era renda fixa. Desta feita, não temos isso. Quais são as diferenças entre hoje e os maus momentos das décadas de 70 e 80? A consciência do investidor. Ele sabe o que está fazendo. Aqueles momentos eram especulativos, com inflação elevada. As pessoas compravam esperando revender logo adiante por um preço maior. Era uma idéia de cassino? Não sei, não gosto dessa palavra porque num cassino a banca sempre ganha. Agora, na média, a pessoa física sabe o que está fazendo. Algumas pessoas perderam e estão bravas. Diria a essas pessoas que têm todo o direito de ficar brava. Eu também fico bravo, pois indiretamente dependo desse mercado. Provavelmente elas não fizeram a lição de casa como deveriam ter feito. Qual a primeira regra? Comprar ao longo do tempo, não apenas em um dia. Investimento em bolsa se faz com um mínimo de disciplina, sistematização. O sujeito que começou a investir em maio e vem fazendo novas compras ao longo dos últimos meses está acompanhando o mercado. Existem pessoas que perderam, se machucaram? Claro, mas também há pessoas que compraram havia um bom tempo e venderam em maio. Estão contentes. Essa é a beleza do mercado. Não é previsível 100%. Tem de fazer suas avaliações, ler, se cercar de bons profissionais. Olhando a partir de hoje, é possível dizer que havia uma bolha na bolsa brasileira? Não gosto do termo bolha, mas sou obrigado a reconhecer que eventualmente alguns papéis, algumas empresas, foram sobrevalorizadas no ano passado. Tinha gente disposta a pagar o preço que pagou por essas empresas. E era gente grande: investidor estrangeiro profissional. Acho que estava puxado, mas, enfim, o freguês é rei. Voltou agora ao preço normal? Não sei. Também tenho minhas dúvidas. E aquela idéia de que a pessoa física foi a última que ficou na "brincadeira da cadeira"? Não tínhamos pessoa física, em geral, dançando música em volta de cadeira. Tínhamos gente consciente, fazendo um investimento, olhando para o futuro, esperando rendimentos a longo prazo. Essa pessoa física continua vindo, continua comprando, agora cada vez mais barato. Houve exagero na febre de IPOs (aberturas de capital)? É claro que houve exagero. Essa sensação já estava instalada no ano passado, mesmo. Mas, de novo, havia um fluxo enorme de recursos vindo para o Brasil. Em média, os estrangeiros compraram 72% dos IPOs. Eles adquiriam empresas brasileiras comparando com pares lá fora. Ou seja, valiam mais ainda do que as brasileiras. Pelo amor de Deus, o Brasil não foi o país que teve o mais exagero em termos de preços. Algumas empresas enfeitaram a noiva além da conta? Alguns bancos de investimento ajudaram nesse processo? Agora dá para ver que sim. A bolsa pode fazer algo? Pode e fez. O Novo Mercado é uma coisa que a bolsa fez que poderia ter ajudado mais do que ajudou para separar o joio do trigo. Naquele momento, o fluxo, a liquidez , era gigantesca. A bolsa criou regras que, voluntariamente, a maioria das empresas que fez IPO aceitou. Entre aceitar seguir e entronizar essas regras no dia-a-dia, são outros quinhentos. Não cabe à bolsa fazer isso. Não vamos sair daqui para auditar as empresas para ver se estão efetivamente rezando pela cartilha que aceitaram seguir. Isso cabe aos analistas e investidores. O Novo Mercado é apenas um processo de aderir a um check-list. Além de ticar a lista, tem de ver, de verdade, como está o comportamento. Faltou fazer isso. Mas isso cabe ao mercado. O sr. vê isso acontecendo? Sim. Claro que vamos passar por um processo de desconfiança geral, no qual até mesmo empresas que se comportaram muito bem serão questionadas. Há, por exemplo, a história dos derivativos tóxicos. Mas faz parte. Avançamos muito, mas, em uma hora de euforia, os investidores se descuidaram. E o IPO das bolsas? A ação da empresa resultante da fusão também vem caindo fortemente. Estamos sofrendo além da conta. O preço de nossa ação não condiz com o negócio que temos aqui. Há uma reação excessiva, não só conosco, mas com várias empresas. Boa parte dos investidores está entendendo isso. Não temos aqui uma romaria de investidores vindo tirar satisfação. Bom sinal disso é a quantidade de pessoas físicas que ainda são acionistas nossos: 134 mil. Esse pessoal conhece minimamente o nosso negócio, faz uma avaliação e sabe que nosso mercado de capitais ainda está engatinhando. Avançamos muito, mas quatrocentos e poucas empresas é muito pouco; 550 mil investidores pessoas físicas é muito pouco; dezoito por cento dos recursos de fundos de pensão aplicados em ações é muito pouco. Eles acreditam que o País vai engatar e o mercado de capitais vai crescer. A bolsa venderá parte do capital para o milionário Carlos Slim? Não. Também não estamos em contato com nenhum investidor que tenha interesse em fazer uma posição maior. Essa notícia que saiu foi surpreendente também para nós. Mas tem gente interessada em comprar participação na bolsa? Sempre tem, mas agora não posso falar nada porque realmente não tenho informação sobre algum interesse. Quais os planos da bolsa? É um momento de crise. Isso é batido, mas crise abre oportunidades. Mas só para quem tem consciência do negócio, estratégia definida e recursos. Nós temos consciência do nosso negócio e sabemos para onde queremos ir. América Latina? Primeiro o Brasil, que está aí para ser conquistado. Somos muito concentrados no eixo Rio-São Paulo. E 2009? É o ano da oportunidade. Ainda vai mostrar a face dura da crise. Para quem tiver consciência do seu negócio, acreditar nele e puder investir sem depender de crédito, é um ano de ganhar posições e estar preparado para quando a crise começar a acabar. O Brasil tem todas as condições para sair na dianteira quando houver a recuperação. Bolsa é mesmo o melhor investimento a longo prazo? Com certeza. Não diria bolsa, diria a economia real de um país como o nosso. É o melhor negócio no longo prazo.

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